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Jornalismo

Sucesso na Educação é ter excelência, equidade e engajamento

A professora de Educação de Harvard Meira Levinson defende que o campo da Ética Educacional pode fazer diferença

PorVictor SantosSoraia Yoshida

31/01/2022

Crédito: Getty Images

Por alguns anos em sua vida, a professora norte-americana Meira Levinson passava os dias em sala de aula, mas pensando na vida acadêmica. Mesmo quando finalmente fez a mudança em 2007, ela diz que ainda é “movida por questões de prática e política educacional, não por questões de pura teoria”, como explicou em entrevista ao Edmond J. Safra Center for Ethics, na Universidade de Harvard. Como professora de Educação e Sociedade em Harvard e codiretora do programa de bolsas de pós-graduação no Centro de Ética, Meira é uma filósofa política normativa que trabalha na interseção da Educação Cívica, empoderamento da juventude, justiça racial e ética educacional.

“Estou no corpo docente de Harvard há 14 anos, então claramente fiz as pazes em ser uma acadêmica em vez de uma profissional”, afirmou. Seu propósito é estabelecer um campo de Ética Educacional que possa ajudar educadores, formuladores de políticas, pais e outros atores no processo educativo a “descobrir algumas respostas para questões profundas”. “E se as perguntas não puderem ser respondidas, pelo menos posso ajudá-los a elaborar bons processos e práticas para refletir sobre essas perguntas com outras pessoas de maneira sábia e produtiva”. 

Como professora de Educação na Harvard Graduate School of Education, Meira acredita que é preciso olhar para os dados da educação pública com urgência, em um momento em que as escolas públicas ainda lutam para lidar com as consequências da pandemia de Covid-19. Lá, como aqui no Brasil, as escolas públicas, seus estudantes e professores foram os que sofreram o maior impacto. Falta de acesso à internet, dispositivos e tecnologia para acompanhar e dar aulas online são apenas algumas das questões para começar. Um estudo recentemente divulgado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic) apontou que mais de 94 mil escolas públicas brasileiras apresentaram dificuldades em realizar todas as atividades pedagógicas determinadas pelo Ministério da Educação durante a pandemia. O número representa 93% de todas as unidades da rede de ensino, que engloba as escolas municipais, estaduais e federais do país. 

Em uma entrevista mediada pela Fundação Lemann, Meira Levinson conversou com Nova Escola com exclusividade, e refletiu sobre o impacto da pandemia na Educação. Segundo ela, algumas consequências só ficarão mais claras daqui a algum tempo. “Eu acho que será difícil, nos próximos anos, sabermos exatamente que tipos de perdas de aprendizagem nós tivemos, mesmo com algumas evidências do que aconteceu com as crianças”, diz.

Avaliação na Educação Básica - Como e por que fazer?

Nesse curso, vamos discutir o papel importante da avaliação por meio de situações reais vividas por professores, mergulhando na prática para entender as intenções que direcionam as escolhas das estratégias avaliativas, do o que e do como ensinar e os resultados da aprendizagem.


Pensando em relações sociais, questões de saúde mental e até risco de violência doméstica, quais são as maiores perdas que vieram com o fechamento das escolas devido à pandemia?

Quando as escolas fecharam, houve um “fechamento” dos alunos enquanto crianças em sua integralidade, e enquanto parte integrante de famílias e comunidades. Nessa perspectiva, há evidências que mostram que muitas crianças enfrentaram desafios significativos no que diz respeito à saúde mental e mesmo à nutrição – afinal, muitos estudantes dependiam das refeições fornecidas pela escola, café da manhã, almoço, jantar e snacks. Há consequências também na área da saúde. Para muitas crianças, o acesso primário à saúde vem através da escola, por meio de guias para tratamento em clínicas médicas. Em muitos casos, crianças com necessidades especiais deixaram de ter acesso aos cuidados terapêuticos de fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional. Sabemos também que muitas crianças perderam a oportunidade de socializar e de se desenvolver em questões socioemocionais – simplesmente porque não tiveram oportunidade de brincar, explorar e descobrir algo que as faça se sentirem bem e serem felizes. 

Muitos estudantes foram expostos ao estresse familiar, relacionado a perdas econômicas e desemprego. Mesmo pessoas que mantiveram seus empregos tiveram uma queda na renda, então há uma tensão familiar no ambiente em que estão inseridas. É preciso se atentar ainda para o fato de que, ao que tudo indica, as taxas de abuso emocional e físico também aumentaram e o fato de que temos menos adultos olhando para as crianças. 

Podemos falar, portanto, apenas em consequências negativas? Ou essa situação também trouxe ganhos?

Em alguns casos, houve ganhos para as crianças. Elas tiveram a oportunidade de estarem mais próximos de seus pais, avós e responsáveis, uma certa liberdade do tipo de ansiedade e pressão social que às vezes enfrentam quando estão rodeadas por outras crianças. Muitos garotos e garotas puderam dormir melhor: há evidências de que estudantes do Ensino Médio, particularmente, obtiveram muitos ganhos por terem tido mais algumas horas a mais de sono. E especialmente para aquelas crianças e adolescentes que possuem acesso a tecnologias, foi possível desenvolver uma aprendizagem mais autodirigida, um trabalho maior com projetos e mesmo estimular conexões on-line com pessoas geograficamente distantes. 

Quais pontos devemos considerar antes de pensarmos especificamente em perdas de aprendizagem?

É muito importante enfatizar que essas perdas e ganhos são muito individuais de cada estudante. Podemos, é claro, pensar em diversos padrões de grupo: crianças de famílias menos privilegiadas sempre sofreram mais do que crianças que pertencem a famílias mais ricas. E também muitas questões sobre crianças cujos pais já estavam pensando em se divorciar, por exemplo, e de repente toda a família estava “presa” em casa. Podemos pensar ainda em diferenças entre crianças extrovertidas e introvertidas; aqueles que tiveram acesso a aparelhos celulares e dados ilimitados de conexão e outros que não tiveram, todas essas coisas que são muito particulares de cada família. Tudo isso nos ajuda a ter uma ideia geral, mas o que nós temos mesmo que fazer é avaliar caso a caso, e entender como foi a experiência individual de cada criança. 

Agora falando especificamente sobre perdas de aprendizagem, quais são os principais tipos de perdas que enfrentamos nesse período pandêmico?

Eu não tenho certeza se já temos essa resposta. Nossa habilidade de monitorar a aprendizagem em larga escala sempre foi um desafio. Temos vários mecanismos pelos quais tentamos medir a aprendizagem em escala, como provas padronizadas de avaliação aplicadas de diferentes formas, mas muitas dessas avaliações não estavam disponíveis para professores quando as escolas fecharam. Tivemos casos em que crianças fizeram a avaliação online, outras não. E entre as crianças que receberam avaliações, muitas conseguiram completá-las sem interrupções, enquanto outras tiveram obstáculos como conexão de internet deficiente.

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Estamos falando não apenas de desigualdade de acesso à internet, mas de desigualdade econômica e social.

Eu não sei como são os dados no Brasil, mas aqui nos Estados Unidos, as crianças mais privilegiadas economicamente não tiveram tantas perdas, seja porque tiveram acesso a tutores particulares (muitas famílias se juntaram para pagar esse tipo de tutoria e garantir que seus filhos tivessem acesso a esse ensino on-line) ou simplesmente contrataram alguém para cuidar das crianças e garantir que estavam estudando. Além disso, no caso das escolas particulares, a grande maioria reabriu bem antes e permaneceu aberta durante boa parte de 2021. Com isso, as crianças de famílias de maior renda aparentemente não sofreram uma tremenda perda de aprendizagem. Esse cenário é muito diferente do que ocorreu em um grande número de escolas públicas, especialmente nas maiores áreas urbanas e que atendem crianças com renda menor. As instituições permaneceram fechadas por muito mais tempo, e muitas crianças não tiveram um acesso consistente a internet de banda larga e outras tecnologias. Para estudantes que estão aprendendo a língua inglesa [imigrantes e filhos de imigrantes que não dominam o idioma] e também crianças com necessidades especiais, é aí que estamos começando a ver evidências de perdas de aprendizagem mais significativa. 

Nesse cenário e ainda pensando em perdas de aprendizagem, o que mais você enxerga?

Para além do que falamos, há outras reflexões necessárias sobre perda de aprendizagem: o que nós efetivamente queremos dizer quando falamos em “perda de aprendizagem”? Estamos falando de perda de aprendizagem em relação ao que aquela criança poderia ter aprendido se a pandemia não tivesse acontecido – ou seja, nos últimos 18 meses, elas não aprenderam tanto quanto teriam aprendido caso as escolas estivessem abertas? Essa é uma maneira de medir isso. A segunda maneira é se questionar: o que essa criança de fato perdeu, no sentido de algo que ela era capaz de fazer e agora, 18 meses depois, não consegue mais? Por exemplo, avaliar se elas se lembram como dividir frações, ou olhar alguém nos olhos e manter uma conversa, ou se regrediram para um estado pré-verbal de fala e escrita. A terceira maneira é comparar crianças que tenham a mesma faixa etária, mas que pertençam a grupos sociais diferentes. 

Implicitamente, eu já estava fazendo isso, quando falei para compararmos crianças cujas famílias possuem renda mais alta com crianças cujas famílias possuem renda mais baixa. Quem aprendeu mais, e o quanto cada um aprendeu? E o quanto isso se compara aos padrões anteriores de desigualdade, que já eram injustos? Porque é claro que as crianças nunca aprenderam a mesma quantidade de coisas, mas com esse tipo de comparativo, talvez a gente descubra que essa desigualdade de aprendizagem foi ampliada entre crianças de grupos sociais diferentes. 

Pensando no dia a dia dos professores das escolas públicas, como é possível enfrentar a questão das perdas de aprendizagem?

É muito importante que nós pensemos sobre o que conta na aprendizagem das crianças. Acredito que os professores fizeram isso ao longo desses mais de 18 meses de pandemia, não é mesmo? Porque rapidamente eles perceberam que não poderiam ensinar exatamente a mesma quantidade das mesmas coisas porque nem todas as crianças tinham acesso a um dispositivo digital e internet consistente. Os educadores começaram a se perguntar: o que é realmente importante aqui, e o que podemos deixar de lado? O que é realmente essencial para os meus alunos saberem? Além disso, os professores precisam perguntar a seus alunos: tem alguma coisa que vocês aprenderam ao longo desse ano tão complexo que gostariam de compartilhar? Porque não foi um ano só de perdas, eles desenvolveram novas habilidades. Os professores precisam fazer isso individualmente para suas classes, mas é muito importante que conversem entre eles e pensem nisso de forma coletiva. 

Estabelecer uma conversa com os estudantes para ouvir o que têm a dizer...

Sim. Os professores precisam perguntar: com o que vocês estão preocupados neste momento? Tem alguma coisa que vocês sentem que perderam? Isso ajudará a entender que tipo de apoio precisam. Porque é isso: crianças e adolescentes têm consciência dos seus maiores medos e preocupações. Então eles podem, por exemplo, dizer: “Eu era bom em Matemática, e agora estou com medo de ter esquecido tudo”. Ao estimular que eles compartilhem essas preocupações, torna-se mais fácil engajá-los nesse retorno gradual às aulas presenciais e ainda auxilia os próprios professores a diagnosticarem quais as principais perdas de aprendizagem que vão necessitar de maior atenção.

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Qual deve ser o papel dos professores na recuperação dessas perdas?

Os professores de escolas públicas estão entre os servidores públicos mais importantes do mundo. Como professora, eu entendo que nós precisamos atender cada criança individualmente, entender como tem sido a experiência dessa criança, do que ela precisa e para qual finalidade. Ao fazermos isso, estamos ajudando a moldar a sociedade do futuro. E essa é uma responsabilidade enorme. 

Que tipo de apoio os professores precisam para consolidar um bom trabalho?

Os próprios professores não ficaram imunes aos efeitos da pandemia – o impacto foi sentido por suas famílias e suas comunidades. Enquanto tentavam servir aos alunos de maneira individual, eles estavam esgotados por tentar fazer um trabalho que se tornou mais exaustivo com a chegada da Covid-19. E ainda cuidar dos próprios filhos ou de parentes doentes. Tem sido tão difícil. Então eu acho que os próprios educadores vão precisar de cuidados, apoio e serviços, para que possam oferecer esse cuidado e apoio aos alunos e famílias que atendem. 

O seu principal campo de pesquisa é a Ética Educacional. O que é e como pode ser aplicada?

As minhas áreas de pesquisa incluem Educação Cívica, Educação Democrática, Educação Multicultural, a interseção entre raça e equidade educacional. E agora eu trabalho com Ética Educacional. Estou tentando criar um campo global de Ética Educacional, nos mesmos moldes de Jan Decker em Bioética, que nos ajuda a tratar dos desafios éticos que enfrentamos em nosso trabalho enquanto educadores e formuladores de políticas públicas em Educação. E isso pode ajudar tanto na prática quanto na política, e ainda desenvolver um campo de pesquisa na ótica da educação. 

Como podemos relacionar a Ética Educacional com todas essas reflexões sobre perdas na aprendizagem? Qual será a importância da Ética Educacional no futuro?

Há uma série de considerações éticas que podem nortear nosso trabalho, partindo de questionamentos. O que realmente deveríamos estar tentando alcançar nas escolas? Por que e quem determina esse direito? Devem ser os formuladores de políticas que estão preocupados com as notas baixas dos testes? Devem ser os professores fazendo suas próprias determinações sobre o que eles acham que precisam enfatizar em suas salas de aula? Devem ser os próprios alunos, dizendo o que valorizam e o que querem levar das escolas? Essas são todas questões éticas sobre quem deve ter o papel de decidir o que as crianças devem aprender e o que as crianças devem fazer. Que tipo de sociedade estamos tentando criar como resultado desse direito? 

Um segundo conjunto de valores éticos sobre os quais venho falando é sobre equidade. Como pensamos sobre as diferenças entre alunos e grupos de alunos ou grupos de famílias? Quando pensamos na Covid-19, como devemos olhar para o impacto nas crianças e famílias? E o impacto nas escolas? Devemos tentar ajudar aqueles que mais perderam ou sofreram mais? Até que ponto devemos alcançar todas as crianças, famílias e comunidades onde elas estão? Até que ponto fazer com que sigam em frente, do modo que melhor possa servi-los? Que tipos de serviços as escolas deveriam oferecer às crianças? São todas questões muito práticas, que partem da ética e que têm influência em nossas decisões. 

Você pode deixar algumas sugestões para professores de escolas públicas e dirigentes de escolas públicas do Brasil?

Os educadores devem se sentir ainda mais confiantes em afirmar que o relacionamento que mantêm com seus alunos é muito importante. Fala-se muito sobre as maneiras pelas quais as tecnologias podem substituir alguns aspectos da aprendizagem, como tornar a educação mais eficiente e escalável por meio do uso de tecnologias digitais. Acho que uma das conclusões realmente claras que podemos tirar do que temos visto é que nada disso corresponde ao poder de uma relação entre o professor e uma criança. Acho que não preciso dizer isso aos professores da rede pública, eles sabem que as relações que constroem com seus alunos estão entre as ferramentas mais importantes que eles têm, e entre os dons mais importantes que podem dar aos seus alunos. Os professores deveriam se sentir realmente orgulhosos e sem culpa em afirmar isso. 

Considerando as pesquisas que você vem acompanhando, o que podemos esperar na construção de um futuro melhor na Educação?

Excelência, equidade e engajamento. Para mim, seremos bem sucedidos quando pudermos oferecer isso aos alunos. Porque se você vai buscar a excelência, então não pode deixar de ter equidade – as pessoas são diferentes e vivem situações desiguais. E os alunos podem não estar engajados, então temos que envolvê-los em um trabalho que é realmente excelente e engajá-los de modo que experimentem e ajudem a tornar a equidade real. As escolas públicas oferecem muito mais do que educação, certo? Educação e nutrição, todas as coisas que vêm junto – e isso é excelente. Também é equitativo. E isso envolve os próprios alunos no aprendizado e onde eles valorizam o que estão recebendo, e sentem que podem fazer uso disso para levar vidas que fazem sentido para eles. Eu tomaria isso como nosso objetivo e nossa medida de sucesso.

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