Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias
Notícias
01 de Março de 2012 Imprimir
5 4 3 2 1

Analfabetismo do 6º ao 9º ano. Como resolver?

Muitos alunos do Ensino Fundamental 2 não sabem ler e escrever. Confira como é possível resolver esse problema

Por: Fernanda Salla

Muitos estão na escola há anos, mas não têm autonomia suficiente para elaborar ou apreciar um texto. Na Prova Brasil de 2009, 68,4% dos alunos do 6º ano não alcançaram a pontuação considerada mínima em Língua Portuguesa pela organização não governamental (ONG) Todos pela Educação, que é de 200 pontos. Quer dizer, elas não têm capacidades plenas de compreender, interpretar, criticar e produzir conhecimento. Ou seja, podem ser consideradas analfabetas.

Esse grave problema, embora tenha raízes nos anos iniciais de escolaridade, precisa receber atenção assim que diagnosticado, seja lá qual for a idade do estudante e o ano em que está matriculado. O adolescente não pode se tornar o centro de uma situação em que ninguém se responsabiliza pela questão ou, pior ainda, em que o professor de Língua Portuguesa é apontado como o culpado por ela.

Não saber ler e escrever implica em consequências para o estudo de todas as disciplinas. "Sem compreender textos e enunciados, o aluno vai ficando cada vez mais para trás em relação ao grupo", explica a educadora Maria Inês Pestana, ex- diretora de Estatísticas Educacionais e de Avaliação da Educação Básica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O resultado é uma pessoa excluída do processo de aprendizagem.

Foi o que ocorreu com Leonardo dos Santos, Aline Gomes e Maria Vitória Brandão, cujos casos ilustram esta reportagem. Eles perderam um tempo imenso até encontrarem professores de Língua Portuguesa que diagnosticaram a situação de analfabetismo e enfrentaram o problema até solucioná-lo.

Identificar a falta de familiaridade de alguns estudantes com a leitura e a escrita requer muita atenção e sensibilidade dos educadores. Há jovens que se recusam a ler em voz alta e não compõem textos por conta própria, escrevendo somente palavras decoradas. Outros só copiam o que está no quadro ou no caderno do colega, sem saber realmente o que estão fazendo - são os copistas. Existem ainda os que se comportam de modo indisciplinado ou apático. Tudo para camuflar o problema, já que se sentem envergonhados. "Culpar o estudante ou tachá-lo de incompetente é inadmissível. Dessa forma, ele vai cumprir a profecia do fracasso. Cabe ao educador enxergá-lo como alguém capaz de aprender, além de diagnosticar o que ele sabe, para usar isso a favor do que precisa ser conquistado", explica Maria Inês.

O processo de alfabetização de adolescentes deve condizer com a etapa de desenvolvimento psicogenético deles e levar em conta o meio sociocultural em que se encontram. Atividades permanentes de leitura e de reflexão sobre a escrita, com material adequado à faixa etária e foco no combate às principais dificuldades, são a chave do ensino. No entanto, o desafio é formar usuários competentes da língua, de acordo com Delia Lerner no livro Ler e Escrever na Escola: O Real, o Possível e o Necessário (Ed. Artmed, 128 págs., tel. 0800-703-3444, 42 reais). Afinal, só decifrar o sistema de escrita é pouco para quem tem muita vontade (e direito!) de aprender.

Conheça três casos de sucesso

"Ele não participava das aulas porque não enxergava bem."

Leonardo e Adenilza. Foto: Marina Piedade

"Desde o início de carreira, sempre notei que alguns alunos chegavam aos anos finais do Ensino Fundamental sem saber ler nem escrever. Leonardo era um deles. Ele copiava as tarefas do caderno dos amigos sem saber o que estava escrito. O que ninguém sabia (nem o próprio garoto) é que ele tinha 6 graus de miopia e, por isso, não enxergava o quadro. Uma professora descobriu o problema em 2010 e lhe deu um par de óculos. Daí em diante, Leonardo precisava recuperar o tempo perdido. Retomei o material de uma formação sobre leitura e escrita que tinha adaptado havia tempos com propostas de alfabetização. Durante as aulas regulares, passei a apresentar atividades de produção de texto, leitura e oralidade, juntamente com o currículo normal. Hoje, Leonardo adora escrever, ficou em nono lugar em um concurso nacional de poesias e foi convidado a publicar o poema em um livro."
Adenilza Lira, professora do 7º e do 9º ano da EM Antenor Nascentes, em São Paulo.

"Eu me perguntava para que existia a escola. Não entendia nada."

"A professora Adenilza acreditou em mim e com ela descobri o prazer de ler e de escrever. Agora sei o valor da Educação na vida de uma pessoa. Hoje, gosto de livros de suspense, contos e história em quadrinhos. Também adoro escrever poesias."
Leonardo dos Santos, 16 anos.


"Calada, ela enfrentou problemas familiares quando criança."

Aline e Diógenes. Foto: Carol de Góes

"Ao conhecer Aline, entendi que alguns problemas de aprendizagem podem ter várias origens. Aos 14 anos, ela era aluna de uma turma de aceleração de 6º e 7º anos - sistema organizado pela escola com currículo mais enxuto e aulas focadas nos pontos em que a turma tem mais dificuldades. Ela sempre buscava na sala um lugar longe dos colegas. Aos poucos, fui conquistando sua confiança e descobri que as dificuldades dela não tinham a ver com conteúdos específicos de Língua Portuguesa do ano que estava cursando, mas com alfabetização. Ela me contou que até os 8 anos sofreu com problemas familiares e, por isso, não se concentrava nas aulas. Assim, não aprendeu a ler e escrever com competência. Calada, não contou a ninguém esse problema. Ao escutar o que ela tinha a dizer e acompanhar seu desenvolvimento, me aproximei dela cada vez mais. Propus tarefas de alfabetização, priorizando a leitura e a escrita de textos. Ela tomou gosto por aprender. Para complementar o trabalho, Aline frequentava aulas de reforço no contraturno.
Diógenes de Carvalho, professor da classe de aceleração do 6º e do 7º ano da CEF 427, em Samambaia, cidade satélite de Brasília.

"Problemas pessoais impediam que eu me concentrasse nas aulas."

"Quando era criança, não tinha um ambiente bom em casa e, por isso, não conseguia prestar atenção nas aulas. Fui reprovada no 1º e no 2º ano, mas não contava para ninguém os meus problemas. O professor Diógenes me fez querer melhorar. Ainda tenho dificuldades, mas já sei ler e escrever. Tenho irmãos e agora posso ajudá-los a estudar também."
Aline Gomes, 14 anos.


"Tímida, ela não revelava a ninguém que não tinha sido alfabetizada."

Maria e Lucimar. Foto: Daniela Nader

"Maria Vitória não dava trabalho aos professores. Eu achava que ela era tímida e queria ajudá-la a se relacionar com os colegas. Um dia, ela falou: ‘Não sei ler, professora’. Na mesma hora, pedi que lesse um texto. Ela apenas soletrava. Assumi o problema e pedi ajuda a alfabetizadores para reunir ideias e materiais. Planejei um trabalho de leitura e escrita para ser feito com ela e estudantes na mesma situação. Esse processo, durante o horário das aulas regulares, promove o aprendizado de todos. Em 2011, trabalhei com 20 crianças com dificuldades e apenas três ainda não leem e escrevem com autonomia. Maria Vitória avançou e hoje apresenta dúvidas que qualquer aluno da idade dela tem."
Lucimar Santana, professora do 6º ao 8º ano e do 1º ano do Ensino Médio da EE Ministro Jarbas Passarinho, em Camaragibe, no Grande Recife.

"Eu tinha vergonha de falar para as pessoas que não sabia ler e escrever."

"Sempre tive muita vontade de aprender, mas não conseguia me abrir, contar para os outros. A professora Lucimar mostrou que eu não precisava ter medo de tentar e me ajudou."
Maria Vitória Brandão, 11 anos.

Tenha acesso a conteúdos e serviços exclusivos
Cadastre-se agora gratuitamente
Cadastrar