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Retrospectiva 2021: os desafios e aprendizados na alfabetização

Nesse segundo ano de pandemia, tópicos como boas práticas, metodologias ativas, recursos tecnológicos e engajamento das famílias foram essenciais para as nossas atividades como professores alfabetizadores

POR:
Mara Mansani

Crédito: Getty Images

Depois de um ano que exigiu muito de todos nós, tanto no aspecto emocional quanto em relação ao nosso próprio trabalho na Educação, só o que vem à nossa cabeça é descanso e férias, não é mesmo? 

Só que antes dessa pausa tão esperada e merecida, precisamos fazer uma avaliação de tudo o que aprendemos e do que vivenciamos em sala de aula, e de como tudo isso impactou a aprendizagem dos nossos alunos, tendo claro que o ano letivo e o ano calendário de 2021 estão acabando, mas em relação à aprendizagem, muita coisa ainda vai se estender até 2022.

De qualquer forma, foram muitos os aprendizados nesse período tão atípico, ainda em pandemia, e que certamente transformaram a nossa prática na alfabetização. Por isso, compartilho com vocês alguns desses aprendizados que estiveram presentes aqui na coluna ao longo de todo 2021. Vamos relembrar alguns conteúdos? 

Curso: Alfabetização: usando diferentes gêneros textuais e metodologia ativa

Este curso tem a intenção de mostrar para professoras e professores a importância do planejamento intencional dos espaços na sala de referência das crianças, de forma a garantir que elas, efetivamente, tenham contemplados os seus direitos de aprendizagem propostos na BNCC.

Competências socioemocionais

Começamos o ano falando sobre acolhimento, empatia e escuta ativa, elementos superimportantes relacionados às questões socioemocionais. Foi um bom momento para refletir e ressignificar a escola como espaço de acolhida de todos, de bem-estar e de aprendizagem. Destaco que o principal ponto relacionado a esse tema é compreender que acolher, escutar, colaborar e outras ações nesse sentido não devem acontecer somente em épocas atípicas e difíceis como em uma pandemia – e sim, devem ser uma prática permanente em nossas escolas.

A saúde mental e física dos professores também foi tema aqui, em uma carta aberta escrita aos secretários de Educação no começo desse ano. Resgato aqui um dos trechos, um pedido que fiz à época: “Ética, respeito e valorização dos professores! Espero que os profissionais possam se sentir como pertencentes de suas redes, não se sintam acuados, tristes e deprimidos, pressionados em ações autoritárias, mas, sim, que tenham o apoio, valorização e orientações necessárias para exercer suas funções com qualidade, responsabilidade e prazer. Isso demanda uma gestão que leve em conta a importância do papel do professor. Que os secretários e secretárias levem em conta o bem-estar, a saúde física e emocional dos educadores.”

Práticas de alfabetização

Com o passar dos meses, apresentei a vocês também duas práticas que nem sempre os alfabetizadores têm clareza de como fazer, destacando ainda os avanços que elas podem proporcionar. São atividades permanentes que podem, inclusive, fazer parte da nossa rotina na alfabetização no início do próximo ano letivo também. Confira:

- Escrita Espontânea

Nessa coluna de fevereiro, comecei trazendo a definição do termo escrita espontânea, segundo o glossário do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): “Considerando que nosso sistema de escrita é alfabético, a escrita espontânea pode ser compreendida como toda a produção gráfica da criança que se encontra em processo de compreensão do princípio alfabético, mesmo quando ainda não domina este princípio.”

A partir disso, vimos naquele momento como é necessário desmistificar a ideia de que a escrita espontânea é algo “largado”, “à vontade” e que não exige mediação e intervenção de um educador – pelo contrário: ela deve fazer parte da nossa prática pedagógica, como destaquei em um dos trechos: “É preciso a intervenção dos professores, com boas perguntas que levem a criança a confrontar as hipóteses levantadas em sua escrita, com a comparação com as escritas de seus pares em sala de aula e com modelos de escrita convencionais.”

- Ditados

Em sua forma tradicional, como eram feitos antigamente, os ditados têm foco na ortografia e gramática. Nesse novo formato que apresentei nessa coluna, o foco é refletir sobre o sistema alfabético, com palavras do mesmo campo semântico, dentro de um contexto, podendo consultar referências de escritas e sempre com apoio na intervenção pedagógica do professor.

Curso: Práticas de Alfabetização para contexto presencial, remoto e híbrido

Esse curso tem como objetivo responder as principais questões que permeiam a realidade de professoras e professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental durante a pandemia e o retorno gradual às escolas.

Metodologias ativas e recursos tecnológicos

- Lousa digital do Google

Em mais de trinta anos de magistério, é a primeira vez que fiz uso de uma lousa digital (Google Jamboard) para desenvolver atividades de alfabetização. Nesse texto de abril, contei como essa foi realmente uma experiência incrível, que abre muitas possibilidades para práticas na alfabetização e qualquer outro segmento. 

O Jamboard pode ser usado no ensino presencial, híbrido ou remoto, mas o ponto  de atenção principal é fazer um bom uso do recurso, porque como venho dizendo há algum tempo, as tecnologias oferecem a possibilidade de tirar os alunos da sua posição de sujeitos passivos e levando-os a uma postura ativa em relação ao processo de ensino-aprendizagem – só que, para isso, é importante um bom planejamento que leve em conta as necessidades de aprendizagem, a autonomia e a colaboração entre todos, sempre com a interação e a mediação do professor. 

- Modelo/sugestão de planejamento para ensino híbrido

Em maio, compartilhei um modelo de planejamento para o ensino híbrido que aprendi nos estudos da Comunidade Atenea, que é uma rede latino-americana de professores que participo desde 2020. Vale a pena conferir e se preparar para fazer uso no próximo ano, pois esse formato de ensino é uma das tendências na Educação.

- Sala de aula invertida

Ainda nas metodologias ativas, o destaque de 2021 foi esse conteúdo sobre como utilizar a sala de aula invertida na alfabetização. Apresentei o passo a passo de uma prática aplicada em sala de aula. Com estudo, adaptações, apoio e participação das famílias, é possível desenvolver essa modalidade com os pequenos, uma iniciativa que potencializa a aprendizagem e que otimiza o tempo em sala de aula, entre tantos outros pontos positivos.

Grandes temas 

Os grandes temas são presenças constantes aqui na coluna, como por exemplo, o reconhecimento e defesa dos direitos e participação das mulheres na sociedade (tema que tratei em março), o combate ao racismo e ao preconceito. Além de fundamentais, são temas que podem render muita escrita, leitura e pesquisas com os alunos na alfabetização, ou seja, é possível ao mesmo tempo alfabetizar e educar para a vida. 

É sempre importante ressaltar que esses tópicos não devem ser tratados como datas comemorativas, já que são essenciais na formação das nossas crianças e, se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, desde bem cedo eles devem estar presentes nas nossas salas de aulas, ao longo de todo o ano. 

100 anos - Paulo Freire

Os conteúdos desse NOVA ESCOLA BOX buscam apresentar, no centenário de Paulo Freire, o potencial do legado do educador para inspirar e apoiar a prática de professores no contexto da pandemia, do ensino remoto emergencial e da retomada das aulas em 2021.

Parceria com as famílias

No diagnóstico da turma realizado agora no final do ano letivo, tive uma confirmação: realmente, a participação das famílias foi um fator determinante na aprendizagem dos meus alunos. Tive a oportunidade falar sobre sobre engajamento das famílias aqui nesse espaço, e olhando nessas últimas semanas, confesso que até me surpreendi com os bons resultados da minha turma na alfabetização, que foram muito além do que havia pensado que poderia acontecer em tempos de pandemia. 

Esse fato me permitiu chegar a uma constatação: eu só consegui alfabetizar com sucesso os meus alunos, que escreveram até mesmo livros, porque tive apoio dos pais e responsáveis pelas crianças, que no período de ensino remoto, a partir das minhas orientações, prepararam o terreno – e com o gradual retorno ao espaço físico da escola e o encerramento de 2021 de forma 100% presencial, pude intensificar as minhas práticas na alfabetização, consolidando a aprendizagem dos meus estudantes.

Educação Inclusiva

Para 2022, uma das nossas missões é garantir a aprendizagem para todos. Por isso, um dos desafios é aprender e criar situações de aprendizagem, na alfabetização e em outros segmentos, para que os nossos alunos com deficiências  também possam ser protagonistas e avançar na aprendizagem. 

Ainda temos muito o que fazer para garantir esse direito à Educação para todos, mas precisamos começar do que já é possível fazer em sala de aula – e nessa coluna de novembro, reuni algumas sugestões nesse sentido, visando um bom trabalho de inclusão na alfabetização. 

Professor: um eterno aprendiz

Outro importante ponto, que já sabíamos mas que foi reforçado na pandemia, é o fato de que, enquanto professores, alfabetizadores e educadores, nós precisamos estudar sempre. Nesse período difícil que enfrentamos, esse estudo se tornou urgente e extremamente necessário.

Inclusive, acredito que essa perspectiva vai além da pandemia, já que existe na nossa área uma necessidade de aprender e reaprender, seja em relação a práticas, metodologias, uso de recursos tecnológicos, gestão de sala de aula, questões socioemocionais, enfim, tudo no mundo sempre vai mudando e se transformando, não sendo diferente no universo da Educação. Pensando nisso, listei nesse conteúdo de julho nove materiais de estudo para professores – incluindo aí livros, cursos on-line e iniciativas. 

Esses são os destaques do ano de 2021 na alfabetização, que selecionei dentro de tudo aquilo que pude compartilhar nesse período com vocês, queridas professoras e professores alfabetizadores – mas como eu disse, essa é apenas uma seleção: para quem quiser conferir mais, todos os conteúdos já publicados nesse espaço estão reunidos nessa página aqui.  

Aproveito também para dizer que é sempre um prazer estar com vocês nesse trabalho de responsabilidade em busca de uma alfabetização de qualidade para os alunos de todo o Brasil. Então, para todos vocês, fica o meu agradecimento especial por mais esse ano juntos! 

Um abraço e até a próxima!

Mara

Mara Mansani é professora há quase 30 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.

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