Advérbios e outros conectores para articular ideias com as palavras certas

Advérbios, conjunções, preposições e alguns pronomes são a chave para encadear argumentos e desenvolver bons textos

POR:
NOVA ESCOLA, Beatriz Vichessi, Marília de Lucca

"Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia." Nesses versos, o cantor e compositor Chico Buarque mostra uma relação de oposição e, para isso, usa a palavra apesar. Advérbios como esse (e entretanto e atualmente, por exemplo), conjunções (contudo, e, todavia etc.), preposições (contra e com, dentre outras) e alguns pronomes (como cujo, qual e que) são termos conhecidos como articuladores lógicos ou conectores. Eles têm extrema importância para a produção e interpretação de textos: fazem conexões entre pensamentos, fatos e dados e estabelecem relações como as de oposição, adição, explicação e comparação.

Para ter uma noção do efeito que essas palavras conferem aos textos, basta imaginar uma simples mudança no mesmo trecho da canção: no lugar do advérbio apesar, utilizar a preposição com. O personagem (você) ganha outro papel: de indesejável passa a ser importante.

Para realizar um trabalho consistente, Juanito de Avelar, professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), recomenda lançar mão de exemplos que ajudem os jovens a tomar consciência das expressões usadas no dia a dia. "O melhor é apresentar as menos usuais e problematizar o emprego equivocado de outras", diz. Um caso que precisa ser tratado com cuidado é o do pronome relativo cujo. Não raro, os alunos o usam no lugar do que para enobrecer o texto, como em "Gostei do livro cujo me emprestou". Não funciona porque nesse caso não há a relação de pertencimento entre os termos. Só nessa situação cujo pode ser usado, como em "Tenho um livro cuja capa é verde".

Na EM Adalberto Nobre de Siqueira, em Natal, André Ribeiro trabalhou esse conteúdo com a turma do 9º ano durante as aulas de estudo de textos argumentativos. Nesse gênero, os articuladores lógicos são fundamentais e abundantes. O primeiro passo foi selecionar um artigo para apresentar à turma. Ribeiro escolheu um sobre a questão ambiental e o Código Florestal do Brasil, escrito com diversos conectores. Depois da leitura coletiva, uma discussão fomentou o debate e o uso intenso de argumentações - e consequentemente dos conectivos. "O objetivo era que os estudantes compreendessem a função e a estrutura do artigo de opinião e defendessem sua visão sobre o assunto", diz o educador. Com o apoio do texto e do que já sabiam, os jovens falaram muitos por isso, apesar, como, porque e mas para apresentar sua defesa e questionar os colegas.

Em seguida, o professor propôs à moçada elaborar um artigo de opinião sobre o mesmo tema (leia na próxima página um dos textos da turma). "A ideia é interessante para trabalhar os conectores porque há um contexto. De nada adianta impor uma lista e exigir que a turma decore e utilize o material sem compreendê-lo", explica Gabriela Rodella, autora de livros didáticos de Língua Portuguesa.

Para dar apoio à elaboração das produções, Ribeiro orientou os alunos a consultar o texto lido anteriormente e anotar os conectivos que apareciam nele e acrescentar à lista outros que conheciam. Assim, cada estudante organizou um material de consulta personalizado, bastante útil para evitar repetições na hora da escrita e também para direcionar o uso dos termos de acordo com o sentido adequado. "É comum, por exemplo, os jovens usarem a conjunção todavia no sentido de 'qualquer forma' e 'todo caminho', embora seja sinônima de mas e entretanto", diz Avelar.

Nas aulas, o educador questionou: "O que você pretendia ao escrever isso: retomar uma ideia ou refutar?" e "Quais os termos mais apropriados para isso ficar claro?". Essa postura ajudou o processo de reescrita, quando os estudantes substituíram os articuladores usados de modo equivocado e melhoraram a produção, reorganizando as ideias para defender o que pensavam.

Além de ler as versões finais dos textos, acompanhar as tomadas de decisões da moçada foi fundamental para Ribeiro discutir as decisões e as dúvidas que apareciam, porque assim ele pôde avaliar a aprendizagem.

Para cada situação, existem conectores mais ou menos adequados

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Para cada situação, existem conectores mais ou menos adequados. Foto: Paulo Vitale

Frases soltas e com lacunas ajudam a turma a pensar nos conectores

Resultados da Prova Brasil comprovam que, no fim do Ensino Fundamental, a maioria dos jovens tem problemas sérios para estabelecer relações lógico-discursivas nos textos (leia o quadro abaixo). Gabriela explica que atualmente um dos muitos motivos que emperram o bom uso e a interpretação correta dos conectivos tem a ver com a natureza dos textos escritos pela própria garotada que circulam nas redes sociais e nas mensagens instantâneas. "Eles são marcados pela justaposição: uma frase é colocada em seguida da outra, sem ligações hierárquicas."

Para resolver esse problema, Avelar sugere uma atividade para estimular os estudantes a pensar como alguns termos interferem na construção de sentido de uma ideia. Apresente aos estudantes questões com frases e lacunas a serem preenchidas com mais de uma possibilidade, podendo causar mudança no significado. Por exemplo: "Eu preciso dizer ______ Maria vem à festa". A frase comporta mais de um conectivo, como quando e se. No primeiro caso, com o emprego do advérbio temporal, o sujeito (eu) tem certeza da presença de Maria. No segundo, por causa da conjunção, há dúvida. Também é válido apresentar situações para a moçada pôr em jogo articuladores pouco convencionais, como: "______ tenha dormido bem, o rapaz estava muito cansado". Embora é uma das possibilidades que a turma pode testar, indo além de mesmo, de uso mais comum.

A dificuldade da moçada em questão da Prova Brasil

Acho uma boa ideia abrir as escolas no fim de semana, mas os alunos devem ser supervisionados por alguém responsável pelos jogos ou qualquer opção de lazer que se ofereça no dia. A comunidade poderia interagir e participar de atividades interessantes. Poderiam ser feitos gincanas, festas e até churrascos dentro da escola.
(Juliana Araújo e Souza)
(Correio Braziliense, 10/02/2003, Gabarito. p.2.)


Em "A comunidade poderia interagir e participar de atividades interessantes", a palavra destacada indica

A) Alternância     B) Oposição     C) Adição     D) Explicação

Percentual de respostas às alternativas
A) 19%           B) 18%          C) 27%          D) 31%

O item trata da função da conjunção "e". Os alunos que optaram pela alternativa D provavelmente analisaram o enunciado isoladamente - nesse caso, "e" estaria estabelecendo uma relação de explicação: "interagir" ao "participar de atividades interessantes". Já os estudantes que assinalaram a alternativa C compreenderam que, após a defesa de seu ponto de vista, o autor passou a enumerar exemplos que reforçam a validade da posição que quer defender. Portanto, o uso dessa conjunção indica a relação de adição.

Fonte Plano de Desenvolvimento da Educação - Prova Brasil - Ensino Fundamental - Matrizes de Referência, Tópicos e Descritores

1 Conhecer um ponto de vista Selecione um artigo de opinião que contenha diversos articuladores lógicos. Organize um momento de leitura com a turma.

2 Jogar com argumentos Promova um debate sobre o material lido para que todos contem o que acharam do texto, expressem suas ideias e contestem as dos colegas.

3 Colocar as ideias no papel Peça que os alunos escrevam um artigo de opinião. Oriente-os a organizar, com base no material lido, uma lista de palavras que relacionam ideias, como os advérbios.

4 Hora de reescrever Analise os textos focando os argumentos e os articuladores lógicos. Complemente com a apresentação de frases com lacunas para que a moçada escolha quais articuladores usar.

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