Villa-Lobos e companhia vão até a sala de aula

A professora Érica Campos de Paula desenvolveu um trabalho com música clássica para ampliar o repertório dos estudantes e fazê-los conhecer um mundo em que os sons dos instrumentos se destacam

POR:
Wellington Soares, NOVA ESCOLA, Beatriz Vichessi
A professora desenvolveu um trabalho com música clássica para ampliar o repertório dos estudantes e fazê-los conhecer um mundo em que os sons dos instrumentos se destacam. Foto Tânia Rego. Ilustração Raphael Salimena

"A música não vai começar?" Essa foi a pergunta de um aluno enquanto os sons de O Trenzinho do Caipira (o movimento final da obra Brasiliana Nº2) tomavam conta da sala do 1º ano da EM Rodrigo Mello Franco de Andrade, no Rio de Janeiro. Embora estivesse escutando há alguns segundos uma das famosas composições do brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), o garoto e alguns colegas esperavam que alguém cantasse acompanhando os instrumentos. Para eles, músicas necessariamente têm de ter voz. Essa é uma ideia comum a muitas crianças, segundo Ana Cristina de Paula, mestre em Música pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora do Colégio Pedro II, na capital fluminense.

Diante da questão levantada pelo menino, Érica Campos de Paula soube que tinha pela frente mais que a tarefa de sensibilizar o grupo ao fazer explorações e estudos sobre a música de Villa-Lobos, como havia planejado. Era preciso apresentar aos alunos esse tipo de composição e suas particularidades.

Nesta reportagem, você vai conhecer alguns detalhes do trabalho dela e conferir sugestões de especialistas para explorar outros nomes da música brasileira (leia o quadro na próxima página). Antes, porém, é importante saber que para desenvolver atividades desse tipo é preciso dedicar tempo e atenção a:

- Definição dos objetivos a serem alcançados (gerais, como conhecer particularidades do gênero, e específicos, como estudar a obra e a vida de um autor).

- Escolha do autor e das músicas que serão explorados em sala.

- Seleção das questões a serem conversadas com a turma.

- Pesquisa dos materiais a serem usados em sala, de boa qualidade e originários de fontes confiáveis.

Elementos do cancioneiro popular presentes na música clássica

Uma estratégia para começar a sensibilização ao tema antes mesmo de apresentar uma composição do artista escolhido é convidar as crianças para apreciar músicas que elas conhecem, mas em versões que não são cantadas. Os arranjos de Villa-Lobos para A Canoa Virou e Nesta Rua, Nesta Rua (ambas fazem parte da obra As 16 Cirandas) são bons suportes para uma conversa sobre existência de diferentes versões para a mesma composição e para a ausência da voz.

No caso específico do trabalho com O Trenzinho do Caipira, uma possibilidade para as etapas iniciais do trabalho, segundo Ana Cristina, é desafiar a turma a sonorizar a história de uma viagem de trem. "Como é o barulho da locomotiva?", "E do apito?" e "Quais os sons produzidos pelas pessoas na estação?" são questões interessantes a serem propostas. Depois das experimentações, debata sobre a validade e as possibilidades dessa estratégia para apresentar a história. "Desconsidere mostrar imagens sobre o tema para evitar que as crianças julguem que a música por si só não basta, que ela é sempre um pano de fundo para outras coisas", ressalta Ana Cristina.

Feito isso, é possível apresentar o clássico de Villa-Lobos e conversar com os alunos sobre o fato de a música instrumental ser um som organizado de uma forma diferente da conversação, porém com o mesmo objetivo: a comunicação. Para ampliar a compreensão, vale apresentá- la na versão com a letra criada por Ferreira Gullar e na voz de Adriana Calcanhoto.

Sobre a apreciação propriamente dita, você precisa ensinar os estudantes a refletir, indo além de "gostei" e "não gostei", a aperfeiçoar as opiniões para defendê- las e a fazer recomendações. Érica encaminhou a conversa com a criançada com perguntas como: "A música é tocada por um único instrumento ou vários?" , "Vocês reconhecem algum?" e "Qual ideia a música transmite?". Nesse momento, ela também contextualizou a obra e o compositor. Explicou aos alunos que O Trenzinho do Caipira foi criada por Villa-Lobos, um famoso autor e maestro brasileiro que, durante a infância, morava em uma casa que ficava próxima de uma linha férrea.

Visitar salas de concertos é uma prática interessante

Existem particularidades da música clássica (também chamada de erudita) que fazem a escola temer se aproximar dela. Ser um gênero que quase nunca - infelizmente - é apresentado nas rádios e na TV é uma delas.

Mas isso não pode ser um impedimento para que os alunos conheçam o gênero. Ele aparece raramente, sim, mas existem produções bastante conhecidas do público infantil, como a animação Fantasia (Joe Grant e Dick Huemer, 124 min., Walt Disney Pictures), com obras do alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750) e do russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893). Ou seja, ela está presente em algumas obras famosas. Pouca gente sabe disso, mas basta pesquisar com empenho.

Outra característica que a distancia das pessoas são as salas de concerto. Imponentes e de silêncio obrigatório, parecem ser o único local em que o gênero se encaixa. Evidentemente, visitar esse ambiente é interessante para os estudantes conhecerem a acústica privilegiada, a organização dos músicos e as funções do maestro. Então, se for possível, planeje uma atividade desse tipo.

As apreciações, no entanto, podem ser realizadas na sala de aula ou na biblioteca, por exemplo. E para esses espaços vale o alerta: não exija que as crianças fiquem sentadas. É desejável que elas prestem atenção, mas esse é um comportamento que se aprende com o tempo e que requer entendimento sobre a própria música. "Se a turma quiser dançar ou cantarolar, não tem problema", diz Roberto Schkolnick, coordenador de música do Colégio Magno, em São Paulo. Outra recomendação importante é dosar o tempo de exposição: para ninguém ficar entediado, um ou dois minutos bastam. É óbvio que vale repetir trechos, se necessário.

Ana Cristina também recomenda não exaltar o gênero, como se a música clássica fosse mais importante e tivesse mais qualidade que a popular e outras, como o samba, o choro e o rock. "Houve um tempo em que ela era considerada superior. Hoje, isso não faz sentido", ela diz.

Brasileiros na música clássica
Um pouco da vida e da obra de quatro grandes compositores para apreciar e estudar com a classe

Heitor Villa-Lobos. Ilustração Raphael Salimena

Heitor Villa-Lobos (1887-1959)
Quem foi

Maestro, nasceu e passou a vida no Rio de Janeiro. Conviveu com grupos de música popular e incorporou elementos do gênero a suas peças. Compôs obras ao observar as paisagens, transformando-as em partituras, como New York Skyline
Para ouvir na escola Zangou-se o Cravo com a Rosa. A canção folclórica está incorporada à composição.

 

Radamés Gnatalli. Ilustração Raphael Salimena

Radamés Gnatalli (1905-1988) 
Quem foi
Natural de Porto Alegre, foi compositor, arranjador e instrumentista. Na adolescência, tocou em exibições de cinema mudo, programas de rádio e TV. Orquestrou a Coleção Disquinho, que apresentava músicas de clássicos infantis, como Pedro e o Lobo e O Patinho Feio
Para ouvir na escola Brasiliana Nº 8. Na obra, o movimento Choro revela elementos desse gênero popular.

 

Mozart Camargo Guarnieri. Ilustração Raphael Salimena

Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993) 
Quem foi
Compositor e regente paulista. Foi influenciado pelo movimento modernista, que pregava a incorporação de elementos brasileiros à arte. Sua obra marca a transição entre a música moderna e a música brasileira contemporânea. 
Para ouvir na escola O Cavalinho da Perna Quebrada. A composição tem esse título porque a primeira parte é rápida e animada, e a segunda, melancólica.

 

Cesar Guerra-Peixe. Ilustração Raphael Salimena

César Guerra-Peixe (1914-1993)
Quem foi
Nascido no Rio de Janeiro, desde os 9 anos tocava violão, bandolim, violino e piano. Compositor, começou a trabalhar aos 14 anos, musicando filmes mudos. Antes de seguir carreira na música erudita, participou de grupos de choro. 
Para ouvir na escola Duo para Clarinete e Fagote. Os instrumentos usados na obra, embora pertençam à família das madeiras, emitem sons distintos.

 

Consultoria Vivian Agnolo, professora da escola de música Alecrim Dourado, em Curitiba, e Roberto Schkolnick, coordenador de música do Colégio Magnum, em São Paulo.

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