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Passo a passo: como organizar sequências didáticas na alfabetização

Baseada na obra de Delia Lerner, a sequência de atividades auxilia no planejamento e otimiza o tempo, articulando diferentes práticas e favorecendo a aprendizagem dos alunos

POR:
Mara Mansani
Crédito: Getty Images

Na alfabetização, combinar a gestão do tempo, as necessidades de aprendizagens dos alunos e as habilidades previstas no currículo, é um desafio para redes de ensino, escolas e professores, ainda mais agora em tempos de pandemia, onde não tivemos as melhores condições para alfabetizar nossos alunos, e temos agora que priorizar o currículo, selecionando as habilidades essenciais, como destaquei na minha última coluna

Pois bem: nessa perspectiva, as modalidades organizativas como projetos, sequências didáticas e atividades permanentes, nos oferecem boas possibilidades para resolver esse desafio, já que, como o próprio nome diz, elas organizam nosso planejamento, otimizando tempo, facilitando a articulação entre diferentes práticas de linguagem, leitura, produção escrita, oralidade e análise linguística, e favorecendo, assim, a progressão da aprendizagem – entre outros pontos positivos. 

Dessa forma, pensando em planejamento na alfabetização, compartilho com vocês, queridas professoras e professores alfabetizadores, uma proposta de sequência didática que explora habilidades essenciais. A inspiração para a  sequência didática que apresento é a especialista e pesquisadora Delia Lerner, que tanto contribui, clareia e  influencia o nosso trabalho na alfabetização. 

Por isso, em vez de sequência didática, como normalmente nomeamos essa modalidade, aqui chamarei de “sequência de atividades”, também conhecidas como atividades sequenciadas, termo usado por Lerner no livro referência, Ler e Escrever na Escola: O Real, O possível e o Necessário (Penso Editora, 2002).

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Sequência de atividades: Nosso álbum da turma

Primeiramente, é importante termos bem delimitada a definição de sequência de atividades: trata-se de um conjunto de propostas com ordem crescente de dificuldade, articuladas entre si, onde cada passo permite que o próximo seja realizado, e que são organizadas de acordo com o gênero textual em foco, com  conteúdos mais específicos, e com começo, meio e fim, envolvendo aí uma progressão na aprendizagem (diferentes níveis de dificuldade na execução).

A partir disso, a sequência aqui proposta explora textos do campo da vida cotidiana [mais detalhes no box abaixo], e que compõem álbuns e diários, como por exemplo, legendas e pequenas descrições. Assim, a ideia dessa sequência é a produção de um álbum coletivo da turma, com registros de momentos importantes e que marcaram a vida de todos, com foco na escrita e leitura de legendas de fotos, e também na produção de pequenos textos que registram esses acontecimentos. 

Onde se insere essa sequência, na BNCC e nos nossos currículos?

BNCC:

Campo da vida cotidiana – Campo de atuação relativo à participação em situações de leitura, próprias de atividades vivenciadas cotidianamente por crianças, adolescentes, jovens e adultos, no espaço doméstico e familiar, escolar, cultural e profissional. Alguns gêneros textuais deste campo: agendas, listas, bilhetes, recados, avisos, convites, cartas, cardápios, diários, receitas, regras de jogos e brincadeiras. [mais sobre os campos de atuação definidos pela BNCC para alfabetização inicial aqui]

Habilidades essenciais contempladas por essa sequência:

(EF12LP04) Ler e compreender, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor ou já com certa autonomia, listas, agendas, calendários, avisos, convites, receitas, instruções de montagem (digitais ou impressos), dentre outros gêneros do campo da vida cotidiana, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto do texto e relacionando sua forma de organização à sua finalidade.

(EF01LP17) Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, listas, agendas, calendários, avisos, convites, receitas, instruções de montagem e legendas para álbuns, fotos ou ilustrações (digitais ou impressos), dentre outros gêneros do campo da vida cotidiana, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto/finalidade do texto.


Essa é uma proposta interessante porque, desde que nascemos, os registros com imagens e textos sobre os principais momentos de nossas vidas nos acompanham, principalmente em formatos de álbuns de família: álbum do bebê, de aniversários, diários de viagem, enfim, esses são apenas alguns desses registros, que na maioria das vezes combinam imagens e escritas afetuosas que descrevem os momentos vividos, como uma forma de registro histórico pessoal. Para essa atividade, os alunos vão precisar trazer um álbum, e o professor deve separar algumas fotos da turma.

Com isso, o primeiro momento dessa prática é a explicação e convite para que as crianças entendam e participem da proposta de estudo, apresentando a proposta comunicativa em sala de aula.  Para a compreensão inicial, faça perguntas que os levem a refletir sobre a proposta, como “O que vamos escrever?”, “Para quem vamos escrever?” e “Como será essa escrita?”. A partir disso, para desenvolver essas habilidades, são cinco as práticas envolvendo oralidade, leitura e escrita propostas, que descrevo a seguir.

1- Os alunos compartilham entre si, em uma roda de conversa, os seus álbuns pessoais. Inicialmente, cada um conta uma passagem de sua vida que está registrada em seu álbum. Depois, todos acompanham a leitura, feita pelo professor, de algum álbum pré-escolhido. Nesse momento também é feita uma exploração oral das principais características desse tipo de texto.

2- Os alunos, então, recebem cópias de fotos e legendas de alguns álbuns selecionados, para realizarem a leitura.

3- Em seguida, os estudantes escrevem legendas para fotos da turma, de momentos vividos em sala e que irão compor o álbum. Essa atividade é feita em diferentes formatos: primeiramente de forma coletiva com o professor como escriba; depois, com a mediação e intervenções do professor enquanto os alunos realizam a escrita coletivamente; no terceiro momento, é feita em duplas (em agrupamentos produtivos), e ao final, escrevem individualmente;


4-
A seguir, com o apoio do professor, a turma escreve o texto que abre o álbum, descrevendo como é o grupo, colocando nesse breve relato as suas principais características, e também contando de forma geral sobre a rotina em sala de aula, além de revelar alguma curiosidade e acrescentar outras informações que julgarem importantes;

5- Por fim, os alunos respondem uma pequena ficha descritiva, em que devem preencher com as suas principais informações: nome; preferências de brincadeira, de comidas; e etc. A partir dessa ficha, cada aluno produz então um pequeno texto descritivo sobre si, que acompanhará a sua respectiva foto no álbum da turma.

Além disso, esse registro do grupo pode ser complementado por figurinhas, cartões, e outros elementos. Para finalizar, o professor, com a participação dos alunos, organiza a montagem desse álbum, que será compartilhado com todos, e que pode também ser enviado para casa, um a um, para que as famílias o conheçam.

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É importante ressaltar que, nessa sequência, todos os textos estão articulados entre si, e apoiam as escritas de forma gradual. Isso faz com que se ampliem as complexidades e desafios, e ainda envolve diferentes práticas e formatos de realização, com começo, meio e fim definidos, e com a combinação de  diferentes habilidades (entrando aí, inclusive, a questão da identidade pessoal e História), mas sempre tendo como foco a alfabetização, por meio da escrita e leitura de legendas e textos descritivos que compõem esses álbuns com registros históricos. 

Para encerrar, gostaria de recomendar uma outra referência de proposta em sequência didáticas que já tive oportunidade de escrever nessa coluna alguns anos atrás: uma sequência foco na escrita de bilhetes, com base teórica e inspiração no trabalho do chamado Grupo de Genebra (Dolz, Noverraz  e Schneuwly). Algumas nomenclaturas e procedimentos são diferentes em relação à proposta de Delia Lerner, por isso sugiro que vocês leiam e estudem sobre eles também – ambos são ótimos para orientar o nosso trabalho em sala de aula.

Para encerrar, lembrem-se sempre de que essas sequências podem ser realizadas por todo o ano e em combinação com outras modalidades organizativas, e que podem ser decisivas na aprendizagem dos nossos alunos nesse momento em que vivemos, de pouco tempo e tantas necessidades.

Mas e vocês, queridos alfabetizadores? Já fizeram uso das sequências de atividades no planejamento de suas aulas? Qual a periodicidade? Conte aqui nos comentários as suas experiências, e os resultados na aprendizagem dos alunos com essa modalidade organizativa.


Um abraço e até a próxima!

Mara Mansani 

Mara Mansani é professora há 34 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga