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Avaliação na Educação Infantil: como montar portfólios e relatórios?

Ao final do período letivo, esses instrumentos ganham mais atenção, mas a documentação pedagógica deve ser feita ao longo de todo o ano, evidenciando as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças

POR:
Victor Santos
Crédito: Getty Images

Quando abordamos a etapa da Educação Infantil, um dos aspectos mais complexos diz respeito à questão das avaliações. “Isso realmente gera controvérsia, mas entendemos que se trata de uma avaliação processual. Não estamos falando em dar notas, até porque isso não existe nessa etapa, mas do processo que a criança desenvolveu”, diz Fernanda Arantes, professora do curso de Pedagogia do Instituto Singularidades, em São Paulo (SP).

“Nesse contexto, analisam-se as próprias estratégias trilhadas pelos pequenos para consolidarem o avanço das suas aprendizagens e do seu desenvolvimento, e as ferramentas e intervenções dos professores para que a criança pudesse ir de um ponto a outro”, salienta Fernanda. “Isso, inclusive, vai alimentar o planejamento do professor, que pode e deve ser revisto o tempo inteiro”, completa a especialista, que tem 17 anos de experiência profissional na Educação Infantil, como professora e coordenadora.

Para Priscila de Freitas Machado, professora da rede municipal de Palmas (TO), que atuou desde 2014 na Educação Infantil e desde o segundo semestre deste ano leciona Artes no Ensino Fundamental, ainda que o fechamento de ano comumente direcione os holofotes para questões avaliativas, esse registro de percurso não pode se restringir a esse período.

Segundo Priscila , é fundamental que as ferramentas de avaliação na Educação Infantil sejam uma construção para o aprimoramento da aprendizagem da criança. “Portfólios, relatórios, pareceres, enfim, quaisquer que sejam os instrumentos avaliativos utilizados, devem ser produzidos desde o início do ano, ao longo de vários momentos, e não apenas como mera questão burocrática a ser resolvida no fim do ano e ter algo palpável para entregar aos pais.”

A partir desse olhar, as educadoras entrevistadas nesta reportagem falam sobre as concepções de avaliação nesse ciclo, como elaborar bons portfólios e relatórios e, ainda, como transmitir para as famílias os registros obtidos. Tudo isso visando auxiliar o fechamento do ano letivo e os primeiros passos do seu planejamento para 2022.

Avaliação, Leitura e Jogos 

Esse combo une três cursos completos que vão trabalhar com o seguintes temas: como fazer uma avaliação de qualidade; como planejar atividades de leitura; e como trabalhar com jogos na Educação Infantil 


Observação, registro e reflexão
 

Segundo a professora Fernanda, do Instituto Singularidades, o primeiro ponto a ser enfatizado é que instrumentos como portfólios e relatórios fazem parte do processo de documentação pedagógica que, por sua vez, é uma prática de trabalho. “Então, não é algo ‘a mais’ que o professor deve fazer; é, na verdade, uma prática pedagógica”, esclarece. “E a documentação possui um tripé, constituído por observação, registro e reflexão, que devem acontecer o tempo inteiro, em todos os momentos, como na chegada [das crianças à escola], na alimentação, enfim, em toda a jornada escolar.”

A educadora Luciana Vendramin de Toledo Brunelli, que dá aulas na rede municipal de Itatiba (SP) há 28 anos e atua em sala multisseriada no Centro Esportivo Municipal de Educação Infantil Curió, destaca o primeiro elemento desse tripé. “De fato, a gente avalia dia após dia, sempre partindo de observações e também, claro, de inferências realizadas pelas crianças ao longo de atividades e brincadeiras. Priorizamos momentos lúdicos, estabelecendo objetivos em longo prazo por meio dos quais ela vai se desenvolvendo.”

Para Priscila Machado, algumas preocupações aparecem no momento de colocar o tripé da documentação em prática. “Uma angústia comum relacionada ao registro de percurso é: o que registrar e em que momento?”, sinaliza. “É interessante, então, trabalharmos com o que a autora Delia Lerner chama de real, possível e necessário.”

Nessa linha, explica a docente, é preciso analisar. “É necessário fazer a avaliação ao longo de todo o ano? Sim. É possível? Sim também. Mas o que é real disso?” É a partir desse terceiro questionamento que se começa a pôr efetivamente em prática os instrumentos avaliativos processuais. “Nessa perspectiva do ‘real’, eu, por exemplo, parto da posição de observadora e procuro fotografar e gravar momentos e experiências.” Tem início, então, a documentação pedagógica, em que algumas ferramentas ganham especial atenção.

Para avaliar na Educação Infantil 

Esse Nova Escola Box pretende ajudar professores e professoras da Educação Infantil a fazer registros de qualidade das atividades na escola, com o objetivo de avaliar a própria prática e também o desenvolvimento das crianças. 


Documentação pedagógica e acompanhamento de percurso
 

Portfólios e relatórios, além de terem semelhanças entre si, podem variar em relação ao formato, apresentando especificidades conforme a concepção de cada instituição de ensino.

Ainda assim, como explica Fernanda Arantes, os portfólios consistem, basicamente, numa reunião de documentos, elaborados ao longo do processo de aprendizagem da criança, que vão refletir a sua trajetória naquele determinado período. “É uma coletânea com um fio condutor narrativo”, define. Nesse compilado, entram alguns materiais e produções das crianças, além de fotos dessas vivências na escola – na pandemia, muitos áudios, registros fotográficos e vídeos foram enviados pelas famílias para a escola pelo WhatsApp. E o mais importante: juntamente com esses itens, deve vir uma breve descrição do que estava ocorrendo no momento, do diagnóstico do professor e das intervenções pedagógicas realizadas.

A professora Priscila Machado, de Palmas (TO), esclarece que “há os portfólios coletivos, relacionados aos projetos desenvolvidos na sala de aula, construídos coletivamente como memória para crianças e famílias, como um diário de bordo mesmo. E tem o portfólio individual, que considera a aprendizagem e o desenvolvimento da criança e as relações que ela estabelece com o outro, com o espaço e com os adultos”.

Luciana, de Itatiba (SP), compartilha algumas de suas vivências com o portfólio individualizado, detalhando pontos de atenção na hora de elaborá-lo. “Um exemplo é a diagnose da palavra escrita, em que se verifica qual seria a hipótese silábica da criança.” Ela também enfatiza a questão da periodicidade. “Em relação à escrita do nome, esse olhar para o registro escrito ocorre em quatro momentos ao longo do ano. Dividimos uma folha sulfite em quatro e, assim, conseguimos acompanhar toda a evolução.” A educadora Priscila também cita essa prática como uma das mais interessantes para o registro em portfólio. “Vemos as garatujas do início do período letivo e, no fim do ano, temos as primeiras escritas das crianças no processo alfabético.”

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Já o relatório, diferentemente desses registros que mesclam imagens e descrições textuais, é um instrumento que tem proposta mais analítica. “É um texto nu e cru, bem dissertativo, em que o professor vai escrevendo sobre as aprendizagens e o desenvolvimento da criança ”, sintetiza Priscila.

Fernanda Arantes, do Instituto Singularidades, ressalta a possibilidade de detalhamento que envolve essa ferramenta. “O relatório é puramente escrito, visando narrar experiências das crianças, avanços e dificuldades”, descreve. “O professor pode escolher um projeto ou sequência didática que tenha sido significativo para o grupo e discorrer sobre o que aconteceu e como a criança se inseriu no processo.”

Dentro desse entendimento, a educadora Luciana Brunelli salienta a importância de fazer alguns questionamentos relacionados às vivências de sala de aula, na hora de dar início à redação. “É importante se perguntar: qual era o seu foco naquele momento? Se o objetivo era ver se a criança já reconhece o próprio nome, quais as estratégias ela utilizou para saber que o nome era o dela?”, exemplifica.

Identificar os objetivos, inclusive, é outro dos pontos centrais do relatório, como mostra Fernanda Arantes. “É uma reflexão que pode ocorrer com outros professores. Analise: quais os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento são importantes nessa faixa etária? E como a criança chegou, ou não, nesses objetivos?”, orienta.

Checklist - Portfólios e relatórios

Alguns pontos essenciais a ser considerados ao elaborar esses instrumentos na Educação Infantil 

Portfólio 

- Considere um recorte. É preciso compilar materiais que de fato apontem para o trajeto da criança, para aquilo que ela conseguiu modificar em determinada atividade ou projeto.

- Atente ao visual. Imagens, fotografias e até vídeos (no caso de portfólios virtuais) são muito importantes para ilustrar o percurso.

- No entanto, apesar da preocupação imagética, cuidado para não tornar o portfólio apenas um álbum de fotografias. Anotações e relatos breves sobre a intervenção pedagógica devem aparecer ali também.

- Selecione bem o material. Lembre-se de que não se trata de um compêndio de fotos e produções, e sim de uma seleção de fotos, produções e intervenções pedagógicas que narram o percurso e descrevem a evolução da criança.

- Valorize o protagonismo infantil. A própria criança pode ajudar no momento de fazer o portfólio, junto com o professor, na curadoria dos materiais que vão entrar.

- Por fim, não se esqueça de que o portfólio também serve para a sua autoavaliação. Ao analisá-lo, é possível avaliar o seu trabalho, identificar o que funcionou ou não e consolidar o planejamento e o replanejamento. 

Relatório 

- Faça boas perguntas e reflexões para nortear a escrita. Por exemplo: quais foram os interesses da criança nesse recorte registrado? O que foi mais importante para ela naquele momento? Qual foi o seu processo de aprendizagem frente a determinadas propostas? A partir disso, destaque no texto a participação e o envolvimento dela.

- Escreva aos poucos. É interessante que o professor se programe para ir parando em alguns momentos ao longo do ano, como bimestralmente, para construir parágrafos do relatório.

- Vá além das questões comportamentais. Evite escrever que “fulano é comportado” ou “sempre alegre”. É importante trazer questões como as que envolvem as relações da criança com o espaço e com o outro.

- Na perspectiva do tópico anterior, encare o relatório como um verdadeiro inventário: nele, ficam registradas as brincadeiras e possibilidades das crianças e como elas foram se superando ao longo do tempo.

- Nunca compare uma criança com outra. Esse risco às vezes surge das trocas com os próprios pais, quando dizem, por exemplo, “nessa idade, o irmão/irmã já era capaz de fazer isso”.

- Troque ideias e reflexões com seus colegas. Não se esqueça de que esse trabalho pode ser discutido de maneira colaborativa, analisando questões como campos de experiências e quais as práticas ofertadas para garantir os objetivos de aprendizagem.

Planejamento e troca com as famílias 

Outro aspecto importante dos portfólios e relatórios, segundo Fernanda, “é que eles devem permitir interlocução, revelando para qualquer um, seja comunidade escolar, família ou criança, qual aprendizagem e avanço no desenvolvimento aconteceu ali”. Ela destaca ainda que qualquer registro que o professor faça precisa ser elaborado de maneira que possa auxiliá-lo a repensar o seu próprio trabalho.

Assim, portfólios e relatórios podem servir como um verdadeiro termômetro para o educador, auxiliando no planejamento e replanejamento. A professora Priscila relembra um caso bem concreto sobre isso. “Uma vez, passei uma noite criando um pincel para as crianças, com o talo de uma planta e várias folhas coladas. Quando fui observar as fotos das atividades para colocar no portfólio, vi que tinham arrancado todas as folhas e desenharam só com o talo. Na vez seguinte, já levei apenas o talo”, relembra.

Já em relação às interlocuções, especialmente no contexto de fechamento de ano, as conversas com as famílias para apresentar os resultados ganham bastante destaque, mas as educadoras indicam que esse processo deve ocorrer ao longo de todo o percurso letivo. “A família tem de ser parceira. Aqui na escola, temos reuniões de pais e estamos sempre abertos para conversar, agendando reuniões em momentos como o HTPC [horário de trabalho pedagógico coletivo], para definir caminhos quando aparecem dificuldades nesses registros”, conta Luciana.

A professora Fernanda também ressalta a importância de consolidar essa parceria em diferentes momentos. “As reuniões têm sempre um limite de tempo e um foco específico, então outras possibilidades de chamamento e convite às famílias, como exposições, vivências e mostras de trabalhos e projetos, são sempre fundamentais”, finaliza.

Como planejar o fechamento do ano

O conteúdo desta matéria faz parte de uma série especial sobre os desafios envolvidos no encerramento do período letivo. Confira as outras reportagens aqui.