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Fechamento de ano: como avaliar os alunos neste 2021 tão atípico?

Nos últimos meses, escolas iniciaram o retorno presencial, após longo período de ensino remoto e híbrido; avaliações devem mostrar caminhos para recuperar as defasagens

POR:
Dimítria Coutinho
Crédito: Getty Images

Retomada. Esta é a palavra que tem marcado estes últimos meses de 2021 em muitas escolas brasileiras, especialmente as da rede pública. Depois de um ano que começou no ensino remoto, passou pelo formato híbrido e está sendo encerrado, na maioria dos casos, no presencial, alunos e professores estão retomando não apenas a rotina física, mas também os conteúdos e os procedimentos escolares. E agora, com o semestre e o ano letivo se encerrando, surgem reflexões sobre como fazer o balanço final do desempenho dos estudantes em um período tão incomum, abrindo espaço para rever práticas, processos e a própria função da avaliação nesse contexto.

A estratégia adotada por muitos professores neste fim de ano tem sido retomar não só os conteúdos curriculares, mas também os hábitos escolares. “E todo bom resgate deve ser baseado em avaliação”, diz Marcela Saramela Medeiros Gloria, professora do 3º ano do Ensino Fundamental na Escola Municipal Jael da Silva Barradas, em Boa Vista (RR).

Quando seus alunos retornaram presencialmente, em setembro, Marcela aplicou avaliações diagnósticas para validar as evidências que vinha coletando ao longo do ano no ensino remoto. Com essas informações, traçou um plano de intervenção para a turma, que vem sendo aplicado para recuperar os conteúdos mais relevantes e aqueles em que os estudantes têm mais dificuldades.

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Fechar um ano e pensar no próximo

Para especialistas, o principal objetivo da avaliação nesta reta final deve ser entender o que foi aprendido pelos estudantes, tentar resgatar o que não foi e planejar o ano seguinte com foco nas aprendizagens que ficaram para trás.

“É importante ter em mente que ninguém vai salvar o mundo em um mês. Essa dívida, relacionada ao que os alunos não conseguiram aprender no ensino remoto, será paga a prazo. Pensando dessa forma, é preciso agora considerar o que se tem, que são os estudantes em sala de aula”, ressalta o professor Rodrigo Fonseca, sócio-diretor da consultoria Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa, Ensino e Consultoria (Nipec), onde atua na área de metodologia, planejamento e avaliação.

“Então, é a hora de fazer um processo avaliativo por meio de atividades e sequências didáticas com um olhar investigativo. Se as habilidades não foram desenvolvidas, claro que eu já vou iniciar um trabalho de ensino-aprendizagem, mas também vou relatar para o professor do ano seguinte que os alunos não dominam determinado conteúdo.”

Romualdo Pereira Portela, diretor de pesquisa e avaliação do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em São Paulo (SP), diz que “a avaliação deve ser entendida como a definição de necessidades de aprofundamento e de revisão, na perspectiva de garantir a todos o direito à educação”. Segundo ele, o balanço realizado neste fim de ano deve levar em consideração o caráter incomum do período, pensando mais nas habilidades trabalhadas ao longo desse ciclo e menos na nota atribuída aos estudantes.

“A avaliação, particularmente a realizada pelo professor, tem de pesar a identificação de dificuldades de aprendizado para trabalhar com isso. Apesar de muitas vezes essa avaliação estar associada à definição de destino, ou seja, se o aluno passa de ano ou não, é sabido que a reprovação não resolve problema nenhum”, comenta.

Para Romualdo, o ideal é de que, identificada uma dificuldade, “a escola use isso como um diagnóstico e pense no que é possível fazer para que esse aluno que não aprendeu ao longo deste ano venha a aprender”. Rodrigo concorda: “É fundamental que a escola avalie para fazer a intervenção e que ela esteja interessada naquelas informações para que, iluminadas pelo projeto da escola, possam sugerir caminhos e não ser mais uma forma de exclusão”.

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Diagnóstico das dificuldades e foco em assuntos prioritários

Na hora de fazer esse balanço, que será utilizado para moldar o planejamento de 2022, é importante levar em conta tanto os avanços que os estudantes tiveram ao longo do ano, mesmo no ensino remoto, quanto as aprendizagens assimiladas neste fim de ano presencial.

Ambos os especialistas orientam, no entanto, que as informações coletadas em avaliações ao longo do ano sejam checadas nestas últimas semanas de ensino presencial. Para Rodrigo, é hora de aproveitar métodos avaliativos que não estavam disponíveis no ensino remoto. O professor indica a aplicação de sequências didáticas dos principais assuntos do ano, contemplando atividades que os alunos possam se expressar das mais diversas formas, seja oralmente, seja de forma escrita.

“Lá em maio, iniciamos a equação de primeiro grau, e eu me lembro que aqueles que estavam participando das aulas on-line estavam indo bem. Mas vamos ver? Aí eu organizo uma sequência didática de equação do primeiro grau, proponho isso para os alunos e vou avaliando nas carteiras, olhando para o rostinho de cada um, se essas habilidades foram realmente desenvolvidas”, exemplifica. No entanto, com o tempo curto e a necessidade de identificar as maiores dificuldades, ele afirma que as provas podem ser uma opção para essa coleta de informações, facilitando a sistematização para o professor.

Tanto Rodrigo quanto Romualdo recomendam que as avaliações de fechamento de ano foquem nos assuntos prioritários trabalhados ao longo do período. As dificuldades identificadas devem servir para o professor se planejar para o ano que vem, caso continue com a mesma turma, ou relatar em documentos para o docente que seguirá com a turma. “Caso contrário, a gente não precisa fazer nada. Se essa avaliação não sugerir e iluminar intervenções, eu estou avaliando para nada”, aponta Rodrigo.

“Não podemos encarar o fim deste ano como o término de um processo de ensino e aprendizagem que nós sabemos que foi precário. Uma boa avaliação de fim de ano é aquela que permite à escola ter um diagnóstico das dificuldades que os alunos em todas as séries estão tendo para usar isso no ano seguinte”, comenta Romualdo. “Não dá para fazer de conta que todo mundo teve um ano normal e aprendeu o que deveria ter aprendido.”

Como fazer uma boa avaliação de fechamento de ano

Especialistas recomendam que as últimas semanas de aula sejam usadas para identificar dificuldades e começar a trabalhá-las

1. Ouça os estudantes. Se as aulas presenciais foram retomadas recentemente, proponha atividades em grupo, como rodas de conversa, para colher informações sobre as experiências que os alunos tiveram ao longo do ano no ensino remoto. Pergunte, por exemplo, o que eles acreditam que aprenderam bem, o que ainda têm dificuldades e qual foi a importância da escola para eles ao longo de 2021.

2. Cheque suas evidências avaliativas. Separe uma lista de habilidades essenciais referentes ao que foi ensinado durante o ano e revise as evidências avaliativas que coletou sobre esses temas ao longo do período.

3. Verifique se habilidades essenciais foram desenvolvidas. Proponha atividades, sequências didáticas, trabalhos e avaliações diagnósticas para validar se as habilidades essenciais foram assimiladas pelos estudantes, comparando com as informações coletadas ao longo do ano.

4. Considere que a recuperação das aprendizagens será a longo prazo. Comece a retomar os conteúdos essenciais que os alunos têm mais dificuldade, mas tendo em mente que o tempo é curto e, por isso, algumas lacunas serão resolvidas apenas no ano seguinte. Utilize as informações coletadas pelos mais diversos instrumentos avaliativos para produzir relatórios que possam ser utilizados por você ou por outro docente no ano seguinte.

Contexto dos alunos e trabalho em conjunto

Outro aspecto importante nesse processo avaliativo, de acordo com os especialistas, é levar em consideração o contexto de cada aluno. “Tanto no período 100% remoto quanto no híbrido houve uma desigualdade de acesso muito grande, penalizando os mais carentes, que não têm internet ou equipamentos adequados”, lembra Romualdo.

Adriana Vitoriano, professora de Ensino Médio da área de Ciências da Natureza e Matemática na rede estadual paulista, em São Bernardo do Campo (SP), conta que viu muitos alunos começarem a trabalhar durante a pandemia, alguns até com a responsabilidade de sustentar a casa. “É bem complicada essa situação, então a gente tem de analisar cada caso”, afirma.

Para ela, neste fim de ano, o foco está em avaliar se os alunos conseguiram retomar a rotina escolar e se estão se esforçando para entender a importância da escola. “Neste momento, a avaliação final não está nem tanto voltada para o aprendizado, porque este ainda é bem defasado, mas para trazer os estudantes de volta à rotina escolar. Minha avaliação vai ser mais em cima disso: se a gente conseguiu resgatar esse aluno para a escola.”

Já Luciane Cristina Nunes Cardoso, professora de Educação Física da Educação Infantil e do Ensino Fundamental na Escola Municipal Professor Roque Ayres de Oliveira, em Iperó (SP), comenta que está usando esse período final para retomar habilidades desenvolvidas ao longo do ano, sobretudo por meio de conversas com os alunos. Colocando diversos instrumentos avaliativos em ação, desde sequências didáticas até trabalhos para casa e provas, a professora conta que tem conseguido identificar dificuldades e fazer uma recuperação paralela.

Na hora de avaliar cada estudante, ela diz que o trabalho em equipe com todos os professores e a gestão da escola para desenvolver diretrizes conjuntas é fundamental. “A gente sempre procura conversar nos nossos HTPCs [horários de trabalho pedagógico coletivo] e trocar experiências. Vamos testando o que um professor já fez e deu certo e trocando figurinhas para conseguir trabalhar todo mundo junto.”

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Plano de intervenção

Marcela Saramela, da Escola Municipal Jael da Silva Barradas, de Boa Vista (RR), já está executando um plano de intervenção na sua turma para resgatar alguns assuntos que notou, por meio de avaliações, que os estudantes têm mais dificuldades. Ela destaca que as informações coletadas neste fim de ano vão servir para a elaboração de um relatório para 2022.

“Vou fazer um documento para que, no ano que vem, o professor que assumir essa turma possa dar continuidade ao trabalho, permitindo que as crianças continuem alcançando os objetivos [pedagógicos].”

Marcela também pretende utilizar essas informações para planejar seu próximo ano letivo. “Eu sempre faço, no início do ano, um trabalho diagnóstico e traço meu planejamento. Eu vejo que cada turma é diferente, mas a experiência de uma sala acaba ajudando a outra, observando o que deu certo e o que pode ser melhorado”, relata.

“Desde o ano passado, estamos tendo um período atípico, mas acho que 2020 foi ainda pior, porque ficamos bem perdidos em relação a como realizar essas avaliações. Neste ano, embora a gente tenha começado com o ensino remoto, conseguimos nos organizar bem direitinho. Agora, é continuar trabalhando para retomar o que foi perdido e traçar estratégias para resgatar essas crianças”, reflete a professora.

Este conteúdo faz parte de uma série especial sobre como planejar o fechamento do ano. Confira as demais reportagens aqui.