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Questões étnico-raciais: saiba o que fazer em caso de resistência ao assunto

Algumas questões podem suscitar debates em sala de aula e entre a comunidade escolar. Ainda assim, elas devem ser abordadas. Veja como

POR:
Nairim Bernardo
Crédito: Getty Images

Muitos professores ainda têm receio de levar determinados assuntos para a sala de aula. Seja por medo da reação dos alunos, das famílias ou até mesmo dos demais educadores. Desde 2003, a lei 10.639 estabelece a obrigatoriedade do currículo escolar (ou da rede de ensino) incluir temáticas relacionadas à história e cultura africana e afro-brasileira e firma o Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro) — entenda aqui a escolha da data.

O marco legal determina que o trabalho em torno das questões étnico-raciais deve ser realizado durante todo o ano letivo de forma transversal. Logo, o objetivo não deve ser promover discussões pontuais em novembro e nem deve-se evitar tratar do assunto por ser considerado delicado por algumas pessoas. É necessário enfrentar os conflitos e perguntas difíceis quando surgirem.

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“O racismo estrutura nossa sociedade, por isso muitos assuntos ligados às questões raciais são consideradas um problema, porque tudo ligado ao negro é visto negativamente. Mas a maioria da população é negra e não dá para fugir desse fato nem de certos temas”, comenta Fátima Santana, mestra em Ensino das Relações Étnico-raciais pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e coordenadora pedagógica do Centro Municipal de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos, em Lauro de Freitas (BA). 

Por que falar sobre questões étnico-raciais?
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2019, 56,2% da população se declara negra (pardos ou pretos). Esse fato por si só já explicita a importância de incluir nas aulas obras, materiais e discussões que representem a sociedade da qual a escola faz parte.

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Além disso, é preciso que os estudantes negros sejam respeitados dentro do ambiente escolar e se vejam representados no que estudam. Para os estudantes não-negros as pautas raciais são igualmente importantes. Pois é, a partir do contato com a história do outro, que eles poderão refletir sobre a própria identidade e respeitar as diferenças. 

Dessa forma vemos que não é um trabalho banal. Por isso, antes de propor determinadas reflexões e conversas em sala de aula, é essencial que o professor tenha em mente que o objetivo da Educação antirracista não é promover discussões e brigas, mas sim respeitar e valorizar a cultura e as pessoas negras em ações cotidianas. “Não há nada de polêmico e nem de tabu em trabalhar com a temática. São práticas em sala de aula que geram a Educação antirracista, não debates isolados sobre questões específicas”, comenta Priscila Eiras, professora de Língua Portuguesa nos Anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio na rede municipal e estadual do Rio de Janeiro e em um cursinho popular pré-vestibular. 

Entretanto, mesmo que não seja a intenção inicial, algumas aulas e situações podem suscitar discussões que o professor não se sinta apto a mediar. “Ouço muitos colegas brancos dizerem que não sabem trabalhar certas questões, mas, assim como nós, negros, temos que nos capacitar para isso, todo educador tem que ir em busca dessas informações e formações. Cabe aos professores negros e brancos promover uma Educação antirracista. Falar que não sabe como abordar o assunto não cabe mais, há inúmeras fontes de busca”, diz Priscila. Por isso, é preciso que os professores busquem materiais de apoio, promovam trocas entre os colegas e demandem formações sobre o assunto.

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Em Salvador (BA), a Escola Afro-brasileira Maria Felipa surgiu com a proposta de promover uma Educação decolonial — isto é, contrária ao domínio dos conhecimentos eurocentristas. Segundo a diretora Cris Coelho, estruturar e tematizar as práticas pedagógicas em torno das culturas africana e afro-brasileira é uma necessidade que surge desde a Educação Infantil, etapa na qual os professores precisam estar muito atentos às narrativas, brincadeiras e aos brinquedos apresentados. “Trazemos práticas pautadas em saberes e conhecimentos ancestrais e narrativas que não foram contadas, porque entendemos que já temos uma mídia e um contexto social que não enaltece as figuras negras”, afirma a diretora. “A escola deve ser um lugar de representatividade, formação e informação. Não tem como a criança se sentir feliz e respeitada se todas as representações de pessoas negras e indígenas são em lugares subalternos”, complementa. 

Temas que devem ser levados para a sala de aula
Para além dos fatos históricos sobre o tráfico transatlântico e a escravidão, é preciso que os professores abordem as contribuições científicas e culturais de pessoas negras para o Brasil e para o mundo.

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Tratar temas atuais também é essencial para que os estudantes percebam que o racismo vai muito além da escravidão e de comentários preconceituosos. Dados sobre morte por violência policial, moradia, desigualdade salarial e taxa de desemprego entre a população negra precisam ser apresentados — sempre acompanhados de informações sobre pessoas e organizações que lutam por igualdade de direitos, como, por exemplo, o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução livre). 

A construção identitária é outro tópico que precisa ser trabalhado na escola uma vez que até mesmo o reconhecer-se negro pode ser uma dificuldade em um país tão miscegenado como o Brasil. Muitos acreditam que apenas pessoas com a pele retinta (escura) são negras, mas é preciso explicar que a população negra é composta por pardos e pretos. Um caminho possível para fazer esse trabalho é propor atividades que envolvam pesquisas sobre ancestralidade e história familiar. Elas podem colaborar muito para o entendimento da própria negritude. 

Além do reconhecimento pessoal, a equipe pedagógica deve entender as características da comunidade na qual está inserida. “Às vezes a escola está localizada em um bairro em que a maioria da população é negra e isso é invisibilizado. A escola segue um currículo e uma perspectiva totalmente eurocêntrica e ignora que as crianças precisam construir sua identidade a partir do seu povo e do local onde vivem”, aponta Fátima.

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Uma das questões que causam mais polêmica, principalmente entre os pais e responsáveis, são as propostas que trazem narrativas e referências de religiões de matriz africana. No entanto, a religião é um importante aspecto da cultura, por isso abordar essas narrativas em sala de aula é importante, assim como propõe o trabalho com Ensino Religioso na Base Nacional Comum Curricular — leia no box abaixo como lidar com os questionamentos das famílias. 

E se alguns assuntos forem questionados pelas famílias?

Além de destacar a importância da temática que abordamos anteriormente, confira sugestões de como agir se os responsáveis questionem o trabalho com questões consideradas polêmicas 

Por que os conflitos entre escola e família podem ocorrer?

As gerações mais velhas viveram em um tempo e passaram por uma escolarização que não valorizou a diversidade — diferente dos mais novos que já estão imersos e cresceram em outro mundo que se preocupa com essas questões. Utilizando pesquisas, dados, leis e apresentando os motivos que embasam a prática pedagógica é possível fazer um trabalho formativo com as famílias.

Como explicar a importância de trabalhar determinados temas?

O processo de apagamento histórico fez com que narrativas, culturas e pessoas negras fossem esquecidas, retratadas de modo secundário ou negativo. Além de conversar sobre a importância de uma Educação que apresente referências afro-brasileiras e africanas, é importante incluir esses pontos no projeto político-pedagógico (PPP), no currículo e localizar os trechos da BNCC que se relacionem com a temática — saiba mais sobre o papel da gestão escolar nesse trabalho. A gestão e os professores podem organizar reuniões para compartilhar esses documentos e apresentar a proposta pedagógica aos familiares dos estudantes. 

Como responder aos questionamentos relacionados às religiões de matriz africana?

O objetivo da escola não é desrespeitar nenhuma crença religiosa, mas sim apresentar diferentes cosmovisões, linguagens, saberes, crenças, mitologias e narrativas. A intenção também não é fazer qualquer tipo de iniciação religiosa. A proposta trazida pelos documentos oficiais é a de estudar as manifestações religiosas a partir de pressupostos científicos, filosóficos, estéticos e éticos. Assim como os estudantes estudam sobre os deuses gregos, também podem conhecer os orixás e figuras de outras religiões de matriz africana.

Sugestões para usar com a turma
No início do ano letivo, os professores realizam um planejamento dos assuntos que abordarão durante todo o ano. Entretanto, é preciso ter flexibilidade para também incluir questões levantadas pelos alunos, pautas atuais e outros assuntos que nem sempre estão no livro didático, mas que são importantes de aprofundar.

Vidas Negras Importam: atualidades e questão racial

O movimento nascido nos Estados Unidos ficou muito conhecido em 2020, mas ainda hoje pode ser utilizado para promover discussões relevantes a respeito da questão racial. Saiba mais como utilizar as atualidades nas aulas do Fundamental 2.


Ao planejar qualquer conversa, leitura, exibição de filme ou outra atividade, o professor deve ter em mente que as questões etnico-raciais não se resumem ao racismo. Logo, é mais interessante trazer obras em que os personagens negros estejam em papéis positivos de protagonismo do que de sofrimento — esta estratégia favorece a construção de identidade. O preconceito deve ser estudado, mas não pode ser o único tema relacionado a negritude que é abordado na escola.

Para introduzir a temática, a diretora Cris recomenda utilizar obras artísticas e propor momentos lúdicos. “Precisamos utilizar as ferramentas apropriadas para a maturidade de cada faixa etária. Na Educação infantil utilizamos livros, teatro, brincadeiras, contação de histórias. Na Escolinha Maria Felipa gostamos muito de trazer as famílias para contar histórias, o que nos ajuda a trabalhar a ancestralidade”, conta.

Apresente aos alunos a África que também fala português

Um caminho possível para estudar a cultura africana é se aprofundar nos países do continente que adotam o português como língua oficial. Confira sugestões de atividades para abordar o tema nas aulas de Geografia, História e Língua Portuguesa nos Anos Iniciais do Fundamental.


A literatura e outras expressões artísticas são ótimas aliadas em todas as etapas de ensino — neste conteúdo para assinantes, conheça a vida e obra de 9 pensadores negros. Mesmo quando o objetivo for estudar questões técnicas, é interessante escolher obras de artistas negros, que podem (ou não) tratar de temáticas étnico-raciais. Segundo a professora Priscila, esta é uma boa estratégia para introduzir conversas e reflexões sem que nenhum aluno se sinta exposto. Então, no lugar de fazer uma pergunta que exponha o aluno a uma situação constrangedora ou que desperte algum tipo de gatilho, deixe que ele, caso se identifique e se sinta confortável, relacione sua vivência pessoal com a de um personagem — no lugar de, por exemplo, perguntar se ele já sofreu racismo. 

Os debates organizados no modelo a favor e contra são atividades comuns, mas nem sempre adequadas. “Em muitos temas não cabe mais debate. Não há mais o que se discutir sobre se existe ou não racismo no Brasil, se as pessoas são a favor ou contra cotas. Quando você apresenta os números a discussão já acaba. Os dados acabam com a polêmica”, diz Priscila. Para evitar esse tipo de erro, confira abaixo três sugestões do que deve ser evitado nesse trabalho com questões raciais. 

Não cometa esses erros

Educadoras compartilham três erros que são comuns e devem ser evitados 

Responsabilizar professores negros pelas conversas sobre temas raciais

“Os professores brancos ocupam a maioria das vagas nos quadros das escolas — em algumas instituições todas as vagas. O ensino da história e da cultura afro-brasileira é obrigatório e todos os professores são responsáveis por isso”, aponta Fátima. 

Não falar sobre negritude quando há poucos ou nenhum aluno negro

“A Educação decolonial e antirracista não é só para as crianças negras. A escola não existe para bater de frente com crianças ou famílias brancas. Se quisermos formar uma sociedade melhor, o trabalho de conscientização e respeito também precisa ser feito com elas”, diz Cris. 

Limitar o trabalho sobre questões raciais a uma ocasião ou data específica

“Para além do 20 de novembro, o acesso a histórias reais do povo negro, e não à história distorcida, é um direito dos nossos alunos negros e não-negros. Isso precisa estar no currículo e em uma prática antirracista que não cabem em um dia ou em um mês”, finaliza a professora de Língua Portuguesa.

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