Que tal fazer um censo estudantil?

Ao coletar e analisar dados, a garotada aprendeu a elaborar gráficos

POR:
Paula Peres, Elisa Meirelles
Ao coletar e analisar dados, a garotada aprendeu a elaborar gráficos. Ilustração: Raphael Salimena
Ao coletar e analisar dados, a garotada aprendeu a elaborar gráficos. Ilustração: Raphael Salimena

Abra uma revista ou ligue a televisão em um telejornal. Em pouco tempo, você encontrará dados de alguma pesquisa. Podem ser intenções de voto, gráficos sobre o aumento no preço da gasolina ou outras representações visuais. O fato é que esses levantamentos fazem parte da rotina. E quem não consegue interpretá-los acaba ficando sem informações importantes.

Na Matemática, essa discussão encaixa-se no bloco de conteúdo chamado "tratamento da informação", que engloba a aprendizagem de estatística, probabilidade e análise combinatória. Até finais da década de 1990, esses conteúdos apareciam somente nos currículos do Ensino Médio. Isso mudou com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), de 1997, que passaram a indicar a necessidade de antecipar o tema para o Fundamental, uma vez que as crianças lidam com tabelas e gráficos diariamente.

É importante, no entanto, atentar às diferenças de se trabalhar esse bloco com os mais novos. "A discussão com essa faixa etária abrange duas necessidades: a primeira é entender a informação e a segunda é representá-la de modo coerente", diz Rita Lima, professora de Estatística da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

 

Para começar, boas referências

Antes de produzir tabelas e gráficos, é necessário que os estudantes tenham lido e interpretado um bom repertório desse tipo de representação em sala de aula. Como explica Célia Maria Carolino Pires, professora colaboradora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS): "Cada informação pode ser apresentada de uma forma mais interessante dependendo do gráfico, por isso é aconselhável trabalhar vários tipos". A docente Izauriana Borges Lima aproveitou exemplos do livro didático de Geografia para analisá-los com o 5º ano da EM Nossa Senhora dos Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana de Recife.

"Comecei mostrando um gráfico de barras que relacionava a população brasileira e a faixa etária. Ele indicava a quantidade de jovens, idosos e crianças que havia no Brasil", explica ela. A turma teve a chance, então, de analisá-lo e dizer o que entendeu. Perguntas como "De que assunto trata esse gráfico? Quantos dados são apresentados? Como eles aparecem?" ajudam a classe a se localizar durante a atividade.

Izauriana percebeu que alguns alunos tinham dificuldade em relacionar duas informações. "Pedi que olhassem um eixo de cada vez: o que estava escrito na linha vertical e o que estava escrito na linha horizontal. Expliquei, então, que o cruzamento desses dois dados dava a informação que devia ser lida", diz ela.

A mesma estratégia foi usada com outros gráficos. Por meio de análises como essa, a turma entende quando usar cada representação. Enquanto barras servem para comparar dados quantitativos, setores são úteis se o montante total precisa ser considerado. Linhas mostram a trajetória de um aspecto em relação a uma segunda variável, em muitos casos, o tempo.

Em seguida, uma pesquisa real

Depois da discussão, Izauriana propôs que realizassem um censo da escola. Coletivamente, as crianças elencaram questões que as intrigavam sobre as demais turmas: "Quantos irmãos têm? Que meio de transporte usam? Qual o lanche preferido?. E a disciplina de que mais gostam?" Elencar informações sobre o cotidiano escolar é uma proposta interessante, pois os dados podem contribuir para ações concretas. O levantamento dos lanches preferidos, por exemplo, pode ser compartilhado com as merendeiras.

Feito o questionário, a garotada foi dividida em equipes de dois a quatro alunos. Cada uma ficou responsável por aplicar o questionário em uma classe. Ao todo, as crianças conseguiram informações de 50 estudantes.

De volta à sala, a turma começou a tabular os dados. "Perguntei quais foram os resultados. Eles diziam a pergunta e as respostas e eu fui anotando no quadro", conta a professora. Nesse momento, é essencial provocar a reflexão nos alunos sobre a necessidade de organização das informações coletadas, pois essa é a base dos conteúdos de tratamento da informação nos anos iniciais do Ensino Fundamental, explica Ivonildes Milan, selecionadora do Prêmio Educador Nota 10. Ela sugere que o docente levante a discussão com a pergunta: "Como podemos apresentar essas informações para que elas façam sentido para as outras pessoas?". Ele deve, então, deixar que os alunos pensem estratégias. "Essa postura permite que a classe elabore soluções para o problema", explica a especialista.

Com base nas referências que já trazem do cotidiano e nas análises prévias de alguns exemplos em sala, os estudantes conseguem apresentar alternativas: listas, tabelas, organização por conjuntos, em gráficos de barras, linhas, entre outros. Uma vez feito esse levantamento, é hora de discutir a viabilidade das soluções. Vale questionar: "Será que essa maneira é a mais eficiente e fácil de ser entendida?". Com isso, os alunos podem chegar à conclusão, por exemplo, de que linhas não servem para mostrar quantos irmãos os colegas têm porque não se trata de um dado relativo a uma evolução no tempo. Nesse caso, são mais indicadas barras ou setores. Se a escola contar com computadores, essa discussão pode ser realizada comparando diferentes gráficos elaborados com a ajuda do Excel.

A turma de Izauriana escolheu fazer uma representação para cada uma das perguntas da lista. "Fizemos uma de barras, pois conseguíamos comparar a quantidade de alunos que gostava de cada um dos lanches", lembra ela. Para produzi-las, a garotada usou papéis quadriculados, capazes de garantir a proporcionalidade das barras. Na produção, é comum que o estudante esqueça as demais informações do gráfico, também essenciais para garantir a boa leitura. "Perguntei a eles se somente com aquelas barras a informação ficava clara. Aos poucos, fomos lembrando de adicionar o título e os nomes dos eixos, indicando quais eram as variáveis que estavam sendo apresentadas", conta ela. As discussões resultaram em um perfil interessante dos alunos, feito por eles mesmos (veja exemplos de gráficos abaixo).

Ao coletar e analisar dados, a garotada aprendeu a elaborar gráficos. Ilustração: Raphael Salimena
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