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Como realizar a priorização do currículo na alfabetização?

A seleção de habilidades essenciais envolve um esforço das redes e secretarias, e bastante trabalho por parte dos professores. Confira algumas dicas para consolidar esse processo, sempre visando a garantia de aprendizagem dos seus alunos

POR:
Mara Mansani
Crédito: Getty Images

O ano letivo de 2021 está quase se encerrando e ainda estamos vivenciando a pandemia da covid-19, com redes de ensino voltando gradualmente às aulas presenciais, enquanto outras permanecem no ensino remoto. Nesse contexto, ainda há dúvidas sobre quais habilidades priorizar e que são essenciais para o desenvolvimento do processo de aprendizagem dos nossos estudantes.

Na etapa da alfabetização, a priorização do currículo também é um dos nossos desafios quando pensamos em planejamento e aprendizagem. Isso se faz necessário porque, por diversos fatores que transcorreram no período pandêmico, nós não tivemos as condições necessárias para desenvolver o currículo como um todo e fazer a alfabetização acontecer para todos – por isso é tão importante, nesse momento, definirmos e selecionarmos as habilidades e conteúdos que são essenciais para a garantia da aprendizagem. 

Feita essa ponderação inicial, a pergunta que fica é: “quais seriam, então, esses tópicos imprescindíveis para a alfabetização das crianças?”. Em linhas gerais, essa seleção das habilidades essenciais é tarefa das secretarias e redes de Educação, que devem orientar escolas e seus profissionais nesse sentido, sempre se pautando em estudos e evidências, mas também ouvindo quem faz a alfabetização acontecer, que são justamente os professores alfabetizadores que estão em sala de aula. 

A próxima etapa desse processo de priorização passa justamente pelas mãos dos professores, e na coluna de hoje, vou compartilhar um pouco das minhas experiências e reflexões relacionadas a essa ação que é muito importante, mas que ainda suscita algumas dúvidas na hora de começar a ser realizada.

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Priorização do currículo na prática
 

Nas redes públicas em que trabalho, depois dessa seleção inicial realizada pelas secretarias, os professores puderam debater e estudar coletivamente o currículo, para entender como foi feita essa escolha de habilidades essenciais e para consolidar a compreensão da importância delas para a alfabetização. 

No meu grupo de estudos, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Sílvia Haddad, em Salto de Pirapora (SP), eu e as demais colegas alfabetizadoras, sempre estamos debatendo, estudando e planejando juntas. Nesse processo, nós analisamos as necessidades de aprendizagem das nossas turmas levantadas nas sondagens diagnósticas, e em seguida escolhemos, entre as habilidades essenciais já selecionadas pela rede, aquelas que precisam ser desenvolvidas com os nossos estudantes. 

É importante ressaltar aqui que definimos coletivamente o planejamento para todas as turmas, mas cada professora, posteriormente, personaliza de acordo com a sua realidade em sala de aula  –  ou seja, olhando para sua realidade particular, cada educadora define as habilidades que precisam ser ainda desenvolvidas, as que precisam ser retomadas, as que precisam ser consolidadas, as que dizem respeito a determinado grupo de alunos, as que podem ser ampliadas para atender alunos que já avançaram, e assim por diante. 

Na minha turma por exemplo, tenho três grupos definidos de acordo com o processo de aprendizagem que foi desenvolvido até aqui no formato remoto, que são os seguintes: 

  • • Alunos que não avançaram ou que avançaram pouco na aprendizagem (pré-silábicos, silábicos sem valor sonoro);
  • • Alunos que avançaram, mas que apresentam defasagem na aprendizagem (silábicos com valor sonoro);
  • • Alunos que avançaram na aprendizagem (silábicos alfabéticos e alfabéticos) 

Sendo três grupos que se encontram em diferentes fases, não é adequado pensar que as habilidades essenciais priorizadas no currículo sejam desenvolvidas da mesma forma – afinal, uma mesma habilidade pode ser inicial para um grupo, mas para o outro, pode ser preciso retomá-la para a consolidação, ou mesmo ampliá-la em complexidade. 

Com isso, é importante ter em mente que esse processo de priorização traz a necessidade de flexibilidade e de entendimento de uso de diferentes metodologias, estratégias e intervenções, para atender grupos com necessidades específicas no processo de alfabetização.

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Foco naquilo “que não pode faltar”
 

Outro ponto importante nessa seleção e priorização das habilidades essenciais é termos em mente que esse processo não deve ser realizado levando o fator tempo em consideração  – ou seja, nós não devemos nortear esse trabalho pensando “o que dá tempo de fazer esse ano?”. 

É claro que o ano letivo deve ser levado em consideração; no entanto, o ponto principal, depois de descobrirmos as lacunas e defasagens dos alunos no contexto remoto, deve ser: “o que não pode faltar de maneira nenhuma na alfabetização dos alunos para garantir essa aprendizagem?”. Esse é o verdadeiro raciocínio que deve guiar o trabalho desenvolvido nesse período. 

Nessa perspectiva, um ótimo material que pode apoiar redes de ensino e professores nessa priorização do currículo, auxiliando na compreensão do que são as habilidades essenciais, são os mapas de foco produzidos pelo Instituto Reúna. Acesse esse link aqui, baixe o PDF e estude esse material que está tão bem explicado – se necessário, compartilhe com sua rede caso ainda não tenha recebido orientações nesse sentido. 

Não se esqueça do contexto remoto 

Por fim, um último ponto a ser levado em consideração é pensarmos sobre o que é possível ser realizado no contexto remoto, já que muitas redes continuam atuando desse modo, mesmo que de maneira parcial. 

Sabemos que nem tudo pode ser repassado às famílias, já que é necessário conhecimento pedagógico profissional, mas muitas práticas para desenvolver as habilidades selecionadas podem ser adaptadas para serem praticadas em casa. Nesse sentido, utilizar tutorias e orientações que possam ser minimamente entendidas por pais e responsáveis pode ajudar preparar um terreno fértil para a aprendizagem na retomada das aulas presenciais. 

Um exemplo disso são as rodas de leitura, em que a proposta seja desenvolver o comportamento leitor e escritor das crianças, entreter, ampliar o repertório cultural e etc. Quando adaptadas para a realização remota, é possível fazer a proposta da leitura de um livro em família, com o adulto lendo para a criança, algo que pode contribuir no desenvolvimento de habilidades de leitura e escrita, ainda que não tenham, é claro, a mesma eficácia dos momentos de roda realizados na sala de aula presencial, onde há grandes trocas e interações e o próprio trabalho do professor orientando e mediando tudo isso.

 

Dessa forma, vemos que são muitos os fatores a se considerar na priorização do currículo e na seleção das habilidades essenciais, mas um dos pontos fundamentais é ter claro o retrato da aprendizagem da sua turma, para que, assim, o seu planejamento realmente contribua no avanço do processo de alfabetização de seus alunos. 

Mas e por aí, querido professor e querida professora, como está sendo feita a seleção das habilidades essenciais na rede em que você atua? Ela está acontecendo? Conte aqui nos comentários a sua experiência!

 

Um abraço e até a próxima! 

Mara Mansani 

Mara Mansani é professora há 34 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga

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