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Dia dos professores: reflexões de uma educadora sobre a profissão

Uma homenagem a todos os professores que buscam a excelência em seu trabalho ao estarem em constante formação

POR:
Selene Coletti
Crédito: Lara Pinho/NOVA ESCOLA

Outubro é marcado pelas homenagens aos professores. Estes profissionais que se reinventam, redescobrem e buscam fazer sempre o melhor para que todos os alunos possam se desenvolver. Um profissional consciente da sua importância faz a diferença por onde passa, pois investe na sua formação. Por isso, uso este espaço para homenagear a todos os colegas que continuam se descobrindo professor a cada novo dia.

Vamos conversar sobre o que significa ser professor atualmente em meio a tantas transformações e obstáculos que o contexto nos impõe. Essa reflexão surge a partir da minha experiência ao longo dos meus 40 anos de profissão, completados neste ano de 2021. Nesse tempo, fui professora de Educação Infantil, de Anos iniciais do Fundamental, alfabetizadora, gestora, formadora, colunista do site NOVA ESCOLA, vencedora do Prêmio Educador Nota 10, entre tantos outros papeis que ocupei nesse período.

Nesse percurso, passei por muitas transformações. É evidente que a profissional que sou hoje não é a mesma de quando iniciei esse caminhar – e ainda bem! Estou numa constante formação e mutação. É a partir da consciência de ser uma profissional inacabada, ideia que Paulo Freire traz em Pedagogia da Autonomia – que por sinal, é uma ode à reflexão de ser docente – que convido vocês a pensarem sobre nossa profissão.

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“Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação” (Paulo Freire)
Quando queremos fazer a diferença em nós e em nossos alunos precisamos estar em uma constante busca pelo novo, revisitar e refletir sobre o que já fazemos. Ao longo do meu percurso esta foi uma constante. A formação continuada me mostrou a importância de estudar sempre, de entender a teoria para compreender a prática.

Lembro-me quando o Programa de Educação Pré-Escolar (PROEPRE) foi implantado no meu município. Foram muitas horas de estudo e de discussão com os colegas para transpor o que víamos nas aulas para a prática com os pequenos. Eram muitas adaptações para nos adequar à forma de organizar a rotina e ver o aluno. Foi nesse período que conheci Jean Piaget (1896-1980). O primeiro dia com as crianças, a partir desta nova metodologia, deu um enorme frio na barriga – lembro-me da sensação, a qual me acompanha sempre que um novo ano letivo se inicia. É a sensação de estar diante do novo!

Outro momento marcante foi quando readequei o que fazia no Fundamental 1 a partir do olhar do que havia aprendido nas formações da Educação Infantil. Foi aí que começaram a nascer os projetos, o trabalho diversificado, as rodas de conversa, o uso de jogos, os momentos de avaliação, entre outras.

Com o tempo, percebi que o modelo que eu usava com as turmas de Fundamental, transmitindo o conhecimento, não permitia que meus alunos construíssem conceitos, expusessem suas ideias. Fui aprendendo a ouvir cada nova turma, a registrar o percurso e analisar estes materiais. Isso me permitia garantir que todos aprendessem, não deixar nenhum pelo caminho, desenvolver a autonomia e dar oportunidade e voz a todos e todas.

Foi essa busca pelo novo, pelo risco, que me permitiu tornar-me alfabetizadora – que era meu sonho. Vivi muitos desafios, mas também tive um enorme prazer ao ver cada criança descobrindo a base alfabética, lendo e escrevendo autonomamente.

C om os estudos também descobri o prazer na Matemática. Na verdade, apaixonei-me. Passei a enxergá-la a partir de uma nova perspectiva, o que me trouxe novas possibilidades de trabalho – como vocês podem perceber nas nossas conversas.

“Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática” (Paulo Freire)
Dentre estas novas estratégias estava o registro e as narrativas de aulas – instrumentos que permitem ter um olhar reflexivo para o nosso trabalho, reforçados pelos estudos e a formação continuada.  Fazer dessa prática um hábito me permite perceber o que é preciso melhorar, o que está dando certo e o porquê dos resultados obtidos.

Essa experiência dialoga com o que Paulo Freire diz no livro Pedagogia da Autonomia: “quanto mais me assumo como estou sendo e percebo a ou as razões de ser de porque estou sendo assim, mais me torno capaz de mudar” (página 44, 1998)

É a partir dessas constatações que podemos redirecionar nossas ações verdadeiramente. Mudar o que não está dando certo, inovar em práticas que dialoguem com a concepção de Educação e da perspectiva do aluno como protagonista do seu processo de aprendizagem.

É verdade que o redemoinho que é o cotidiano da sala de aula e a nossa rotina torna este momento de refletir difícil, mas quando realmente queremos e acreditamos na sua importância, encontramos uma brecha para fazer. E, por conseguinte, fazemos a diferença no nosso trabalho!

Vale ressaltar que a escola precisa aproveitar os espaços de formação e utilizá-los realmente para a formação - para estudar, discutir e refletir sobre a prática, trocar experiências, revisitar a teoria que embasa as ações. Como profissionais precisamos exigir estes momentos e aproveitá-los da melhor forma possível.

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“Ensinar exige alegria e esperança” (Paulo Freire)
Nesta minha trajetória, como você pode perceber, o estudo está sempre presente. E é ele que me permite diariamente conjugar o verbo esperançar, ter esperança que minha ação impacta a vida daquela turma que está comigo durante o ano letivo.

Apesar das dificuldades e dos obstáculos que se interpõem no caminho, sigo carregada de esperança de que posso fazer a diferença – dentro ou fora da sala de aula. Enche-me de alegria estar na profissão que escolhi desde quando brincava de escolinha no quintal da minha casa enquanto minha mãe lavava roupa.

Espero que neste mês dos professores possamos refletir sobre o nosso percurso, perceber o quanto somos fundamentais no processo educacional e continuemos acreditando na possibilidade da mudança. É preciso estar aberto a mudar e a aprender sempre com os teóricos, com nossos colegas de profissão, com as famílias, com os acertos e os erros, e, principalmente, com nossos alunos para dar conta dos desafios atuais e os que ainda virão.  

Parabéns a nós! Em especial aqueles que participam e participaram da minha história ao longo desses 40 anos e a cada um de vocês que acompanha nossa conversa por aqui. Feliz mês do professor!

Um abraço especial e até a próxima,

Selene

Selene Coletti é professora há 40 anos na rede pública. Atuou na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos, lecionando do 1º ao 5º ano. Em 2016, foi uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita,  com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada e também como formadora da Educação Infantil na Prefeitura de Itatiba (SP). Atualmente é vice-diretora da EMEB Philomena Zupardo, em Itatiba.

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