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Mês dos professores: garantindo a Educação longe dos grandes centros

Educadores que atuam em áreas rurais, quilombolas, indígenas e ribeirinhas relatam suas rotinas e as complexidades trazidas pela pandemia e refletem sobre o papel da escola nesses contextos

POR:
Victor Santos

A professora Maria Isabel Gonçalves leciona Filosofia para o Ensino Médio no Colégio Estadual Rui Barbosa, em Boninal (BA), e tem a ancestralidade como foco primordial do seu trabalho. Foto: Nidiacris Ribeiro/TrupeFilmes

As celebrações do mês dos professores tiveram contorno especial neste biênio 2020-2021, em um reconhecimento aos obstáculos que esses profissionais superaram para que a Educação seguisse acontecendo em meio à maior crise sanitária global. Ao longo de outubro, NOVA ESCOLA trouxe relatos de gestores que fizeram a diferença em suas comunidades; de professores que seguiram estudando e se renovando para encarar mais esse desafio profissional; e ainda ouviu famílias, estudantes e ex-alunos impactados por esses esforços dos educadores.

Um aspecto que se sobressai em todos os depoimentos, nestas e nas demais reportagens produzidas por NOVA ESCOLA ao longo deste período pandêmico, é a dificuldade envolvendo o acesso a tecnologias digitais e internet por parte dos estudantes de escolas públicas. Se esse cenário já é complicado em centros urbanos, os entraves são ainda maiores em regiões geograficamente mais afastadas. 

Pensando nisso, para fechar este mês especial, fomos em busca de professores que atuam em regiões rurais, com populações quilombolas, indígenas e ribeirinhas. São educadores que possuem vivências e rotinas bastante específicas e, já antes da pandemia, e ainda mais agora, precisam de estratégias diversificadas e muito esforço e trabalho para garantir que a Educação chegue nessas áreas onde a conectividade ainda é recurso raro. 

Educação indígena e o impacto da pandemia

 

O município de São Gabriel da Cachoeira (AM) localiza-se na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, sendo o terceiro maior em extensão territorial do Brasil. Lá se encontra, também, o maior número de habitantes indígenas em uma mesma cidade do país – são 23 etnias que compõem 90% da população local. A cidade foi pioneira ao co-oficializar as línguas indígenas tukano, baniwa, nheengatu e yanomami como idiomas oficiais ao lado do português. 

É nesse contexto que mora e trabalha a professora Sidinha Gonçalves Tomas, da etnia Werekena e falante do nheengatu. Ela leciona já há quatro anos na escola indígena Yepamahsã Imikohorimahsã, que fica na comunidade Waruá, região do Médio Rio Negro. Atuando com alunos do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), Sidinha conta um pouco da rotina para chegar até a escola em tempos pré-pandemia e sobre a própria dinâmica escolar. 

“Todos os dias eu vou da minha casa, que fica na cidade, até o porto de São Gabriel da Cachoeira. Lá, um colega meu, também professor, vai me buscar de ‘rabetinha’ [pequeno barco com motor acoplado, a chamada rabeta], e atravessamos o rio até chegar à comunidade onde fica a escola, em um trajeto que leva cerca de trinta minutos. Permaneço lá das 14h30 até umas 17h30, quando faço o caminho de volta.”

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De acordo com Sidinha, na sala de aula é preciso lidar com o conhecimento de forma intercultural. “Cada professor que atua com Educação escolar indígena tem contato, desde a formação, com uma metodologia diferente, que nos permite criar materiais didáticos que trabalham com o nosso conhecimento tradicional e, ao mesmo tempo, contextualizam o conteúdo do livro didático”, explica. “Assim, o material que vem da Secretaria de Educação do Amazonas é, para nós, como um livro de pesquisa, e em cima dele a gente cria os nossos materiais, dinâmicas e brincadeiras.”

Um exemplo bem prático desse cenário descrito pela educadora está no trabalho didático envolvendo animais. “Eu não vou ensinar o meu aluno sobre elefante e girafa, vamos abordar o que tem na nossa terra, como anta, paca e cutia”, reforça. “Aí, em seguida, por meio do livro didático, apresento a fauna de outros municípios, estados e países”. 

Todo esse processo relatado por Sidinha sofreu forte impacto desde março de 2020, início da pandemia. “As escolas indígenas ficaram paradas durante o ano passado inteiro por conta de um decreto. Eu só conseguia ver os alunos de vez em quando, quando fazia uma visita à comunidade aos finais de semana”, relembra. “Em 2021, retomamos, inicialmente de forma remota. Elaboramos, imprimimos e entregamos as atividades, já que a escola não tem internet. Depois, começamos a atuar de maneira híbrida, indo até a escola duas vezes por semana.” No mês retrasado, a escola voltou de forma totalmente presencial. 

A educadora faz um balanço da sua carreira e especialmente desses grandes obstáculos trazidos pela crise da covid-19. “A pandemia foi muito desafiadora, mas nós, professores indígenas, seguimos em busca de levar aos estudantes a melhor Educação possível. Sempre integrando os nossos conhecimentos indígenas com tudo o que envolve o conhecimento científico”, destaca. 

Contexto ribeirinho e acesso à Educação 

O professor Paulo Neves possui mais de duas décadas de sala de aula com experiências nos níveis Fundamental, Médio e também no Superior. Morador de Belém (PA), atualmente trabalha na rede estadual, na Escola Estadual de Ensino Fundamental Pinto Marques, na capital, e na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio de Murinin, em Benevides (PA). Ele atua ainda na rede municipal de Barcarena (PA), na Escola Municipal Laurival Campos Cunha. 

Localizada na Ilha da Trambioca, a Laurival Campos Cunha possui uma particularidade: um grande número de alunos que vivem em ilhas, em casas localizadas às margens dos rios, compondo uma população ribeirinha. “Como moro em Belém, antes de começar a trabalhar lá, eu mesmo não tinha noção da quantidade de estudantes que vivem nessas ilhas. Graças à extensão dos rios e dos arquipélagos, há uma equipe muito grande cuidando da logística desses alunos, que vêm de áreas como a Ilha das Onças e a Ilha de Cotijuba, entre outras. Alguns acordam às 4 da madrugada e gastam um tempão viajando, para chegar à escola às 7h30”, explica. 

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Em relação ao seu próprio deslocamento, o professor leva cerca de 1 hora e 10 minutos para chegar à instituição. “Vou até o porto do Ver-o-Peso aqui em Belém e pego a lancha das 6h10 até Barcarena, o que dá uns 40 minutos. Chego lá no porto fluvial maior e vou até o menor, que chamamos de ‘portinho’. Pego então os barquinhos, conhecidos como ‘popopo’ [expressão que faz referência ao barulho do motor], que me levam até a Ilha da Trambioca. Lá, ainda pego um ônibus em um trajeto curtinho, de 3 quilômetros, para então chegar à escola.”

Por ali, o professor conta que, além da dificuldade no acesso à internet e às tecnologias digitais, o próprio acesso à informação é bastante limitado. “É por isso que nós professores estamos sempre em busca de apresentar para eles o leque de oportunidades que  podem ter por meio da Educação”, destaca Paulo. Ele explica que, desde muito cedo, esses estudantes são expostos ao mundo do trabalho, na coleta do açaí, fruto típico da palmeira amazônica, cuja produção é liderada pelo estado do Pará. “Tentamos mostrar, seja via teste vocacional, indicações de cursos profissionalizantes e mesmo apresentações, que existe uma gama de profissões relacionadas ao açaí que vão além da coleta, como as funções ligadas a áreas como produtividade, agronomia e administração.”

Paulo também ressalta que o obstáculo relacionado às tecnologias tornou as coisas ainda mais complexas ao longo da pandemia. “Nós paramos as atividades em março de 2020 e só retornamos presencialmente agora em agosto de 2021. Trabalhamos com grupos de WhatsApp e com uma plataforma contratada pelo município, mas a dificuldade de acesso era muito grande”, lembra. “Então, tanto em 2020 quanto em 2021, antes de voltarmos ao presencial, nós, professores da rede municipal, elaboramos dois ‘cadernões’ por bimestre, que eram retirados pelos alunos e posteriormente devolvidos à escola. Após essa devolução, íamos até lá uma vez por semana, respeitando os protocolos sanitários e o distanciamento social, para realizar as correções das atividades.”

Em meio a esse cenário, o educador reflete sobre o que observou ao longo da  crise sanitária. “Agora, por exemplo, estou com alunos do 9º ano, mas parece que as coisas ‘pararam’ um pouco no 8º ano. Houve a entrega das atividades, mas o rigor não tinha como ser o mesmo”, aponta. “Os alunos comentam como foi difícil estudar sem o professor e a escola. Isso evidenciou como as relações humanas são importantes nesse processo.”

A partir disso, Paulo conta como enxerga o papel do professor, neste mês que celebra a profissão. “É algo que vai além de passar o conhecimento formal. A função é fazer com que os estudantes tenham consciência da sociedade da qual fazem parte, entendendo que podem, por meio dos estudos, transformar a realidade em que vivem.”

Ancestralidade e luta pelo ensino público

Foto de 2020 dos alunos da professora Maria Isabel, semanas antes da pandemia, assistindo a uma palestra da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Já de volta ao presencial, a educadora segue firme no propósito de unir suas aulas de Filosofia com a perspectiva dos saberes locais.  Crédito: acervo pessoal/Maria Isabel Gonçalves

A professora Maria Isabel Gonçalves é de Seabra (BA) e mora e trabalha na cidade vizinha de Boninal (BA), ambas localizadas na Chapada Diamantina, região com forte presença de comunidades quilombolas. Atualmente, Maria Isabel dá aulas de Filosofia para o Ensino Médio, no Colégio Estadual Rui Barbosa, onde recebe alunos de comunidades dos dois municípios e também de Piatã (BA). Refletindo sobre como é ser educadora nessas localidades, ela recorda a sua própria formação escolar. 

“A professora tem papel muito importante em uma comunidade rural como a que eu cresci. Lembro-me de ter estudado em sala multisseriada no Fundamental 1 e de pensar que também gostaria de ser professora”, conta. “Mais adiante, no último ano do Ensino Médio, tive um professor de Filosofia que deu valor às coisas que eu escrevia, e eu percebi uma conexão entre escrita e filosofia. Então, quis seguir por esse caminho, mas como não havia o curso aqui, optei por Letras.” Mesmo assim, ela ressalta que não parou de estudar, matriculando-se em diferentes cursos e, posteriormente, concluiu também uma licenciatura em Filosofia. 

A carreira em sala de aula, que teve início em 2009, rendeu-lhe o prêmio Educadora Nota 10 em 2020, com um projeto voltado ao resgate de memórias quilombolas, em que os jovens buscaram conhecer a história e a filosofia de vida dos seus antepassados. No entanto, Maria Isabel diz que desenvolver um trabalho desse tipo, com metodologias diversificadas e construção de projetos, não é algo simples. “O ‘sistema’ não dá essa possibilidade de criação, o professor tem sonhos, mas chega à escola pública e se depara com uma média de 40 alunos [na sala] e várias questões burocráticas para lidar”, aponta. “Além disso, no caso do componente curricular de Filosofia, é algo ainda muito ligado à escrita de homens brancos e à própria filosofia ocidental.”

Um dos fatores que ajudaram a professora a contornar esses obstáculos foi uma especialização que fez na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde teve mais contato com a ética ubuntu, filosofia africana com base no fortalecimento do convívio social. “Nesse período, eu estava fora da sala de aula, então tive a chance de estudar e construir planos de aula centrados na comunidade. Em seguida, em 2019, passei no concurso e voltei a lecionar, possibilitando colocar tudo isso em prática.”


A partir de então, surgiram projetos como o que foi premiado em 2020, que conectam a filosofia ocidental à oralidade e à cultura dos saberes locais, sempre com foco na sabedoria das avós. “A palavra-chave é ancestralidade. É uma busca para recontar a filosofia numa perspectiva feminina e decolonial, tendo como figura central a 'Iyaiá', como chamamos as avós aqui nas comunidades”, reflete a educadora. 

“‘Iyá’ é mãe em iorubá [um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental], e a referência da 'Iyaiá' é muito forte aqui no nosso território. São mulheres líderes das comunidades, inclusive espirituais. Além disso, pesquisadoras indígenas me explicaram que o nome Payayás, dos povos originários aqui da Chapada, significa ‘povos da Yayá', referência à árvore gameleira, que simboliza a figura materna. Fechou-se aí uma conexão incrível, com essa 'Iyaiá' afroindígena guiando nossa busca filosófica”, completa. 

A professora destaca também outros dois projetos que conseguiu realizar mesmo em meio às limitações impostas pela pandemia e que seguem gerando frutos agora no presencial. “Um deles foi a atividade ‘até onde vai o seu território?’, com reflexões e fotos sobre lugares onde os estudantes nasceram, cresceram e já moraram. Por aqui, muita gente já foi para São Paulo, porque um familiar se mudou em busca de trabalho. Então, surge uma influência paulista, muita coisa do rap, uma mistura de Capão Redondo e quilombo”, diverte-se. “O outro foi uma atividade com o livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, em que a narrativa se passa no nosso território da Chapada Diamantina. Foi uma leitura ilustrada: eles leram os três primeiros capítulos e conseguiram fotografar cenas idênticas àquelas que a obra descreve”. 

Por fim, ainda sobre a perspectiva da pandemia, Maria Isabel enfatiza que, se por um lado foi um processo muito desgastante, por outro rendeu reflexões sobre o próprio ofício de professora. “Tentamos fazer o acompanhamento individual dos alunos. Fizemos o possível, mas havia muitas questões até mesmo de saúde mental para serem conversadas. Eu lembro que ficava no fim de semana resolvendo coisas. Foi adoecedor para os alunos e para os educadores”, relata. 

“Mas isso reforçou o quanto os professores têm papel social, e os próprios estudantes sabem o quanto precisam e gostam do nosso trabalho. O que nós precisamos, então, é de condições para desenvolvê-lo, o que nem sempre encontramos. Por isso, o professor está sempre na luta: pela comunidade, pelos alunos, por políticas públicas na Educação. A nossa função vai muito além de elaborar exercícios e planos de aula.”

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