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Para além do pedagógico: conheça 3 gestores que fizeram a diferença em suas comunidades

Eles foram fundamentais para manter a união da equipe e a proximidade com os alunos e as famílias durante a pandemia

POR:
Nairim Bernardo
Crédito: Getty Images

“Passei dias e noites costurando máscaras para vender e arrecadar dinheiro para ajudar as famílias carentes da escola. Os professores arrecadaram alimentos com familiares e amigos e entregaram às famílias carentes da comunidade em que a escola está inserida”, conta Maria das Neves, diretora da Escola Mariana Ferreira Lima, em Timbaúba (PE). Ela lembra da necessidade que sentiu de apoiar os alunos e as famílias que passaram por dificuldades mais graves durante a pandemia. Esse tipo de ação, realizada por muitas instituições, evidencia que a relação escola-estudante-família vai além dos aspectos pedagógicos, alcançando outras dimensões.

Desde março de 2020, além dos desafios relacionados ao ensino e à aprendizagem no ambiente remoto, equipes docentes de todo o Brasil se deparam com o aumento expressivo das dificuldades financeiras enfrentadas pelas famílias, as perdas de pessoas da comunidade escolar em decorrência da covid-19 e a falta de recursos digitais dos estudantes para acompanhar as aulas virtuais. Na volta gradual ao presencial, os efeitos desses problemas ainda são sentidos. Nesse contexto, muitos gestores têm articulado ações para acolher as equipes, as famílias e os alunos e garantir que a aprendizagem continue, seja no ambiente remoto, híbrido ou presencial.

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Como parte do especial do mês dos professores, NOVA ESCOLA conta a história de diretores que fizeram e fazem a diferença em suas comunidades. Por meio deles, homenageamos todos os gestores e professores brasileiros que superam desafios para continuar educando.

Ações diversas para manter a escola viva

Maria das Neves, diretora da Escola Mariana Ferreira Lima, em Timbaúba (PE). Crédito: Acervo pessoal

Maria das Neves trabalha há 32 anos na Escola Mariana Ferreira Lima. Há 27 anos está na gestão, mas os muitos anos na mesma escola não são sinônimo de acomodação. Segundo ela, investir na metodologia de projetos, em festivais e em palestras com profissionais de áreas específicas, como psicologia, são maneiras de dinamizar a rotina escolar. “Eu gosto de inovações, e trazer coisas novas é um modo de eu não me cansar do trabalho nem a comunidade se cansar de mim. Não sou diretora de gabinete, eu amo o pedagógico. Estou sempre andando pela escola e pesquisando coisas para os professores inovarem em sala de aula”.

Durante o período de distanciamento social, a proposição de projetos que envolvem toda a escola não parou. O delivery e o drive-thru de livros foram criados para que obras literárias fossem levadas até a casa dos alunos ou retiradas na porta da escola. Além de incentivar a leitura, essa ação ajudou no contato direto com as famílias, sempre seguindo todos os protocolos de biossegurança. Pedidos, dúvidas e angústias eram compartilhadas quando a diretora e as professoras passavam na porta das casas dos alunos.

Na volta ao ensino presencial, Maria diz que percebeu um aumento significativo do interesse dos estudantes pelos livros. Antes que a biblioteca fosse reaberta, eles já questionavam sobre a possibilidade de fazer empréstimos das obras. Agora que o espaço já está disponível, eles gostam de frequentá-lo nos momentos livres. Já o projeto “Adote um colega”, que surgiu para que os alunos também pudessem colaborar para a diminuição da evasão escolar. Na iniciativa três estudantes de cada turma, indicados pelo professor, acompanhavam remotamente as atividades dos demais. Eles se preocupavam com os colegas, mandavam mensagem de acompanhamento e apoiavam os que tinham mais dificuldade ou aqueles que estavam afastados das atividades. Os problemas específicos eram contados para os educadores, que também faziam o acompanhamento. Como retorno presencial, a ação foi adaptada. Do 6º ao 8º ano, todos os alunos alternam a liderança da turma e se responsabilizam por fazer a ponte entre professores e estudantes. No 9º ano, há monitores de Matemática e Português que ajudam colegas no contraturno.

“É muito gratificante quando a equipe e a comunidade abraçam com prazer e motivação os projetos e ações da escola. Não há maior gratidão do que ver as pessoas unidas pelo bem da Educação”, destaca a diretora. Ela diz que é um motivo de grande felicidade voltar a frequentar a instituição. “Quando estive aqui na escola depois de três semanas do fechamento, eu chorei. Retornar, ver a escola viva novamente e estar aqui é muito importante pra mim”. 

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Parceria com a equipe pedagógica em aldeia indígena

Zeno Alcides Kaipper Ely, diretor da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Igineo Romeu Ko’eju. Crédito: Acervo pessoal

Assim como Maria das Neves, a atuação de Zeno Alcides Kaipper Ely, diretor da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Igineo Romeu Ko’eju, em uma comunidade indígena em São Miguel das Missões (RS), também foi fundamental durante a pandemia. Como a população indígena faz parte do grupo de risco da covid-19, a recomendação das autoridades de saúde e da Fundação Nacional do Índio (Funai) era que os indígenas não tivessem contato com pessoas de fora. Assim, Zeno, que geralmente dorme no alojamento da escola de segunda a sexta-feira, precisou se distanciar da comunidade por quase um ano.

Ele explica o motivo pelo qual passava cinco dias da semana na escola. “Quando o tempo está bom e a estrada não é tomada pelo barro, eu levo uma hora da minha casa até a escola. Assim, muito do meu salário seria gasto em combustível e em despesas com o carro. Ficando lá, eu consigo estar mais próximo da comunidade, eles confiam mais nas ações da escola e trabalho com mais facilidade para vencer a carga de tarefas”.

Atualmente, a Igineu Romeu Ko’eju tem 53 alunos matriculados, mas o número reduzido de estudantes não significa diminuição do trabalho. “As tarefas são as mesmas de uma escola grande, só que com uma equipe também reduzida na qual um mesmo profissional acumula funções”, ressalta Zeno. Além de diretor da escola, ele também é professor de uma turma multisseriada, com alunos do 1º ao 3º ano do Ensino Fundamental.

“Eu não posso dizer que é fácil trabalhar com três anos juntos e com a parte da gestão administrativa. Se eu não tivesse minha colega Deise, que é supervisora, seria mais difícil ainda. Só estando na gestão para ter conhecimento de todos os bastidores”, desabafa. Além da parceria com a supervisora, a colaboração de outros professores foi essencial para o seu trabalho durante o período em que ainda não podia entrar na aldeia.

Os professores indígenas ficaram responsáveis por entregar as atividades para as famílias e auxiliar todos os alunos, inclusive os que não eram de suas turmas. O cacique também colaborava transmitindo os recados da escola nas reuniões da aldeia. Os alunos da comunidade indígena que estão no Ensino Médio são matriculados em uma escola localizada na zona urbana. Apesar disso, os educadores da Igineo Romeu Ko’eju faziam a retirada das atividades na outra instituição e entregavam para os jovens da comunidade. "Os alunos indígenas, principalmente, dependem muito da oralidade, pois isso faz parte da cultura deles. Senti muita falta da interação presencial. As atividades escritas não deram conta”, relata Zeno, que foi finalista da edição de 2020 do Prêmio Educador Nota 10.

Após a imunização dos indígenas, um dos grupos prioritários na vacinação, os atendimentos presenciais aos alunos e famílias voltaram a acontecer de modo individual. Havia poucos casos para a busca ativa, mas, ao visitar a casa de uma família, Zeno se surpreendeu. “Eram estudantes do 9º ano que não estavam entregando as atividades porque não queriam ser aprovados, pois teriam que mudar de escola. Antes, os alunos não queriam estudar na aldeia. Agora, não querem sair de lá. Isso me motiva a continuar lutando por uma educação de qualidade.”

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Comunicação e cuidado com as famílias

Ana Terra, diretora da Escola Estadual Herculano Martins, em Montezuma (MG). Crédito: Acervo pessoal

A volta ao ensino presencial não foi a solução para todos os problemas que surgiram ou se intensificaram durante a fase mais dura da pandemia. Ana Terra, diretora da Escola Estadual Herculano Martins, em Montezuma (MG), conta que o ensino semipresencial trouxe novos desafios. “Sair do remoto era urgente, mas dessa forma escalonada e com tantos protocolos sanitários, o cansaço e o desgaste emocional ainda são grandes”.

Como metade dos estudantes da escola são da zona rural e não têm computador, smartphone e acesso à internet, durante o distanciamento social foi difícil fazer os materiais impressos chegarem até eles. “Mas apenas esses materiais eram insuficientes, e alguns alunos não tinham ninguém para ajudá-los em casa, porque os pais não são alfabetizados. As famílias vêm até a escola e dizem que quem sabe ensinar somos nós e não eles”, ressalta Ana.

Para manter os protocolos de segurança no retorno, a diretora precisou organizar um esquema de rodízio de alunos bastante rígido. Em algumas turmas, apenas seis estudantes podem frequentar a escola por semana, o que faz com que tenham somente uma semana de aula presencial por mês. Ana diz que os comportamentos das famílias são bem diversos. Algumas não autorizam o retorno do filho por medo, outras se sentem felizes com a possibilidade do rodízio e outras ainda estão bastante impacientes porque querem o filho todos os dias na escola.

Para superar essas questões, ela organiza reuniões mensais de pais e responsáveis via Google Meet e mantém um grupo no WhatsApp no qual eles têm abertura para fazer questionamentos, que são esclarecidos pela equipe. O foco é mostrar que o retorno é necessário e benéfico para os estudantes, mas, para respeitar a saúde de todos, é preciso seguir uma série de cuidados.

Entre as experiências marcantes deste ano, Ana relembra o primeiro dia de volta às aulas presenciais. “Eu fiquei na porta [da escola] esperando os alunos com o termômetro em uma mão e o álcool em gel na outra. Vi alguns deles chorando e não sabia se estavam emocionados por estarem de volta ou se estavam assim porque me viram chorando”, finaliza.

Como homenagear a equipe docente no mês dos professores
Os gestores entrevistados nesta reportagem dão dicas e sugestões de como reconhecer o esforço e a dedicação dos educadores na data dedicada a eles

Crie um material especial. Elabore uma carta ou um vídeo para homenagear o trabalho desenvolvido pela equipe. Relembre as dificuldades enfrentadas pela escola no último ano, as superações e as conquistas. Cite brevemente qualidades e pontos de destaque do trabalho de cada professor e membro da gestão. Tome cuidado para não deixar ninguém de fora. Caso a escola seja grande, pode ser elaborado um material para cada etapa de ensino.

Peça ajuda aos estudantes e às famílias. Os estudantes passam mais tempo em contato com os professores do que os gestores e, por isso, podem ter muito a contribuir em uma homenagem. Convide alunos e famílias a compartilhar momentos marcantes que tiveram com os docentes, online ou presencialmente, e atitudes positivas das quais se recordam. Esses relatos podem ser coletados em formato de desenho, texto, áudio, vídeo ou compartilhados ao vivo.

Organize um dia diferente. Caso a escola disponha de uma verba para isso ou a equipe possa contribuir, organize um momento especial para os professores. Mesmo nas horas de descontração, priorize atividades que possam ser feitas com máscara e em ambientes abertos. Fique atento às regras da sua cidade quanto à realização de eventos durante a pandemia.