Relacionar cidades do passado e do presente

Aprender sobre os mais antigos agrupamentos populacionais da humanidade ajuda a turma a entender melhor o local onde vive

POR:
NOVA ESCOLA, Camila Camilo, Bruna Nicolielo

Os primeiros agrupamentos. Simone Veloso
Os primeiros agrupamentos: entenda como os povos antigos se organizavam na Mesopotâmia

Um dos conteúdos previstos para o 4º e o 5º ano, a formação das cidades costuma ser ensinada com ênfase na história local. O tema, porém, pode gerar outras abordagens. Uma das possibilidades é introduzir um assunto que será estudado mais tarde: a formação de Ur e Uruk, as primeiras cidades do mundo, localizadas na antiga Mesopotâmia - que hoje corresponde ao Iraque.

Esse estudo só se justifica se estiver articulado a um trabalho mais amplo sobre a origem dos centros urbanos, incluindo aquele em que a turma mora. "Esse conteúdo ajuda o aluno a entender que as cidades não são algo pronto, mas foram construídas por seres humanos com base em condições e necessidades da sociedade", diz Roberto Catelli Junior, formador de professores da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

Embora as primeiras formas de vida urbana tenham surgido em 4000 a.C., aproximadamente, também na Mesopotâmia, Ur e Uruk destacavam-se por seu tamanho e sua densidade populacional. A última chegou a ter cerca de 494 hectares de área total. Algumas estimativas apontam que sua população era de 50 a 80 mil habitantes no ano 3200 a.C. Foram também os primeiros agrupamentos a dispor de todos os elementos que o arqueólogo australiano Vere Gordon Childe (1892- 1957), uma referência no estudo de períodos remotos da civilização, apontou como necessários para que um aglomerado seja classificado como cidade: concentração de pessoas, agricultura especializada, pagamento de taxas a uma divindade, arquitetura monumental, estratificação social, escrita, ciências, cultura e trocas de matéria-prima.

As condições ambientais propícias à agricultura variada da Mesopotâmia - região fértil graças à localização privilegiada entre os rios Tigre e Eufrates - favoreceram o estabelecimento desses grupos, que plantavam cereais e domesticavam animais. O excedente era trocado com as cidades próximas. "Esses fatores levaram ao adensamento da população, à construção de habitações e à organização de espaços destinados a atividades de produção de cerâmica, artefatos variados de matérias-primas locais", explica Elaine Hirata, professora do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), da Universidade de São Paulo (USP).

No centro dessas cidades (veja o infográfico), ficavam os templos religiosos, chamados de zigurates. Eles organizavam a distribuição dos alimentos e também funcionavam como sede do poder político-administrativo. Ao redor deles, estavam habitações, estabelecimentos comerciais e serviços públicos. A sociedade era formada por castas. Cada grupo vivia em um bairro. Plantações de trigo e cevada circundavam essas construções. Muros delimitavam as fronteiras. A concentração populacional e o desenvolvimento da agricultura permitiram o crescimento da infraestrutura, o avanço da tecnologia utilizada nas plantações, como as técnicas de irrigação, e da escrita cuneiforme, um tipo de registro que viabilizou a criação de um código de lei mais tarde -- fundamental para reger a sociedade.

Comparar cidades antigas e atuais para entender conceitos

Ferramentas de comércio. Foto: Gianni Dagli Orti/AFP
Ferramentas de comércio Peças de argila ou esculpidas em pedra eram usadas para registrar as trocas comerciais da época.
Vaso Sagrado de Warka. Foto: Gianni Dagli Orti/AFP
Vaso sagrado de Warka Possivelmente datado de 3200 a.C., foi achado nas ruínas de Uruk. Mostra cenas de oferendas aos deuses.

Para fazer um bom trabalho, estabeleça correspondências entre o passado e o presente. Comece conversando com a turma sobre o que é uma cidade e o que a diferencia de outros espaços, usando como exemplo o local onde as crianças moram. Com base nisso, pode-se apresentar as primeiras cidades (veja os exemplos abaixo), definindo-as como "espaços de troca, comércio e relações de poder que estruturaram a sociedade e a ordem" e mostrar fotografias de peças da época, afirma Catelli.

A relação de diferentes tempos históricos é a estratégia sugerida por Ana Enedi Prince, professora da Universidade do Vale do Paraíba (Univap). Ela ensinou esse conteúdo para turmas de 4º ano na EE Yoshiya Takaoka, em São José dos Campos, a 94 quilômetros de São Paulo. Iniciou o trabalho selecionando materiais de pesquisa sobre as características, a estrutura e o funcionamento de Ur, de Uruk e da cidade paulista em que vivem. Em seguida, já em classe, propôs uma pesquisa com base nesses materiais.

Enquanto liam sobre as cidades, as crianças aprendiam a respeito do surgimento das organizações de poder, do comércio e da agricultura, que estão presentes nas sociedades atuais e surgiram com a sedentarização do homem. "O objetivo foi preparar a turma a responder a questões como: esses lugares mudaram com o tempo? O que permanece? O modo de vida dos habitantes dessas regiões e o nosso têm coisas parecidas?", diz ela. Durante as discussões, todas as hipóteses foram acolhidas e debatidas. Depois desse estudo, com a ajuda de todos, ela montou uma lista comparativa entre as cidades antigas e São José dos Campos.

Os dados mencionados pela turma ajudaram a fazer - com o auxílio do material que a docente levou - uma linha do tempo, que marcava datas importantes para as cidades pesquisadas, sem se preocupar em sinalizar a proporção exata entre os intervalos de tempo de cada data citada. Com um mapa-múndi, a turma localizou sua cidade e a região da Mesopotâmia. Por fim, a professora pediu que todos escrevessem um texto informativo sobre os casos estudados. Assim, a meninada aprendeu a relacionar fatos e, ao fim do trabalho, compreendeu que a história é um processo contínuo, sujeito a rupturas e permanências.

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