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Pesquisa: educadores relatam melhora na saúde mental em comparação com 2020

Em levantamento realizado por NOVA ESCOLA, professores e gestores avaliam os impactos no emocional e apontam receios para a retomada presencial das atividades

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

“Houve momentos da pandemia em que me sentia sufocada, como se não fosse dar conta e estivesse trabalhando em vão”, conta Ana Maria*, professora de Educação Infantil e Anos Iniciais do Fundamental na rede pública da Paraíba. Antes das mudanças provocadas pela Covid-19, a educadora já havia sido diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada. Durante o ensino remoto, relata momentos em que sentiu sua saúde emocional abalada com muita ansiedade e estresse. No entanto, melhorou. "Hoje me considero bem, consigo me controlar melhor", relata. 

A educadora participou da pesquisa de Saúde Emocional 2021 realizada por NOVA ESCOLA entre 31 de agosto a 10 de setembro em seus canais. Foram mais de 4 mil respondentes, dos quais 3.839 eram professores e gestores escolares, espalhados por 24 estados brasileiros e o Distrito Federal — apenas sem representatividade de Rondônia e Roraima. 

Em 2020, realizamos uma pesquisa semelhante. Foram 1.877 respondentes, sendo mais de 1,5 mil professores da Educação Básica. Em relação ao ano anterior, identificamos uma melhora, como é o caso de Ana Maria. Quase metade (47,8%) dos educadores avaliam que sua saúde mental está "boa" ou "excelente", enquanto em 2020, eram apenas 26%. Também houve uma redução considerável entre quem avaliou como "ruim" ou "péssima" — em 2020 eram 30,4%, já este ano são 13,7%. 

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Assim como a professora Ana Maria, Ellen Feitosa, coordenadora pedagógica de uma escola na rede municipal de Anápolis (GO), também faz parte dessa parcela que viu uma melhora. “No começo, foi muito difícil lidar com tudo, tive crise de ansiedade, mas hoje está um pouco melhor, um pouco mais fácil”, relata. Ela conta que um desafio, no início, era lidar com a frustração de não conseguir alcançar todos os alunos e entender até onde ela poderia ir como professora e coordenadora, o que era sua responsabilidade e qual ponto estava além do seu controle. “Se eu tenho família que até hoje não participou das atividades, eu sei que, quando este aluno vier para mim, vou ter que pensar em ações, mas, neste momento, não tenho como resolver a situação. Hoje consigo ver que não depende só da gente”, explica.

Algumas das questões relatadas na pesquisa são semelhantes. Tanto em 2020 quanto em 2021, os maiores incômodos são a ansiedade, o estresse e a depressão. Porém, houve uma queda percentual no número de educadores que se declararam deprimidos — de 20%, no ano passado, para 13% em 2021. "A saúde mental estar melhor pode ter ligação com o fato de que nos acostumamos com a situação. No ano passado, era tudo muito novo e as restrições, no geral, eram maiores”, explica Ana Lígia Scachetti, gerente pedagógica e editorial de NOVA ESCOLA. “Naquele início, os professores tiveram que repensar toda a sua prática e até se comunicar com os alunos foi um desafio muito grande na maioria dos casos. Agora, há novas rotinas estabelecidas e novos hábitos e aprendizados incorporados", complementa. 

Enquanto em 2020, 68% afirmou que a pandemia piorou a sua saúde mental, este ano foram 30,6%. "É provável que esse peso menor dado à pandemia da covid-19 ocorra, hoje, porque a situação mental deles está melhor do que no ano passado, segundo a autoavaliação deles", afirma Ernesto Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede). 

Apesar dos dados mais positivos, há sinais de alerta: 73% dos educadores afirmaram que não têm suporte para cuidar da própria saúde mental. Os motivos são falta de condições financeiras (31,7%), não ter tempo disponível (18%) e não acreditar que é importante para si (12,7%).

Para Ana Maria, falta apoio efetivo nos cuidados com a saúde mental dos educadores. "Não fomos acolhidos nem antes nem durante a pandemia. Somos muito esquecidos. No meu município, aconteceram palestras, mas ficam só na teoria. Não existe nenhuma atividade por parte dos municípios", afirma. 

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Receios para a retomada presencial
Além de investigar a saúde emocional, também perguntamos para os educadores como estava ocorrendo a volta à escola. 79,5% afirmaram que retornaram de forma presencial ou híbrida. Também questionamos como eles se sentiram com a retomada. Em uma escala de 0 a 6 — sendo 0 muito inseguro e 6 muito seguro—, a média das notas atribuídas foi de 2,8. 

O que chama atenção é que apenas 19% sentem-se seguros — 30,4% afirmaram que se sentem inseguros, 40,6%, nem inseguros nem seguros. Entre os principais motivos para se sentirem receosos está a escassez de recursos para manter os protocolos de biossegurança. 

Ana Lígia, que teve acesso às respostas qualitativas da pesquisa, explica os motivos de os professores e gestores não se sentirem seguros: “Há uma preocupação com as crianças e a maioria dos jovens que ainda não estão vacinados. Em alguns locais, os professores convivem com interrupções por conta de casos de covid na escola, pessoas que se recusam a se vacinar ou que não respeitam os protocolos de segurança, falta de material de proteção e de pessoal para limpeza, e uma alta quantidade de casos de covid no município [em que atuam]”. Outro ponto é o receio das novas variantes do vírus e de conseguir manter o distanciamento entre os menores. 

A coordenadora Ellen faz parte dos educadores que já estão com atividades presenciais. “Retornamos agora em agosto. Eu estava ansiosa para voltar. O primeiro sentimento que veio foi o de esperança. Não senti medo, porque estamos seguindo os protocolos de segurança”, afirma. “Precisamos voltar para a rotina, mas com a responsabilidade de estar com as crianças, passar essa confiança para as famílias de que estamos tendo todo o cuidado”, complementa a educadora goiana. 

A diferença entre os níveis de conhecimento dos alunos é a principal preocupação para a retomada, segundo 62,8% das pessoas participantes. Na sequência, estão a  ansiedade (55%), o ensino híbrido (39,7%) e a busca ativa dos estudantes (35,8%). 

"Vejo uma ansiedade muito forte nos professores", afirma Ellen. Um dos motivos, diz, é a defasagem dos alunos. Como gestora, e por estar se sentindo melhor, um de seus principais focos é atender a equipe docente. Por isso, ela se coloca na posição de orientar e ajudar na priorização. "Eles estão ávidos para trabalhar o conteúdo, mas hoje isso não é o mais importante. Agora é o momento de fazer um filtro e identificar o que as crianças precisam", diz a coordenadora. Para dar esse apoio, é fundamental ter um olhar atento para os educadores. “Se vejo que um professor está muito ansioso, chamo ele para conversar, respirar e trazer um pouco de tranquilidade”, finaliza. 

Para saber mais, confira os dados:

*nome fantasia. A professora optou por se manter anônima.