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Como garantir a inclusão de alunos com autismo nas atividades remotas, híbridas ou presenciais

Formação, acolhimento e trabalho colaborativo foram essenciais durante o período mais crítico da pandemia. Conheça os caminhos e as experiências

POR:
Carol Firmino
Crédito: Getty Images

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 160 crianças possuem Transtorno do Espectro Autista (TEA) no mundo, sendo que, estudos epidemiológicos realizados nos últimos 50 anos mostram que um aumento contínuo e global do transtorno. 

Quando se fala em TEA é preciso considerar que não existe um autismo único. Antes, era comum ouvir falar de Autismo Infantil Precoce, Autismo Infantil, Autismo de Kanner, Autismo de Alto Funcionamento, Autismo Atípico, Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação, Transtorno Desintegrativo da Infância e a Síndrome de Asperger. Desde 2013, adotou-se que todos os "tipos" fossem chamados de Transtorno do Espectro Autista. 

De acordo com Cíntia Santos, psicóloga e coordenadora de projetos do Instituto Ester Assumpção, organização de Betim (MG) que atua em prol da inclusão de pessoas com deficiência, o que caracteriza o TEA são as barreiras na comunicação e interações sociais, que podem estar associadas, ou não, à deficiência intelectual. 

“No dia a dia escolar, por exemplo, o aluno pode manifestar dificuldades de iniciar ou responder a interações sociais; ter baixa capacidade para interpretar linguagem corporal, gestos e expressões das outras pessoas; redução nas expressões faciais ou contato visual, dificuldades em estabelecer amizades; ajustar o comportamento a situações diferentes; além de padrões repetitivos restritos de comportamento, interesses ou atividades”, explica a especialista.

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Por isso, é necessário garantir um ambiente escolar acolhedor, que, a partir da perspectiva da Educação inclusiva, desenvolva as potencialidades e ofereça oportunidades a todos os alunos. A instituição precisa se manter em constante aprimoramento e capacitar seus profissionais a fim de que eles percebam as dificuldades de cada criança e os sinais de que ela requer uma atenção diferenciada. 

A pedagoga, pesquisadora de Educação inclusiva e coordenadora-geral da Mais Diferenças: Educação e Cultura Inclusivas, Carla Mauch, ressalta a importância desse trabalho de capacitação: “A demanda por essa formação inicial e continuada ainda é grande, mas existem muitas práticas consolidadas. Temos professores estudando, procurando iniciativas, desenvolvendo trabalhos colaborativos, articulando profissionais de Atendimento Educacional Especializado (AEE) e de sala regular. É preciso investimento e pensar em formações que façam sentido para os professores, que contribuam e problematizem”, diz.

Precisamos do laudo médico? 

“O laudo médico pode ser considerado um norte, um ponto de partida que auxilia a escola a compreender melhor as características gerais do TEA”, aponta Cíntia. Entretanto, ela alerta que nenhuma criança deve ser reduzida ao seu diagnóstico, pois cada uma tem sua personalidade, assim como características e habilidades a serem desenvolvidas. 

A escola deve conhecer sobre o transtorno, mas nunca se limitar a ele. Segundo Carla, todos os profissionais devem se envolver no acompanhamento do aluno com TEA, mas é preciso que cada um entenda o seu papel – com cuidado de não transformar a escola em uma clínica.

Os desafios da inclusão durante a pandemia

Vilma Oliveira, professora na rede pública Contagem (MG) e com experiência em Educação inclusiva na Escola Municipal José Salustiano Lara, em Betim (MG), explica que os educadores têm um papel fundamental na inclusão, principalmente para que o aluno com deficiência não seja encarado como um problema. “É necessário um planejamento que leve em consideração as diferenças e particularidades de cada indivíduo, pensando nas suas potencialidades e barreiras a serem avançadas”, indica Vilma. Durante a pandemia da covid-19, no entanto, foi preciso levar outras questões em consideração. 

Para Carla, o primeiro desafio foi o acesso à tecnologia, algo que diz respeito não só aos alunos com deficiência. Combinado a isso, surgiu a dificuldade de desenvolver conteúdos inclusivos no ensino remoto: “Os alunos com deficiência foram muito prejudicados, porque ninguém estava preparado para isso. As escolas, as redes, todo mundo teve que se reorganizar para produzir as atividades e isso é algo que leva tempo”, diz. A especialista da Mais Diferenças considera que foi importante a atuação conjunta de escolas, professores e famílias na busca por estratégias para transformar essa situação. 

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Entre essas pessoas está Maria de Lourdes, professora de AEE na Escola Estadual Maestro Antonio Marmora Filho, em Mogi das Cruzes (SP), que atende estudantes com TEA na sua sala. Ela conta que, diante de tantas dúvidas e questionamentos sobre quais recursos utilizar no período da pandemia, identificou que, entre aqueles que possuíam recursos tecnológicos, as chamadas de vídeo por WhatsApp teriam melhor resultado. 

“Combinamos com as famílias a organização de um cantinho de estudo para que os alunos pudessem ser melhor assistidos. Também enviamos um kit com diversos jogos educativos com dados e tabuleiros que serviram de apoio”, conta a professora. Esses atendimentos por vídeo aconteciam semanalmente e duravam duas horas. Além disso, houve propostas de leitura compartilhada, ditados, desenhos, tabuada e um projeto especial, de um bingo com as famílias que acontecia quinzenalmente. 

Outra iniciativa desenvolvida por Maria de Lourdes foi a atividade Matemática das coisas. Nela, os estudantes utilizaram materiais existentes em suas próprias casas – como uma régua, uma fita de tecido ou feijões – para fazer contagens e medir objetos que tinham ao redor. 

De acordo com a professora, a escola também desenvolveu avaliações utilizando o Google Forms e o Jamboard, e viram resultados positivos na experiência dos estudantes com deficiência. “Observamos que as tecnologias melhoraram a atenção e o foco nas atividades. Muitos alunos tiveram o apoio dos familiares no início, mas foi perceptível o fortalecimento da autonomia”, comemora. 

Inclusão de crianças com TEA na retomada presencial

Com o avanço da vacinação contra a covid-19, aos poucos, as instituições de ensino estão retomando suas atividades presenciais. Além de questões básicas como horários, higiene e organização dos espaços, existe a preocupação pedagógica e emocional com esses alunos. 

No caso de crianças e adolescentes com TEA, Cíntia orienta que o ideal é que eles tenham uma aproximação gradativa da escola, com um planejamento do colégio para essa readaptação da rotina. “Os responsáveis podem ser orientados a preparar esse aluno para o retorno com atividades simples como [por exemplo] mostrar no calendário o dia do retorno, contar os dias junto a ele e, se for possível, levá-lo à escola uns dias antes para dar uma volta”, explica a psicóloga. “Jornadas iniciais híbridas e reduzidas podem ser consideradas a partir da necessidade de cada criança e seu nível de comprometimento”, complementa.

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Já Carla lembra que esse momento do retorno é uma novidade para todos que estão inseridos nesse contexto: “A escola, as crianças e as famílias vão ter que aprender a voltar. O caminho é estar mais disponível ainda, mais sensível e atento ao que os alunos vão dizer – e nem sempre pela palavra, mas pelas pistas que eles vão dar em suas atitudes”, afirma a pedagoga. 

Um olhar sensível e atento, e 25 anos de experiência na Educação foi o que ajudou Vilma Soares, professora de 3º ano do Ensino Fundamental na Escola Municipal Carlos Drummond de Andrade, em Duque de Caxias (RJ), a perceber as barreiras impostas pela suspensão das aulas presenciais. Em parceria com a educadora de AEE, ela desenvolveu uma metodologia para trabalhar com um estudante com TEA no presencial e no remoto. “O projeto Inclusive nasceu da necessidade de incluir o meu único aluno com autismo. A primeira ação foi entrar em contato com a família para perguntar se eles aceitavam fazer algo diferente”, relata professora. “Eu decidi montar uma caixa multissensorial com materiais lúdicos, concretos, sensoriais, porque ele não era alfabetizado, e levei até a casa dele. Então, as aulas por vídeo eram feitas atividades com esse material”, conta. 

A caixa era abastecida mensalmente com propostas que evoluíam de acordo com o desenvolvimento do aluno. Vilma revela que precisou refazer a caixa com alfabeto móvel, letras do nome, jogos de memória e de encaixe dado o desempenho positivo da criança. 

Agora, pensando no retorno das aulas presenciais, a professora explica que essa caixa multissensorial pode ser utilizada tanto pelos estudantes com deficiência, quanto por aqueles que apresentam apenas uma dificuldade de alfabetização. “É uma caixa bem versátil e que pode ser usada por todos”, conclui.

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