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A influência de Paulo Freire no trabalho de uma professora alfabetizadora

Nesses mais de 34 anos atuando em sala de aula, a obra de Freire foi essencial para entender as potencialidades e a importância do meu trabalho como educadora

POR:
Mara Mansani

Crédito: Divulgação/Acervo pessoal Nita Freire

No último domingo (19/09/2021), completou-se cem anos do nascimento de Paulo Freire. A obra desse mestre pensador nascido em Recife (PE), na Estrada do Encanamento, no Bairro da Casa Amarela, veio para nos encantar, e também para perturbar, inquietar, provocar e inspirar com seus pensamentos, reflexões, ideais, estudos, vivências e a sua própria trajetória na Educação.

Em minha opinião, a sua obra é atemporal. No clima do centenário, estive lendo novamente dois de seus livros, Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da Esperança, e fico impressionada ao notar como ambos se encaixam e têm tudo a ver com o momento cheio de desafios que estamos vivendo.

Pude notar, também, como esses conteúdos, por um lado, nos trazem respostas a situações que enfrentamos em nosso dia a dia, e por outro, promovem indagações que são tão necessárias a nós que vivenciamos a Educação – e que sabemos o quanto, mesmo na atualidade, temos que seguir lutando para para acabar com a desigualdade em acesso e aprendizagem.”. A partir disso, trago alguns relatos pessoais sobre o papel desse educador na minha formação como pessoa e como profissional em sala de aula.

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Paulo Freire e o início da minha trajetória como alfabetizadora

Na minha jornada de mais de 34 anos como professora, o grande mestre e Patrono da Educação brasileira esteve presente em todos os momentos, especialmente na alfabetização e na Educação de Jovens e Adultos, a EJA, em que trabalhei por cerca de quinze anos.

Inclusive, foi no início do meu trabalho na EJA, que ocorreu talvez a minha maior transformação como professora, graças a Paulo Freire. A partir de suas ideias, tive algumas “viradas de chave”, que foram o entendimento de que a leitura de mundo precede a leitura da palavra, e principalmente, a noção da responsabilidade e da importância da Educação como elemento fundamental na transformação da realidade, e na construção de um mundo mais justo e para todos. Essa construção se dá inicialmente pela mudança das pessoas, que a partir disso, transformam a sua realidade.

Eu me lembro perfeitamente de como foi a ação transformadora de suas palavras em minha profissão, que resultou em anos incríveis de muita troca e aprendizagem coletiva, entre mim e meus alunos, jovens e adultos, especialmente na alfabetização. Acompanhei cada desenvolvimento e evolução dos meus estudantes, e realmente pude vivenciar com eles que a educação liberta!

Paulo Freire no meu dia a dia como educadora

A partir de todos os meus estudos da obra de Paulo Freire, entre tantas mudanças, gosto de enfatizar o quanto passei a trazer para a sala de aula conteúdos e temas da realidade e da vida dos meus alunos, contextualizando e dando mais sentido à aprendizagem de todos.

Na alfabetização, por exemplo, nos momentos das práticas de linguagem, incorporei textos que são, de fato, relacionados às práticas sociais e ao cotidiano dos estudantes, como carteirinhas de vacinação, rótulos de embalagens de alimentos para diabéticos, contrato de aluguel, cartazes de campanhas nos postos de saúde, listas de compras, bulas de remédios, letras de músicas, receitas, certidão de nascimento, entre outros.

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Além disso, também fui ampliando e dando mais espaço para a participação dos alunos em tudo, explorando habilidades, interesses e necessidades – afinal, educar é uma ação coletiva, e nossos alunos podem participar da construção democrática dessa Educação que é de todos.

Com isso, posso dizer que desde que tive contato com todo o conhecimento trazido por Paulo Freire, nunca mais fui a mesma professora, e mesmo depois de tantos anos alfabetizando alunos em sala de aula, continuo com a inquietação provocada pelos seus livros.

Aliás, essas reflexões que as suas produções nos causam são extremamente necessárias, para que tenhamos a consciência de que educar é uma responsabilidade de todos nós, e reforçar que ainda temos muito trabalho a ser feito nessa área aqui no nosso país. Mas mesmo sabendo desses desafios, continuo nesse ‘esperançar’, conceito que o pensador tão bem descreve nesse trecho da sua obra Pedagogia da Esperança. 

“Não quero dizer, porém, que, porque esperançoso, atribuo à minha esperança o poder de transformar a realidade e, assim, convencido, parto para o embate sem levar em consideração os dados concretos, materiais, afirmando que minha esperança basta. Minha esperança é necessária, mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia. Precisamos da esperança crítica, como o peixe necessita de água despoluída”.

(Pedagogia da Esperança, Editora Paz&Terra, páginas 14-15). 

Então, queridos professores e professoras, sigamos juntos nesse ‘esperançar’, ‘freireando’ por aí!


Um abraço e até a próxima!

Mara Mansani

Mara Mansani é professora há 34 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalen

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