Fundamental 2: motivação e engajamento nas atividades não presenciais

Para manter os alunos motivados é preciso proporcionar atividades em que eles precisem se envolver de maneira ativa e ajudá-los a estabelecer objetivos e metas pessoais

POR:
Nairim Bernardo
Crédito: Getty Images

Desânimo, falta de interesse, vontade de faltar na aula, pouca participação, esgotamento. Infelizmente, essas sensações e atitudes se tornaram mais comuns durante a pandemia. Diante de tantas mudanças sociais e de perspectivas negativas para o futuro, é possível que os alunos deixem de ver sentido nas atividades escolares. Nos Anos Finais do Fundamental isso vem acompanhado de um período de muitas mudanças e descoberta de novos interesses. 

Estar motivado vai muito além do simples querer ou não fazer algo. Segundo o material Motivação: evidências para promover a aprendizagem, organizado pelo Instituto Ayrton Senna, as pessoas podem ser estimuladas de diferentes formas, como pela busca por um objetivo específico, uma recompensa, o desejo de evitar resultados negativos ou o prazer que realizar a ação irá gerar.

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“O modelo educacional funcionava regulando o aluno, mas no contexto remoto o estudante precisa se regular. Ele precisa escolher ficar três horas estudando e tem que saber porque vai fazer isso”, comenta Cataria Sette, doutora em Psicologia, com ênfase em Avaliação Psicológica, e gerente de projetos no Instituto Ayrton Senna. 

Ela conta que a motivação pode ser estimulada pelos educadores. “Não é algo inato e também não é um interruptor que você liga e desliga quando quer. A escola pode ajudar o aluno a entender onde ele quer chegar, como fazer isso e os motivos para estudar”, afirma a especialista. Esse trabalho não deve ser encarado como uma tarefa a mais, uma vez que já está presente de modo transversal em discussões já propostas pela Base Nacional Comum Curricular. 

Segundo Catarina, a recomendação não é dar uma aula específica ou promover uma palestra sobre o tema, mas desenvolvê-lo em todos os componentes curriculares aliado ao trabalho com as competências socioemocionais. Por exemplo, com autoconhecimento os jovens podem explorar suas crenças, valores, interesses, objetivos na escola e fora dela, com autogestão podem planejar um plano de ação para chegar no objeto e depois refletir continuamente sobre seu próprio desenvolvimento através da autoavaliação.

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Os processos autorreflexivos (orientados pelo professor) são importantes porque as crenças que o indivíduo tem sobre si estabelecem sua vontade de fazer uma tarefa e o quanto ele acredita ser capaz de a realizar. Com isso, o estudante desenvolve uma narrativa pessoal sobre o quanto é capaz e o quanto é ou não responsável pelos seus fracassos e sucessos. “Se o aluno teve um momento de raiva porque não conseguiu realizar uma tarefa, o professor pode conversar com ele, passar um exercício mais fácil e aumentar a dificuldade aos poucos para que ele mesmo perceba que é capaz de cumprir tarefas”, sugere Catarina.

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Em setembro de 2020 a pandemia havia completado 6 meses e os estudantes do 9º ano da Escola Estadual Edwards Corrêa e Souza, em Três Lagoas (MS), perceberam que a crise sanitária ainda demoraria para passar e o desânimo se tornou perceptível. “Alguns alunos chegaram a pedir ajuda dos professores para conseguir apoiar outros colegas. Eles contavam que os amigos não estavam bem, que choravam muito e que não queriam fazer nada”, conta Camila Aparecida Ferreira, professora responsável pelo componente Projeto de Vida na instituição. Para incentivá-los, as turmas elaboraram um vídeo motivacional expressando solidariedade, apoio e parceria e compartilharam via redes sociais. 

Além dessa atividade específica, a professora conta que a conversa com os alunos é essencial e que precisa ser mantida mesmo com o distanciamento. “Para mim, Projeto de Vida é justamente esse tête-à-tête com os alunos, olhar no olho, motivar, mas no online fica mais difícil. Eu gosto muito de conversar diretamente com eles, mas nem todos acessam as aulas”. 

Para alcançar quem não tinha condições de acompanhar as videochamadas, a professora sugeria vídeos, textos e atividades em que os alunos precisavam refletir e relatar o que fariam diante de certas situações. Desse modo, a conversa sobre motivação não se transformava em uma aula expositiva em que só ela falava. O momento é sempre de troca, em que todos expressam suas opiniões e vontades, inclusive os que não podem participar dos encontros síncronos.

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Segundo Jessé Cruz, formador do componente curricular de Projeto de Vida na rede estadual do Mato Grosso do Sul, situações-problema, projetos e conversas abertas sobre a importância do engajamento, da motivação e de outras competências socioemocionais se complementam. “Não basta o professor saber o que está fazendo e conduzir o aluno O estudante tem que saber quais competências está desenvolvendo, porquê e onde pretende chegar com aquilo”, explica ele. A lógica é simples. Se não sabe do que se trata e não percebe uma aplicação prática, o aluno considera aquele saber irrelevante. 

O formador conta que o papel das famílias também é essencial para manter a participação dos jovens na escola. Segundo ele, a tendência delas é achar que o filho pode cuidar da vida escolar sozinho quando chega no Fundamental 2 e Ensino Médio. A autonomia precisa sim ser incentivada, mas o processo é gradual e não deve ser confundido com abandono. “O gestor precisa ser sincero e falar para as famílias, ‘nós precisamos de vocês’. É essencial não olhar só para as dificuldades delas, mas também para o fato de que a presença dos pais pode somar para a escola”, sugere Jessé. 

A motivação pode aparecer de forma transversal em vários momentos e não precisa ficar restrita a um componente específico. Camila, que também é professora de História, conta que para começar a desenvolver os conceitos do seu componente sempre pede que os alunos contem sua história pessoal. Através de elaborações orais e textos eles refletem sobre si, compartilham suas dificuldades, superações e percebem o próximo. A partir disso, conseguem entender quem são enquanto indivíduo e coletivo, onde querem chegar e como podem fazer isso.

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  1. Espaço adequado para estudar: Para se engajar em uma atividade, é preciso ter foco — o que pode é difícil quando as condições não são ideais. Conforme a possibilidade de cada um, incentive os alunos a procurar um lugar silencioso e no qual possam assistir a aula sentados. Converse sobre a possibilidade de que mantenham as câmeras ligadas durante as videochamadas.
  2. Coletividade e individualidade: O que motiva uma pessoa não é necessariamente o que motiva a outra. Por videochamada ou troca de mensagens, converse com a turma para que ela estabeleça objetivos e planos em comum e também organize momentos para que cada um trace metas individuais (que podem envolver a escola e outros aspectos da vida).
  3. Interesses prévios: É importante que os alunos desenvolvam a abertura para o novo, mas também é preciso considerar os interesses que eles já têm. Faça um diagnóstico do que eles gostam de fazer em casa, assistir, jogar, quais redes sociais utilizam e avalie o que pode ser aproveitado nas suas aulas.
  4. Invista em metodologias ativas: Além de conversar sobre motivação, é preciso propor atividades e discussões em que o aluno se envolva ativamente, como projetos em grupo, usando a estratégia da sala de aula invertida ou de gamificação. Pense também em situações-problema que envolvam a realidade da comunidade escolar e os desafios dos jovens do século 21.
  5. Fortaleça vínculos: Aproveite a necessidade de avaliar como as metas individuais e coletivas estão sendo perseguidas para conversar com os alunos. O tom não deve ser de cobrança, mas de interesse em comemorar vitórias e oferecer ajuda para repensar estratégias para que eles alcancem o que ainda não conseguiram.


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Na Escola Estadual Luiz Da Costa Falcão, em Bonito (MS), professores e alunos se reencontraram pessoalmente no início de agosto — até então as aulas só aconteciam de forma remota. Aproveitando que esse momento coincidiu com os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, a professora Patrícia Gressler Groenendal da Costa utilizou exemplos dos atletas para desenvolver uma sequência didática sobre esportes com turmas do 6º ano nas aulas de Projeto de Vida.

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As atividades começaram com uma contextualização geral sobre o evento esportivo, o compartilhamento de notícias selecionadas pela professora e uma roda de conversa. Depois, os alunos foram orientados a realizar uma tarefa na semana em que ficariam em casa devido ao escalonamento: assistir, ouvir ou ler notícias no jornal e trazer um relato por escrito sobre as Olimpíadas. “Alguns professores entenderam que na volta ao presencial não são mais obrigados a usarmos recursos tecnológicos. Acredito que não devemos encarar isso como uma obrigação, mas como um recurso a mais para manter os alunos interessados”, comenta Patrícia.

De volta à escola, as turmas conversaram sobre os projetos de vida que os atletas aparentavam ter desenvolvido para chegar até uma competição tão grande e sobre o forte traço motivacional de suas histórias. Depois, em uma atividade chamada “Minhas Qualidades”, discutiram suas qualidades e suas dificuldades. Por fim, criaram emojis para representar as características que haviam compartilhado. 

“Em todas as minhas aulas procuro chamar atenção para como o que estudamos pode se relacionar com a vida de cada um. Isso vai desde repensar um hábito, passa por fazer um planejamento para o ano letivo e chega até metas de longo prazo”, comenta a professora Patrícia.

Para a educadora, uma forte característica dos alunos de Fundamental 2 é a comunicação e a empolgação, que pode ser vista por muitos de forma negativa. No entanto, é preciso que os professores saibam utilizar esse traço para realizar atividades em sala de aula e também pensar no que cada um consegue fazer em casa — o que pode variar de pesquisas e projetos envolvendo a tecnologia até alternativas analógicas, como observações críticas de programas televisivos e entrevistas com familiares. 

No caso de alunos que chegaram ao ponto de considerar abandonar a escola, é preciso que a gestão avalie quem é o adulto de referência — ou seja, com quem o estudante tem mais afinidade — para propor uma conversa. Segundo Jessé, chegar a esse ponto é uma prova de que o estudante já encontrou significado em outras coisas e que a escola perdeu o sentido. “Temos que nos colocar no lugar dele e entender que sair da escola vem de uma crença de que estão tomando a melhor atitude ou a única possível para o momento”. Após diagnosticar o que está motivando a decisão, destaque a importância da Educação. “Precisamos ressignificar o propósito da escola, que não pode ser só ser ponte para entrar na faculdade porque inicialmente alguns nem tem essa vontade. Precisamos mostrar o que mais ela tem a oferecer de bom: desenvolvimento humano, interação com as pessoas, abertura de possibilidades diversas para o futuro”, comenta o formador.