Como trabalhar a divisão no Fundamental 1

Conheça estratégias para introduzir e avançar na compreensão da operação

POR:
Selene Coletti
Crédito: Getty Images

Tom Jobim cantou “pra que dividir sem raciocinar”. É isso que precisamos ter em mente quando estudamos a divisão com nossas turmas. Devemos entender operação para não a realizar de forma mecânica. Pessoalmente, posso dizer que percorri um longo caminho até saber fazer esse trabalho.

Dividir é algo que as crianças vivenciam desde sempre, seja nas brincadeiras ao organizar os times para poder brincar, na distribuição das peças de um determinado jogo ou mesmo de uma quantidade de brinquedos, folhas, doces, frutas, massinhas, etc. São diferentes exemplos de situações cotidianas de dentro ou fora da escola.

Aproveitar estes momentos – e estes conhecimentos -  é de extrema importância para que a turma possa construir a ideia de dividir desde a Educação Infantil. Dessa forma, quando o algoritmo for introduzido, o aluno compreender o que está fazendo, o que está por trás.

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Mas quais as ideias da divisão?

Na divisão temos duas ideias a da distribuição e a de medida.  A primeira envolve a repartição equitativa. Por exemplo, quando tenho 16 figurinhas para separar entre 2 crianças e quero saber quantas figurinhas cada uma irá receber. O todo (no caso 16 figurinhas) é dividido em um número de grupos pré-estabelecido (2 crianças) e é preciso descobrir quantos elementos ficarão em cada um (quantas figurinhas cada criança irá receber, nesta situação são 8 figurinhas).

A segunda ideia – de medição – está relacionada com a noção de “quantos cabem”. Por exemplo: tenho um pedaço de papel de 30 centímetros e quero fazer marcadores de 5 centímetros.  Quantos marcadores consigo fazer? Nesta situação, quantos marcadores de 5 centímetros cabem no papel de 30 centímetros? Ao fazer a divisão, descobrimos que caberão 6 marcadores. O uso da reta numérica irá ajudar bastante na compreensão desta ideia. Confira aqui um plano de aula para trabalhar essa noção com o 3º ano do Fundamental.

O professor precisa saber qual ideia quer trabalhar para planejar boas situações-problemas e intervenções que permitam aos alunos a construção dos conceitos.

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Como introduzir o algoritmo

Os algoritmos na divisão são introduzidos, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular, somente a partir do 4º ano como pode ser visto na habilidade: (EF04MA07) Resolver e elaborar problemas de divisão cujo divisor tenha no máximo dois algarismos, envolvendo os significados de repartição equitativa e de medida, utilizando estratégias diversas, como cálculo por estimativa, cálculo mental e algoritmos.

Antes, devem ser propostas situações-problemas variadas nas quais os alunos podem resolver utilizando estratégias e registros pessoais. Por exemplo, a habilidade prevê que a criança seja capaz de (EF03MA08) Resolver e elaborar problemas de divisão de um número natural por outro (até 10), com resto zero e com resto diferente de zero, com os significados de repartição equitativa e de medida, por meio de estratégias e registros pessoais.

Por isso, é de extrema importância, antes de trabalhar com o algoritmo, levar situações-problemas envolvendo as ideias da divisão que possam ser resolvidas de forma concreta utilizando materiais de contagem ou solicitando o registro por meio do desenho, por exemplo.

Um exemplo de uma situação-problema: Vilma foi visitar seus 5 sobrinhos e levou 15 pirulitos para dividir igualmente entre eles. Quantos pirulitos cada criança recebeu?

Veja que o aluno fez o desenho dos pirulitos, das crianças e depois a quantidade que cada um recebeu.

Crédito: Reprodução/Acervo pessoal

Proponha outras situações com quantidades que sejam possíveis de serem resolvidas utilizando o desenho. Depois traga uma situação na qual a representação por meio do desenho torne a resolução mais trabalhosa. Por exemplo: como dividir igualmente um pacote com 120 bolinhas de gude entre 5 pessoas.

Veja o trabalho que deu quando um aluno desenhou as bolinhas distribuídas nos 5 pacotes.

Crédito: Reprodução/Acervo pessoal

Já este outro encontrou um jeito mais prático para representar: utilizou o número 20 em cada saquinho e faz as 4 marcas completando as 24 bolinhas. Em relação a representação anterior, este está um pouco mais evoluído. Questionar como ele chegou no 20 irá ajudar a entender como ele está pensando e fazer novas intervenções.

Crédito: Reprodução/Acervo pessoal

Na sequência, você poderá propor que utilizem o material dourado para realizar outras situações-problemas envolvendo a divisão, pois assim reforçará a compreensão do que estão fazendo.

Outro ponto importante, como já conversamos outras vezes aqui, é garantir o espaço para os alunos compartilharem as estratégias que usaram para resolver. Além de permitir circular diferentes informações ou jeitos de pensar, irá te mostrar o que já dominam e o que ainda precisam saber. Neste momento, sua observação fará toda a diferença, pois lhe dará informações importantes para planejar as próximas propostas.

Como avançar

Ao longo do meu percurso usei diferentes estratégias. Posso dizer que a divisão por estimativa é a que torna a divisão mais fácil, que melhor permite ao aluno compreender o processo e o próprio algoritmo.

A estratégia utiliza o cálculo mental e tem por base a ideia de que dividir é efetuar subtrações sucessivas. Por exemplo, vamos pegar a proposta de dividir as 120 bolinhas de gude entre as 5 crianças. Inicialmente, quantas bolinhas posso começar distribuindo para cada uma das 5 crianças? O aluno terá que estimar a quantidade. Ele poderá dizer que apenas 1, 4 ou 5. Se utilizar o conhecimento de tabuada – no caso do exemplo, a tabuada do 5 – poderá estimar quantidades maiores como 10 ou 20 bolinhas.


Conforme o aluno for se apropriando do algoritmo, você poderá delimitar o espaço no caderno para a realização da divisão o que fará com que a turma estime quantidades maiores.

A prática me mostrou que trabalhar a divisão por estimativa requer estabelecer parcerias com toda a equipe escolar e com as famílias. Antes de introduzir para os alunos, na reunião com os responsáveis, realizava uma oficina de divisão de como iria trabalhar com as crianças com o objetivo de compreenderem o que seria feito evitando ruídos na comunicação e garantindo uma linguagem comum. Os frutos colhidos eram sempre os melhores, sem contar que a turma sempre conseguia fazer qualquer divisão. 

E você, utiliza a divisão por estimativa?  Conte para mim aqui nos comentários.


Um abraço e até a próxima,

Selene

Selene Coletti é professora há 40 anos na rede pública. Atuou na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos, lecionando do 1º ao 5º ano. Em 2016, foi uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita,  com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada e também como formadora da Educação Infantil na Prefeitura de Itatiba (SP). Atualmente é vice-diretora da EMEB Philomena Zupardo, em Itatiba.

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