Educação Infantil: a prática da escuta e o planejamento no retorno semipresencial

Para construir vivências que façam sentido para os pequenos no gradual retorno, é preciso ouvir as percepções de cada criança a respeito desse complexo momento da pandemia

POR:
Paula Sestari
Crédito: Getty Images

Desde o início da pandemia, vivemos um período inusitado na Educação. Da minha parte como professora na Educação Infantil, mesmo acreditando em uma concepção de criança enquanto um ser potente e sempre capaz, quando iniciamos o atendimento remoto na escola em que trabalho, confesso que tive muitas dúvidas sobre a possibilidade de conseguirmos dar continuidade ao ensino.

Assim como eu, professoras e professores da Educação Infantil de todo o Brasil foram desafiados a se reinventar no seu fazer pedagógico; nesse processo, as famílias sentiram drasticamente a falta do atendimento, já que prevaleceu entre pais e responsáveis aquela sensação de que as crianças estariam perdendo alguma coisa.

Além disso, especialistas a todo momento são consultados para analisarem os reflexos desse período para os pequenos – tal preocupação é compreensível; afinal, estamos falando das próximas gerações e de impactos que podem perdurar por muito tempo ainda. Mas e quanto às crianças? Qual é a perspectiva delas em meio a toda essa crise?

As crianças, seguramente, são as menos ouvidas durante todo esse processo. Nós, adultos, nos preocupamos muito com o futuro, com o que será daqueles que estão passando por essa experiência, e estamos sempre discutindo o que pode ter ficado para trás e o que deixou de acontecer em meio aos muitos desafios trazidos pelo ensino remoto.

No entanto, nós temos dificuldade no exercício de nos atentar para o hoje, para a vida que emerge da infância – e acredito que é só por meio de uma escuta das percepções das próprias crianças, em relação ao que foi vivido desde 2020, é que resolveremos as complexidades relacionadas ao planejamento e às propostas de atividades nesse momento de gradual retorno presencial.

Combo - BNCC na Educação Infantil 

Esse combo de três cursos exclusivos de NOVA ESCOLA engloba tópicos de muita importância nessa etapa da Educação: como realizar planejamentos alinhados à BNCC, experiências das crianças, e como idealizar atividades de leitura. 


Os desafios do período de ensino 100% remoto

No atendimento remoto, que aconteceu durante todo o ano letivo de 2020, passamos por um período difícil na comunicação com as famílias até que elas compreendessem que, mais do que conferir atividades, nosso intuito era saber como estava a criança, o que de fato estava fazendo sentido para ela, principalmente por evidências trazidas pelas demais linguagens antes da comunicação verbal.

Dessa forma, a cada mensagem de texto, áudio ou proposta encaminhada para as famílias, era preciso enfatizar questões do tipo “como a criança participou?”, “ela brincou?”,“foi interessante esse momento para ela?”, e outros questionamentos de acordo com o que era sugerido. Posteriormente, com os indicativos e leituras dos registros enviados, nós professoras tínhamos as evidências necessárias para entender como a criança, de fato, estava nesse processo, e foi isso que conduziu a nossa atuação no período.

Esse diálogo constante e aberto com as famílias foi fundamental para que elas compreendessem os objetivos e finalidades das propostas, e para que tanto as expectativas dos pais e responsáveis quanto os nossos fazeres estivessem no mesmo ritmo. Nas nossas trocas, muitos comentavam coisas como “mas eu não tenho a sua formação, não sei como fazer”. Então, as propostas enviadas continham textos breves, claros e até mesmo no formato instrucional com passo a passo.

O mais interessante foi que, para aqueles adultos que se dedicaram na realização das vivências, percebemos um estreitamento dos próprios laços familiares: muitas mães e muitos pais passaram pelo resgate da própria infância com as brincadeiras que eram sugeridas, além de terem se dado conta da dimensão educativa que existe na comunicação das mais simples ações do dia a dia, como explicar para a criança quais alimentos fazem parte da refeição, ou ao consolidar a organização das tarefas da casa, com horários e indicativos que apoiavam a criança no entendimento de como a sua rotina se estrutura.

Retorno semipresencial, tempo e escuta

Hoje, meu trabalho com as crianças pequenas está no modelo híbrido. Temos dois grupos que se alternam entre uma semana na instituição e outra com vivências para desenvolverem em casa. Temos também a alternativa da continuidade do atendimento remoto para aquelas famílias que assim o desejam.

Então, de volta à pergunta feita no começo dessa coluna, “mas e quanto às crianças?”. Bem, as crianças chegam todos os dias demonstrando o quanto sentiram falta do nosso convívio diário. Nas conversas, elas revelam como o período de atividades em casa parece que custa a passar, e por isso a construção de noções temporais tem sido importante para que compreendam essa dinâmica – que pode talvez não ser a mais adequada do ponto de vista de muitos especialistas, mas que tem sido a mais viável de acordo com a nossa realidade, e também tem sido a que aproxima a criança dos espaços e tempos que são organizados especificamente para elas.

Educação Infantil Inclusiva: estratégias e boas práticas para o professor

Esse curso de NOVA ESCOLA tem como proposta contribuir com o diálogo entre a BNCC, em relação aos direitos de aprendizagem e desenvolvimento e seus campos de experiências, com o compartilhamento de experimentações, práticas e fazeres em busca de uma escola de educação infantil pública e inclusiva 


Além disso, na nossa nova rotina escolar, a escuta das crianças tem sido ainda mais fundamental. Se os nossos documentos e orientações reforçam o papel do professor enquanto motivador de contextos educativos significativos, a realidade nos dita essa ação como condicionante para a garantia dos direitos de aprendizagem das crianças, que estão passando por um momento tão específico quanto o da pandemia e, mais do que nunca, estão dispostas a compartilhar as suas impressões sobre tudo isso.

Afinal, essa realidade pandêmica é a realidade que elas têm conhecimento, é o presente carregado de suas próprias experiências, no qual estão aprendendo a viver e a construir suas relações – por outro lado, nós adultos já estamos habituados a essa realidade, e tendemos ao sentimento de nostalgia, de que o tempo parou, e de que o último ano nos deixou uma lacuna. Dessa forma, nossa conduta pode acabar interferindo no olhar infantil, entrelaçando a realidade que elas estão desbravando com a forma que nós, adultos, lhes apresentamos essa realidade tão complexa.

Por conta disso, lá no início de 2021, quando retomamos o atendimento semipresencial, tivemos muitos receios de como as crianças iriam encarar esse retorno, de como elas veriam esse espaço depois de tantos meses de afastamento. No fim das contas, quando esse dia enfim chegou, percebemos que na verdade o receio, o medo e a angústia sobre o que estava por vir faziam muito mais parte das nossas emoções de adultos, do que das próprias crianças. Elas, por sua vez, chegaram animadas, ávidas para compartilharem suas experiências, embasadas nas melhores memórias, e afoitas pelas brincadeiras, pelas interações e por tudo aquilo que faz parte do nosso viver coletivamente num espaço da Educação Infantil.

Planejamento e experiências de atividades

A partir dessas considerações, vemos o quanto uma citação do autor Jorge Larrosa Bondía faz sentido no contexto em que vivemos. Ele afirma: “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A experiência é singular!”. Essa reflexão é pertinente para pensarmos que a nossa visão da realidade está imbuída de tudo o que nos passou ou nos atravessou ao longo da nossa história de vida, e isso difere do tempo e dos atravessamentos que a criança já experimentou até aqui.

É por isso que o nosso planejamento para a gradual retomada presencial (ou para a continuidade de modelos de ensino, de acordo com a realidade de cada município), só terá sentido se nos colocarmos na posição de respeito ao que a criança pensa e sente sobre esse momento. O que quero dizer, caros colegas professores e professoras, é que o sentido de tudo o que estamos vivendo é particular e imensurável inclusive para as nossas crianças, que apesar de estarem à mercê das nossas impressões enquanto adultos, estão elas próprias estabelecendo as suas memórias – e é nosso papel promover espaços para que elas construam os seus próprios sentidos.

Cabe a nós, assim, nos desapegarmos desse emaranhado de conflitos quase que exclusivos da dimensão adulta, e nos debruçarmos nessa escuta sensível ao que as crianças pensam e sentem hoje com suas próprias experiências e expectativas, para assim consolidarmos o nosso planejamento. Nessa perspectiva, algumas experiências de atividades na escola já se destacam.


Ter o espaço da casinha, em que as relações familiares são resgatadas ludicamente por meio de momentos de brincadeiras, é importante para a ressignificação dessas relações. A vivência de diferentes papéis permite com que a criança compreenda as mudanças, as perdas e as ausências vividas nesse período, de maneira a dar um novo sentido para suas experiências.

Outra possibilidade interessante é o cantinho do médico e de higiene. São iniciativas que se tornaram oportunas para que as crianças construam significados para tantas informações e regras quanto à higienização das mãos e dos materiais, e ao uso restrito de alguns espaços, além de consolidar a importância da máscara (que eles usam tão certinho!) e do distanciamento físico.

Outras situações possíveis são aquelas do cotidiano, como a alimentação – que pode incentivar ações mais independentes, constantemente planejadas tendo em vista a autonomia progressiva e a ampliação do repertório das crianças, principalmente quando nos referimos à oferta de alimentos variados como frutas e verduras. Por fim, outra proposta interessante é incorporar as brincadeiras aprendidas da cultura familiar (algo que o período remoto reforçou), e que são trazidas para o grupo de crianças com a oportunidade de troca entre elas.

Todos esses espaços em sala dialogam com as vivências que são sugeridas para as semanas alternadas em que eles vão permanecer em casa, e sempre são elaboradas de acordo com os interesses e características de cada grupo. No meu caso, que trabalho com um grupo de crianças bem pequenas, posso dizer que essas práticas me ajudaram a organizar um cotidiano com mais significado – e espero que possam, de alguma forma, contribuir também para o trabalho de vocês, queridos professores e professoras.

 

Um abraço e até breve,

Paula Sestari

Paula Sestari é professora de Educação Infantil da rede municipal de ensino de Joinville (SC), com 10 anos de experiência nessa etapa, e mestre em Ensino de Ciências, Matemática e Tecnologias. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, e foi eleita Educadora do Ano com um projeto na área de Educação ambiental com a faixa etária das crianças pequenas.