Finalmente a reabertura: diretor conta como foi a volta às aulas presenciais

Depois de 1 ano e 6 meses apenas no remoto, primeiras semanas em escola mineira foram dedicadas à acolhida de professores e alunos

POR:
João Paulo Pereira De Araújo
No início de agosto, o diretor João Paulo reuniu presencialmente, pela primeira vez desde o início da pandemia, as equipes gestora e de docentes. Crédito: Acervo EE Pompílio Guimarães  

Desde março de 2020, quando as escolas se fecharam em função da pandemia do novo Coronavírus, nós, educadores, começamos a viver mais um desafio complexo: garantir acesso à educação com as escolas fechadas. Também vivemos a ansiedade de não saber ao certo quando tudo aquilo teria fim. E, talvez por desconhecer o tamanho da catástrofe que seria instalada, mas sabendo a importância da escola para a construção da nossa sociedade, também sonhamos com a reabertura. Considero que não era pecado imaginar que ficaríamos naquela situação por pouco tempo!

A verdade é que, seja por motivos sanitários (o que eu acho extremamente justo), seja por motivos políticos ou mesmo por conta da desvalorização da Educação (a reabertura das instituições de ensino foi prioridade?), o fato é que as escolas ficaram fechadas por um longo tempo, talvez mais do que o necessário - dependendo da realidade de cada município - e muito se perdeu com isso!

Durante todo esse período, muitos sentimentos, bons e ruins, também fizeram parte do nosso cotidiano. No entanto, mesmo nos momentos mais difíceis, a esperança nunca deixou de estar presente. Mesmo depois de encerrar um ano letivo de forma remota e começar outro da mesma maneira, a gente continuava sonhando e imaginando como seria a reabertura da escola. Na verdade, a cada entrega de material de estudo para nossos alunos - durante toda a pandemia, entregamos para cada estudante, em suas casas, todos os meses (leia mais da iniciativa aqui) - a gente observava a necessidade e a urgência de reabrir a escola. 

Lógico que tínhamos o entendimento de que essa reabertura deveria ser acompanhada de um processo seguro, dialogado com a comunidade e seguido de protocolos sanitários bem rígidos, pois mesmo diante dos problemas que visualizamos nesse contato direto com o território durante o ensino remoto, preservar a vida sempre foi e continuará sendo o nosso maior objetivo. No entanto, não posso negar que a fome, a carência socioafetiva e a dificuldade de desenvolver muitas das atividades pedagógicas propostas pelos professores, me impulsionava a acreditar, sonhar e lutar pela reabertura da escola. 

E para falar da reabertura a gente precisa falar do fechamento! Não tem como fragmentar a trajetória de uma escola. Todas as ações que desenvolvemos antes da pandemia nos ofereceram suporte para continuar a oferecê-las dentro de um contexto totalmente diferente. Ações como rever o projeto político-pedagógico (PPP) cotidianamente, fortalecer a relação família e escola e construir, com a comunidade escolar, a consciência de que a Educação é responsabilidade de todos. Todo esse trabalho anterior foi essencial. 

Na pandemia, a Educação bate de porta em porta em Leopoldina

Nesse Nova Escola Box, confira como a EE Doutor Pompílio Guimarães criou seus próprios kits personalizados para cada aluno da etapa, e ainda como a escola desenvolveu uma experiência off-line de ensino durante a pandemia

Desafio: manter o vínculo com a comunidade escolar

Talvez seja difícil de mensurar para quem lê este texto, mas o processo de reabertura da nossa escola começou muito antes da autorização para fazê-lo. Sem sombras de exagero, desde o dia em que fechamos os portões da Escola Estadual Pompílio Guimarães, começamos a reabri-la. A gente fazia isso a cada entrega de material impresso para os nossos alunos que não tinham acesso à tecnologia, no acolhimento às famílias ao longo do período de distanciamento social, no trabalho da equipe administrativa e dos professores, e no envolvimento com toda a comunidade, afinal, era necessário manter o vínculo com os atores que compõem a escola, para que, quando esta pudesse reabrir, eles estivessem lá, para dar sentido à reabertura.

E digo tudo isso porque a gente não pode simplesmente ver essa retomada como um abrir dos portões depois de uma despedida dos alunos na sexta, ou muito menos que estamos reabrindo após um período de férias. Ainda vivemos uma pandemia que vem deixando marcas profundas em toda a sociedade. Ainda precisamos nos cuidar e cuidar dos outros. Por tudo isso é que precisamos entender que estamos reabrindo para uma nova escola, em um novo momento, para atender a uma nova sociedade, novos alunos e novos professores, que trazem consigo, além da gigantesca catástrofe da defasagem de aprendizagem escolar, uma enorme dificuldade de entender as emoções, os medos e as angústias vivenciadas.

É nesse sentido, e com base em todo esse trabalho realizado ao longo do período de ensino remoto, que, quando fomos autorizados a retornar, de maneira segura e mista, com algumas turmas no presencial e outras no remoto, é que entendemos que a palavra do retorno deveria ser ACOLHIDA.

Se os funcionários e os professores não se sentissem acolhidos nesse ‘novo normal’, de que maneira eles teriam condições de apoiar nossos alunos? Para os estudantes não era suficiente que os educadores mostrassem estarem dispostos a ajudá-los, era preciso que a escola como um todo os recebesse de modo que eles pudessem se sentir seguros, tanto na questão de protocolos sanitários, quanto na questão emocional.

Nas primeiras duas semanas de agosto, tivemos a oportunidade de vivenciar todo esse sonho de reabrir a nossa escola e colocar em prática tudo o que planejamos para que esse momento pudesse fazer sentido para todos os atores envolvidos no processo de garantia de uma Educação de qualidade.

Na primeira semana, de acolhimento aos professores e funcionários, tivemos a oportunidade de escutar, de dialogar, de expor o quanto estamos frágeis, sensíveis e carentes e, ao mesmo tempo, mostrar que somos fortes e estamos dispostos a enfrentar os obstáculos que o período exige. Foi um momento para driblar os pensamentos ruins e potencializar a energia boa que cada um trouxe consigo. As emoções de ambas as partes afloraram em meio a uma preocupação que também perpassa as reflexões sobre a avaliação diagnóstica e o planejamento para recuperar a  aprendizagem, pontos também discutidos nesses primeiros dias. 

Ouvi de uma professora que ela havia pensado em desistir de voltar, mas que, ao chegar à escola e vivenciar o ambiente acolhedor que lhe esperava, sentiu uma energia boa que a impulsionou a acreditar que ela tinha força para continuar. O retorno não é fácil e nós, enquanto gestores escolares, precisamos compreender isso e nos colocar à disposição para acolher toda uma comunidade escolar que ao mesmo tempo que carece da presença física na escola, também está insegura e sente medo do retorno.

O diretor João Paulo cumprimenta Pietro Guimarães Faria no primeiro dia de aula presencial. Crédito: Acervo EE Pompílio Guimarães 

A chegada dos alunos

No final de semana que antecedeu a chegada dos alunos, confesso que tive dificuldade para compreender que realmente aquele momento estava para acontecer. Para nós, que, ao ir mensalmente até a casa dos alunos, vivenciamos de perto a falta que a escola faz na vida de muitas de nossas crianças, jovens e adultos, aquele momento parecia ser utópico. Foram tantos os preparativos e cuidados para organizar a recepção das turmas: da organização do espaço e protocolos sanitários à preparação das equipes de professores e funcionários 

Na segunda pela manhã, dia 9, o sonho do retorno tornou-se real e as muitas emoções podem ser traduzidas na fala do nosso aluno Pietro, do 1° Ano do Fund I. Pietro nunca havia estudado em nossa escola e, assim como sua amiguinha Manuela, estava ansioso para a chegada desse momento. Manu estava atrasada e, quando Pietro a avistou, logo gritou: “Manu, você está atrasada, chegou o GRANDE DIA!” Pietro estava certo, aquele era um grande dia: para ele, para sua família, para outras crianças, para outras famílias, para nós e para toda uma comunidade escolar que se manteve firme e unida. 

Escola é lugar de afetividade e de carinho e, mesmo não podendo abraçar, acredito que existem diversas maneiras de fazer isso sem o contato tátil. Acho que nossa escola vem abraçando seus alunos, professores, funcionários e toda a comunidade desde o início de todo esse período difícil, quando nos colocamos à disposição para construir, mesmo diante dos desafios, uma Educação pública e de qualidade. Continuamos firmes em nosso propósito e, agora, com a ESCOLA ABERTA!

João Paulo Pereira Araújo é diretor da Escola Estadual Doutor Pompílio Guimarães, em Piacatuba, distrito de Leopoldina, município localizado na Zona da Mata mineira. A escola atende 200 alunos, entre moradores da zona rural e da periferia da cidade, em turmas de Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Técnico. 

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