Alfabetização: impressões iniciais de uma professora na gradual retomada presencial

Nesse retorno que ocorre aos poucos, está mais do que clara a importância das avaliações diagnósticas, de explorar diferentes metodologias de trabalho, e a necessidade de um planejamento a longo prazo relacionado à aprendizagem

POR:
Mara Mansani
Crédito: Getty Images

Nas escolas em que trabalho, estamos gradualmente voltando às aulas presenciais. No momento em que escrevo essa coluna, estamos atendendo 50% dos alunos diariamente, ou seja, trabalhamos em um esquema de revezamento, ora temos o grupo A na escola, ora o grupo B. Assim, pegando como exemplo uma das minhas escolas, o rodízio tem se dado de forma semanal: uma semana, os pequenos têm aulas presenciais; e na semana em que estão em casa, seguem fazendo as atividades previstas em apostilas e com apoio dos livros didáticos, mas tudo no formato remoto dentro do contexto familiar.

Posso dizer que ainda estamos aprendendo a trabalhar dessa forma, e testando essa transição para o formato híbrido, que sabemos que vai muito além de mesclar aulas presenciais e on-line. Pensando especificamente na alfabetização nessa retomada presencial, já é possível ter um panorama do processo de aprendizagem dos nossos alunos em relação ao período que permaneceram em aulas remotas ou on-line, já que, além da acolhida, um dos primeiros passos foi a realização de sondagens diagnósticas.

Acredito que assim como eu, muitos de vocês, queridos alfabetizadores e alfabetizadoras, se depararam nesse gradual retorno com algumas situações específicas em suas escolas e redes de ensino. Por isso, resolvi elencar na coluna de hoje alguns pontos que todos nós precisamos estar mais atentos nesse momento em que, aos poucos, o ensino presencial vai sendo retomado.

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Diagnósticos são fundamentais!

Quando estávamos com as aulas 100% remotas, nossa preocupação era muito voltada para as crianças que não estavam fazendo e entregando as atividades propostas no período, e que por isso, sempre figuravam em nossa busca ativa, não é mesmo?

No entanto, descobrimos agora que alguns dos alunos que no período remoto entregaram todas as apostilas e todas as atividades feitas, muitos até com bastante capricho, também não avançaram na aprendizagem, e se encontram ainda na hipótese pré-silábica na alfabetização, etapa bem inicial nesse ciclo.

Isso só reforça a importância da realização desses diagnósticos em todos os momentos, mesmo no formato remoto (falei sobre diagnóstico remoto aqui, em outra coluna), pois são eles que encaminham todo o nosso planejamento, no sentido de realmente conseguirmos atender as necessidades de aprendizagem dos nossos alunos.


Testando possibilidades e trabalhando com agrupamentos

Sabemos que na fase atual, no período em que os alunos estão em casa por conta desse revezamento,  ainda precisamos lidar com a falta de interações, que são tão necessárias para o processo de aprendizagem e cuja ausência acaba comprometendo a alfabetização. Apesar disso, acredito que esse é o momento ideal para encontrarmos novas metodologias de trabalho, testando possibilidades e criando ainda caminhos para que os nossos alunos avancem nesse ciclo.

Nessa perspectiva, algo que devemos levar em consideração é o fato de que as nossas turmas de alunos estão ainda mais heterogêneas em relação à aprendizagem. Então, uma das nossas possibilidades é voltarmos a atenção para o trabalho com agrupamentos produtivos.

No final do ano passado, tive a oportunidade de conversar sobre esse assunto com a reportagem da NOVA ESCOLA (você pode conferir a reportagem completa aqui). Como eu comentei nessa entrevista, o elemento central dos agrupamentos produtivos é o planejamento: é necessário disponibilizar para os alunos atividades em diferentes níveis, ou então, construir uma mesma proposta adaptada, para assim conseguir atender a todos.

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A importância do planejamento estratégico

Um dos nossos focos nessa retomada, juntamente com o diagnóstico, é termos claras e bem definidas quais são as habilidades essenciais que precisamos desenvolver em sala de aula, no sentido de potencializar a aprendizagem e de aproveitarmos da melhor maneira possível o tempo de estudo até o final desse ano letivo de 2021.

Mas de tudo isso, um ponto já está se tornando bem claro para todos nós, seja na alfabetização ou na Educação de forma geral: vamos levar algum tempo – que pode se estender por um longo período – para recuperar e resgatar a aprendizagem dos nossos alunos.

Dessa forma, tanto nós professores quanto as nossas redes de ensino, precisamos ter um planejamento estratégico nesse sentido, pensado a longo prazo, e visando o avanço de todos os alunos. A meu ver, esse planejamento deve levar em consideração todos os pontos de atenção que destaquei ao longo dessa coluna e que estamos vivenciando em nosso dia a dia profissional, além de dados levantados em pesquisas de especialistas e educadores de todo o país. Além disso, é necessário que, o quanto antes, os professores passem por formações que tenham em vista esse planejamento estratégico.

Por fim, queridos alfabetizadores e alfabetizadoras, eu gostaria de saber: já estão ocorrendo ações nesse sentido em sua rede de ensino? Sua rede já conta com um plano estabelecido para recuperação e resgate da aprendizagem dos alunos?  E vocês, se identificaram com algum ponto de atenção que destaquei acima? A realidade da sua escola apresenta similaridades com tudo isso que eu comentei? Conte aqui nos comentários, ou dê as suas sugestões sobre o que podemos pensar e fazer em nossas salas de aula!

Um abraço e até a próxima!

 

Mara Mansani

Mara Mansani é professora há 34 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga

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