Pequenos autores, grandes felinos

Ao passar por todas as etapas de uma produção de texto, a turma aprimorou a leitura e a escrita

POR:
Fernanda Salla
O livro ilustrado e escrito pela classe foi o mais lido da biblioteca da escola em 2013. Foto: Marcelo Almeida. Ilustrações Alunos da EM Doutor Sadalla Amin Ghanem
O livro ilustrado e escrito pela classe foi o mais lido da biblioteca da escola em 2013
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Hábitat, gestação, expectativa de vida, flancos, dorso, pelagem e coloração. Comuns entre biólogos, os termos são também corriqueiros no vocabulário dos 55 alunos do 3º ano da EM Doutor Sadalla Amin Ghanem, em Joinville, a 176 quilômetros de Florianópolis. Apesar da pouca idade - entre 8 e 9 anos -, as crianças já são autoras de um livro informativo sobre os felinos brasileiros, a obra mais lida da biblioteca da escola em 2013. Esse foi o resultado do projeto de leitura e escrita de textos e verbetes científicos desenvolvido pela professora Rosiane Ribeiro Justino.

Antes do trabalho, os alunos tinham dificuldade de localizar informações em textos e entender seu conteúdo."Os comportamentos leitores, de ler para aprender e para estudar, úteis em toda a trajetória escolar, devem ser trabalhados continuamente em aula", diz Cristiane Tavares, formadora de professores na Comunidade Educativa Cedac. "Os pequenos escritores falam com propriedade dos saberes que adquiriram", conta Rosiane. A qualidade dos textos da turma também deu um salto, o que pode ser observado ao comparar as produções iniciais e finais da garotada (leia a análise do material na última página).

Até chegar a esse ponto e dar conta do desafio de escrever o livro informativo, as crianças tiveram de trabalhar como verdadeiros escritores, sempre tendo em mente seu público leitor. "Ter um interlocutor real é fundamental para qualquer produção textual, pois dá sentido a ela", comenta Denise Guilherme, formadora de professores, idealizadora do site Leitura em Rede e selecionadora de Língua Portuguesa do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10.

Depois de apresentar a proposta e levantar o que a turma sabia sobre os oito felinos brasileiros - gato-palheiro, gato-maracajá, gato- -mourisco, gato-do-mato-pequeno, gato-do-mato- grande, suçuarana, jaguatirica e onça (pintada e negra) -, a educadora distribuiu aos alunos um caderno de projetos, material elaborado por ela com as etapas que seriam desenvolvidas e textos de referência sobre os animais. "Compartilhar o planejamento com os alunos possibilita que eles se antecipem. Se sabem que vão estudar a suçuarana, por exemplo, podem pesquisar antes ou perguntar para os pais sobre ela e levar esse conhecimento à aula, contribuindo mais com o projeto", diz Cristiane.

Ilustração Alunos da EM Doutor Sadalla Amin Ghanem

A turma deu início, em duplas, a uma série de leituras focalizadas. A cada aula, era lido um texto sobre um dos animais estudados e realizada uma tarefa específica, como listar as palavras desconhecidas, grifar aquelas de que já dominavam o sentido, registrar as de mesmo significado e levantar os termos que apareciam em todos os textos. Tudo era socializado em sala para que os conhecimentos de um sanassem as dúvidas dos outros, até completar o estudo dos felinos brasileiros. Além de aprimorar estratégias leitoras, como fazer inferência sobre a definição de uma palavra pelo contexto em que ela aparece, essa etapa aproximou os estudantes das características dos textos informativos.

Em seguida, cada uma das duas turmas de Rosiane elegeu um felino para trabalhar e ambas começaram o processo de construção coletiva do texto sobre ele. Primeiro, voltaram às fontes lidas para buscar informações. A docente também criou um cantinho na sala com livros e revistas selecionados da biblioteca e trazidos de casa pelos alunos para que todos pudessem consultar.

Após coletarem os dados, eles preencheram uma ficha técnica com as características do animal, como hábitat, alimentação, coloração, peso e tempo de vida. O material serviu de planejamento para o texto a ser escrito. Usando um computador ligado a um aparelho projetor, Rosiane digitava o que era ditado pelos estudantes, sempre perguntando se todos concordavam com a informação e se tinham outras sugestões.

Com a primeira versão do verbete finalizada, teve início a etapa de revisão. Cópias do material foram distribuídas às crianças, que, em duplas, tinham de lê-lo e anotar suas observações, como problemas de coerência e coesão. "Que sorte a gente ter aprendido pontuação agora! Assim podemos arrumar nosso texto", disseram à professora os alunos, que ficaram espantados ao se depararem com os equívocos cometidos na versão inicial, escrita antes que tivessem trabalhado esse conteúdo. A sequência didática sobre o tema foi realizada propositalmente pela docente para coincidir com essa atividade do projeto. Novamente como escriba, ela projetou o texto no quadro e fez as mudanças sugeridas pela garotada diretamente no computador.

Discussão que leva à reflexão

Ilustração Alunos da EM Doutor Sadalla Amin Ghanem

"É melhor trocar kg por quilograma, porque as crianças pequenas que lerem o livro podem não entender", sugeriu Camilly Emanuele de França, 9 anos. "Todos concordam?", indagou a professora. "Nós achamos melhor não mudar, pois assim mostramos que existem duas formas de escrever", argumentou Beatriz Vieira Rojo, 9 anos, de outra dupla. Discussões como essa permearam todo processo de revisão, que ainda contou com uma outra fase. A classe da manhã leu a versão feita pela da tarde e vice-versa, e deu ideias para aprimorar o texto. Na aula seguinte, a turma autora podia concordar com as sugestões ou discordar delas, defendendo suas escolhas. "A docente dá espaço para que as crianças compartilhem com ela a responsabilidade pela construção do saber", diz Denise.

Na segunda parte do projeto, foi a vez de cada dupla de alunos escolher um felino para escrever a respeito, de maneira autônoma. As mesmas etapas de pesquisa, planejamento, escrita, revisão e reescrita foram realizadas. "Fazer a atividade primeiro coletivamente, com a professora como modelo, para depois as crianças ganharem autonomia é essencial para que elas aprendam os procedimentos", ressalta Denise. "Além disso, o trabalho coletivo favorece a interação e a troca de conhecimentos", completa Cristiane.

As versões finais produzidas pelas crianças compõem a obra sobre os animais, ilustrada por elas. Delia Lerner diz, no livro Ler e Escrever na Escola: o Real, o Possível e o Necessário (128 págs., Ed. Penso, tel. 0800-703-3444, 46 reais), que a escrita "obriga quem a exerce a ter constantemente presente o ponto de vista dos outros, dos futuros leitores. Planejar, textualizar, revisar mais de uma vez... são os grandes comportamentos do escritor". Condutas adotadas pela garotada, que realizou com propriedade a função de autor.

1 Leitura focalizada Diga aos alunos que eles escreverão um livro informativo sobre os felinos brasileiros. Selecione textos sobre o tema em fontes confiáveis e peça que leiam em duplas, atentando para os dados e a linguagem. Os registros devem ser compartilhados em sala.

2 Produção textual Eleja com as crianças um felino para estudar coletivamente. Peça que retomem as leituras sobre ele e preencham uma ficha técnica com os dados que estarão no texto a ser produzido. Atuando como escriba, escreva no quadro ou no computador o texto ditado por elas.

3 Etapas de revisão Distribua cópias do texto coletivo para que as duplas apontem a falta de informações e revisem problemas de escrita. Peça que socializem as observações e justifiquem as escolhas. De novo como escriba, faça as mudanças sugeridas. Troque as produções entre as duplas.

4 Produção final do livro Proponha que cada dupla escolha um felino para a produção de um texto informativo sobre ele, passando pelas etapas de planejamento, escrita e revisão, como feito anteriormente. Para a confecção do livro, peça que façam desenhos de observação dos animais estudados, com base nos materiais científicos lidos.

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