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As particularidades das escritas silábico-alfabéticas

A evolução da escrita silábico-alfabética para a alfabética é repleta de especificidades. Conhecê-las é fundamental para avaliar adequadamente o desenvolvimento dos alunos e melhor ajudá-los a avançar

por:
PT
Paula Takada
Abril de 2012
Saber a teoria para ensinar bem. Foto: Danny Yin
Danielle selecionou dois pares de nomes de animais que começam com C e terminam com a mesma letra. Dessa forma, leva o aluno a buscar outro índice gráfico que não só a letra inicial e a final.

Imagine-se numa sala de concertos, apreciando uma orquestra, com violinos, trombones, violoncelos e flautas, entre outros instrumentos. Você seria capaz de distinguir entre os sons produzidos pelos de sopro e os de corda? A maioria dos leigos em música considera isso difícil. Da mesma forma, identificar os sons que compõem uma sílaba é uma tarefa complexa para os alunos que estão na transição da hipótese de escrita silábica para a silábico-alfabética. Essa analogia foi feita pela psicolinguista argentina Emilia Ferreiro, que sintetizou as conclusões a que chegaram pesquisadores por ela orientados no recente artigo A Desestabilização das Escritas Silábicas: Alternâncias e Desordem com Pertinência.

Análises de escritas de crianças como Maria, 5 anos, foram a base da pesquisa da argentina Claudia Molinari. Desafiada a escrever sopa, a menina produz primeiramente uma escrita silábica: OA. Insatisfeita com a quantidade de letras - já que nessa fase a maioria das crianças acredita que sejam necessárias no mínimo três para garantir uma escrita legível -, ela acrescenta SP. O resultado final é OASP. "Todas as letras da palavra estão ali, mas em desordem (...). O que Maria produz são duas escritas silábicas justapostas", pontua Emilia.

Em outra etapa do estudo, ela observou crianças realizando a tarefa de escrever consecutivamente uma mesma lista, primeiramente com lápis e papel e, em seguida, no computador. Focou a análise, portanto, em pares de palavras, o que evidenciou produções intrigantes, como as de Santiago, 5 anos. No caderno, ele representa soda como SA e na tela como OD. Salame vira SAM no papel e ALE na tela. Apesar de conhecer todas as letras de soda e de salame, ele não as coloca juntas. O fenômeno, explica Emilia, é chamado de alternâncias grafofônicas.

Soluções curiosas como a de Maria e Santiago já haviam sido observadas pela pesquisadora mexicana Graciela Quinteros. Ela notou que crianças com hipótese silábica usavam algumas letras com três funções específicas - não correspondentes ao som da sílaba propriamente dito: 

- Recheio gráfico Para separar vogais iguais ou preencher um espaço dentro da palavra ou no fim dela.

A    P A E    A 
á               gua

AM     OA
ma      çã 

- Curinga Como substituta de uma sílaba ou de uma consoante que a criança não sabe grafar. A mesma letra aparece como curinga em várias palavras. 

O   MA    B 
to   ma   te

AB    CI
ca    qui 

- Nome da sílaba Para escrever uma sílaba inteira. É comum o uso do K para CA e do H para GA. 

BI    H     D   RO 
bri  ga  dei   ro 

K   SA
ca  sa

Alternâncias grafofônicas, escritas silábicas justapostas, uso de letras como recheio gráfico, curinga e substitutas de uma sílaba. As sofisticadas soluções são usadas pelos que estão saindo da hipótese silábica com valor sonoro convencional e construindo uma silábico-alfabética. A informação tem grande valor para o trabalho de professores como Danielle Araujo, da EMEF Madalena Caltabiano Salum Benjamim, em Pindamonhangaba, a 146 quilômetros de São Paulo, e da EMEF Professor Ernani Giannico, em Tremembé, a 135 quilômetros da capital paulista.

Para não confundir esses avanços com retrocessos, ela procura fazer avaliações criteriosas. Esse é um ponto crucial, já que aparentemente a escrita dos silábicos é mais estável e fácil de interpretar, diferentemente da dos silábico-alfabéticos. "Quando estudei o artigo da Emilia sobre desordem e alternâncias, passei a ver coisas que antes não via." Para conseguir enxergar e distinguir as peculiaridades dos silábicos-alfabéticos, Danielle se vale das sondagens individuais.

Ao identificar que o estudante está nessa fase intermediária entre a hipótese silábica e a conquista da base alfabética, como fazê-lo avançar? "É preciso criar situações didáticas que favoreçam a reflexão sobre o sistema alfabético de escrita, levando-o a analisar o interior das sílabas", explica. Isso é útil quando ele se depara com palavras que começam e terminam com a mesma letra. Para identificar a que procura, a criança tem de analisar as letras do meio. O trabalho de Danielle se desdobra com Laiane de Oliveira, do 4º ano, que tem deficiência intelectual. Para que ela aprenda a ler e escrever, a professora flexibiliza as atividades (leia o quadro na próxima página).

Os erros mais comuns

- Perguntar à criança "que letra está faltando?". Se ela soubesse, já teria colocado. O melhor é pedir que leia o que escreveu para que ela mesma decida por alguma alteração. 

- Pedir que o aluno ouça o som da sílaba. O problema não é de audição, mas de concepção de escrita. Daí a importância de compreender como ele está pensando. 

- Não orientar os estudantes por achar que eles devem construir a escrita sozinhos. É preciso oferecer a todos informações sobre a grafia das palavras, além de sugerir a eles fontes escritas e a troca com os colegas.

Desafios precisam gerar conflitos

Saber a teoria para ensinar bem. Fotos Paulo Vitale
As atividades propostas por Cassiana dão pistas de como os estudantes estão pensando. Isso é importante para fazer boas intervenções e ajudá-los no processo de compreensão da base alfabética da escrita.

Uma situação didática adequada a essa fase é a escrita de listas de palavras dissílabas com letras móveis por duplas de alunos com hipóteses próximas. Por que dissílabos? Eles apresentam um bom problema para quem já escreve segundo a hipótese silábica com valor sonoro convencional, seja com vogais, seja com consoantes pertinentes. Isso porque elas geram um conflito entre os critérios de legibilidade que a garotada possui nesse momento, levando em conta dois eixos de análise: um qualitativo (cada sílaba deve ser grafada com uma letra, em geral, a vogal) e outro quantitativo (não é possível escrever e ler uma palavra que seja formada por apenas duas letras). "Na crise que se forma entre a exigência de quantidade mínima e as letras que a criança pensa serem adequadas para escrever, ela começa a estender a escrita, colocando mais elementos", esclarece Telma Weisz, responsável pela supervisão e implementação pedagógica do Programa Ler e Escrever no estado de São Paulo.

Cassiana Wasilewski estudou a fundo esse momento em sua monografia de especialização na área, orientada por Telma. Professora da EMEF Maestro Domingos Blasco, em Osasco, região metropolitana de São Paulo, ela incentiva sua turma a escrever com letras móveis em duplas ou em pequenos grupos - quando a troca é enriquecedora. "Todos já estão acostumados. Enquanto trabalham, circulo pela sala, solicitando que justifiquem as letras usadas."

No caso dos silábico-alfabéticos, Cassiana aponta que é necessário intervir considerando a possibilidade de estar diante de um caso de alternância grafofônica. Um exemplo é uma criança que escreve gato colocando GTAO. "Peço que leia o que escreveu para mim. A tendência é que ela faça uma leitura silábica, considerando apenas o G e o O. Então, pergunto: ?O que está escrito aqui??, apontando para as outras letras. Nesse momento, ela quer tirá-las, mas reforço que também são boas para escrever gato." Assim, ao responderem a perguntas como essas, os pequenos vão refletindo sobre o sistema alfabético para chegar à escrita convencional.

Escritas no computador

Aluna da EMEF Professor Ernani Giannico, em Tremembé, Laiane de Oliveira, 9 anos, tem paralisia cerebral e, apesar de estar no 4º ano, possui uma hipótese silábico-alfabética de escrita. Para garantir que ela se alfabetize, a professora Danielle Araujo planeja variações das mesmas atividades realizadas com a turma considerando as possibilidades e os limites da menina.

Em todas as salas da escola em que estuda um aluno com deficiência, há um computador, que a professora utiliza com Laiane diariamente. "O tempo dela é diferente porque se cansa muito mais rápido que os colegas. Por isso, preciso alternar as atividades, e o computador é sempre uma opção interessante."

Com o uso do teclado, Danielle contorna a dificuldade motora de Laiane, que consegue expressar suas hipóteses de escritas com mais clareza, como na lista de compras da feira (veja a foto abaixo).

Escritas no computador. Foto: Danny Yin
Danielle libera Laiane da grafia de próprio punho, possibilitando a ela o uso do computador. Dessa forma, a professora permite que a aluna, que tem paralisia cerebral, se concentre nas questões conceituais da escrita.

Danielle chama a atenção para o uso da letra L (inicial do nome da aluna) para substituir fonemas que Laiane não sabe representar, exercendo a função de curinga de consoantes nas escritas de tomate e figo. "Muitos a consideram uma criança alfabética que come letras ou faz trocas fonêmicas ou simplesmente alfabética inicial. Na realidade, ela é silábica em evolução", avalia.

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