Gestão escolar: Como fazer o acolhimento do professor no retorno às aulas presenciais

Receber o corpo docente de forma sensível e empática é essencial para o bem-estar da equipe e dos estudantes

POR:
Aline Naomi
Crédito: Getty Images

Após mais de um ano de forma remota, muitas escolas se preparam para o retorno presencial das aulas. Acolher os alunos e as famílias será fundamental, mas também a equipe docente que voltam com inseguranças e receios. Dessa forma, fica o questionamento: como os gestores podem apoiar os professores para que eles consigam, consequentemente, auxiliar seus alunos?

Para Ana Flávia Castanho, coordenadora pedagógica da Vivescer, plataforma de apoio socioemocional do Instituto Península, não é possível retornar fingindo que nada aconteceu. É preciso falar sobre a pandemia. “Não é como antes [da pandemia], mas também não significa que tivemos só perdas. Podem ter ganhos se conseguirmos criar na escola espaços de conversa, de acolhimento e de construção conjunta”, explica.

Ana Flávia observa que, durante o ensino remoto, houve uma desconexão das relações escolares, causada não só pelo distanciamento social, mas também pelas dificuldades de acesso dos alunos em situações mais vulneráveis. O trabalho de reconexão, portanto, é fundamental para o professor.

Curso gratuito: Acolhimento e segurança no retorno às aulas

Entenda como os gestores podem se planejar para garantir o acolhimento emocional; a busca ativa (encontrar maneiras de trazer os alunos de volta à escola também é acolher); a organização para um retorno seguro, com todos os protocolos de higiene e saúde, e a garantia da aprendizagem.


Acolhimento na prática
Mônica Felismino, diretora na Escola Municipal Florisa Faustino Pinto, em Mogi das Cruzes (SP), e sua equipe se reuniram com os professores antes da retomada gradual dos alunos. Mas, em vez de discutirem questões pedagógicas, perguntaram qual era o medo de cada um. 

Algumas respostas dos educadores não estavam no radar da equipe gestora. Por exemplo, uma das inseguranças compartilhada foi o da contaminação do material didático. Diante disso, a equipe ouviu e propôs uma solução: se ter álcool em gel na sala, ele se sentiria mais seguro. “Esse foi um exercício muito importante, porque começamos a entender o ponto de vista do professor”, conta Mônica.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Profª Nilva Dalbello de Lima, em Novo Horizonte (SP), a diretora Patrícia Martinelli conta que o trabalho coletivo sempre aconteceu, mesmo no online. Agora, com o retorno às aulas presenciais, o acolhimento foi essencial. “Estamos vindo de meses difíceis em que os educadores tiveram que desenvolver novas habilidades. Sem contar que cada professor e funcionário da escola têm a vida pessoal, então temos que cuidar muito bem dessa parte”, conta a educadora.

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Patrícia e sua equipe buscaram enfatizar duas mensagens importantes. A primeira é a de que tudo é muito novo e, por isso, vão haver mais erros do que acertos – e que está tudo bem, basta buscar alternativas. A segunda é a de valorizar as pequenas conquistas. "Trabalhamos muito isso com os professores para que possamos nos frustramos menos”, explica.

Mesmo com as ações coletivas, Patrícia enfatiza a importância de a equipe gestora ficar sensível e atento a cada professor. Isto é, saber observar, ouvir e identificar os sinais de quando as coisas não estão bem. “São os detalhes mesmo, porque alguns educadores não vão falar para você [que estão mal], mas no dia a dia dá para perceber que algo não está legal. Então, no particular deve tenta trabalhar com ele, criar uma estratégia”, diz a diretora.

Mônica também ressalta que organizar a escola para o contexto híbrido faz parte do acolhimento. Assim, o professor se sente mais amparado para planejar suas ações. “Aqui temos revezamento. Então, se uma criança vai pela primeira vez à escola na segunda-feira, o professor precisa saber, pelo menos, na quarta-feira que aquele aluno estará lá”, explica. Ao dar visibilidade e antecipar o que vai acontecer, os professores se sentem mais confiantes sobre o funcionamento do contexto híbrido.

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O Instituto Península construiu uma cartilha com orientações de acolhimento para professores voltada aos gestores escolares. Nela, há sugestões de práticas, dinâmicas e ações para as equipes gestoras. “Estamos vivendo uma época muito delicada e acreditamos muito que ela pode ser uma situação rica para reafirmarmos a escola como um lugar de acolhimento, escuta e construção conjunta”, comenta Ana Flávia.

Ainda que haja uma série de ações que podem ser colocadas em prática, Mônica ressalta que o acolhimento não se resume a uma dinâmica pontual feita no início da retomada. Ele deve ser um processo de contínuo da gestão escolar enquanto os professores sentirem necessidade. “Se você acompanha bem o seu professor, se ele se sente acolhido durante todo ano letivo, ele fica bem e o aluno também”, completa.

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O acolhimento pode acontecer de diferentes formas em cada escola, mas é importante ficar atento a alguns aspectos. Por isso, reunimos as principais dicas dadas por Ana Flávia, Mônica e Patrícia para tornar a escola um ambiente seguro não só para a retomada, mas também para o restante do ano letivo. Confira:

  1. Promova um momento de reflexão
    Em um primeiro momento, pense como a equipe da escola está voltando para essas aulas presenciais, como é possível fortalecê-la para acolher bem os alunos e quais os apoios que os educadores e alunos necessitam.
  2. Faça uma escuta atenta para entender as demandas
    “Às vezes, você vai conversar e, sem perceber, ele está te dando uma estratégia”, indica Patrícia. Depois da escuta, dê uma devolutiva em relação ao que conversaram. “Isso é fundamental. Valoriza a equipe e ela entende que você está preocupada”, acrescenta Mônica.
  3. Pergunte aos professores como eles estão
    Mônica comenta que a equipe escolar, semanalmente, pergunta a cada professor como ele está se sentindo, de 0 a 10, e os educadores têm achado a interação positiva. “Vamos descobrindo coisas que, se não perguntamos, não sabemos”, explica a diretora. “A escola é um espaço especial. As questões individuais entram porque precisamos nos fortalecer para trabalhar juntos”, complementa Ana Flávia.
  4. Construa um objetivo comum para todos
    Para Mônica, é importante ressignificar o espaço escolar e trabalhar conjuntamente para um objetivo que não seja a pandemia. Por exemplo, ao diagnosticar que muitos alunos estão com lacunas na leitura, é possível propor um projeto literário. “Construa um projeto, ou ação em que todos possam achar o seu espaço dentro do objetivo comum”, propõe a educadora.
  5. Busque apoio de outros gestores
    Da mesma forma que muitos professores trocaram práticas pedagógicas uns com os outros durante o ensino remoto, os gestores escolares podem fazer trocas entre pares. Converse com outros gestores que conheça para saber o que tem funcionado nas em outras escolas. “A visão de um colega pode complementar sua decisão”, comenta Patrícia.

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