Alfabetização: 9 dicas para o trabalho com ditados em sala de aula

Atividades envolvendo essa prática podem trazer muita reflexão e aprendizagem, ajudando a promover a compreensão e a escrita das palavras de maneira alfabética

POR:
Mara Mansani
Crédito: Getty Images

Na minha época de estudante, no antigo primário, o ditado de escrita de palavras era uma prática recorrente. Quem se alfabetizou nessa mesma época deve se lembrar bem: a proposta e a intenção dessa atividade era que escrevêssemos corretamente as palavras, em relação a ortografia e gramática.

Na maioria das vezes, as palavras escolhidas para serem ditadas não eram necessariamente do mesmo campo semântico; sequer havia um contexto ou uma situação que preparasse para a escrita – a ideia era aprender a escrever as palavras de acordo com a ordem do alfabeto, seguindo a delimitação que vinha nas cartilhas. Assim, a ordem era: primeiro somente palavras formadas por vogais; depois, aquelas iniciadas por consoantes, como as palavras iniciadas pela letra B, depois pela letra C, e assim por diante, até chegar às palavras com as chamadas sílabas complexas, de maior dificuldade ortográfica.

Nesse contexto, eu me lembro que escrever consistia em uma situação tensa: as crianças tinham medo de errar, e a professora estava sempre a postos com a caneta vermelha, pronta para marcar as palavras erradas. Havia também a orientação para escrever várias vezes a palavra na forma correta; às vezes, precisávamos escrever uma folha de caderno inteira! 

Tudo isso ocorria nas salas de aula porque se acreditava que, com o exercício repetitivo de escrever a mesma palavra constantemente, os alunos fixariam a forma correta da escrita. Felizmente, ao longo dos anos, com nosso entendimento sobre o processo de aprendizagem da língua escrita, esse tipo de atividade foi sendo deixado de lado, principalmente por se basear tão somente no exercício de fixação, sem exigir muita reflexão por parte do aluno.


No entanto, a prática do ditado, se for recorrente e realizada com o devido planejamento, pode ser aplicada nos dias de hoje com as nossas turmas! Só é preciso ter em mente que a intenção pedagógica agora é outra: refletir sobre o sistema de escrita alfabética e caminhar rumo à alfabetização. Isso não quer dizer que nós não vamos levar em consideração a escrita ortográfica – e sim, que ela não é o foco principal nesse momento.

A seguir, selecionei algumas sugestões para um trabalho efetivo envolvendo ditados, sempre tendo como objetivo a reflexão e a aprendizagem das crianças, de forma a promover a compreensão e a escrita das palavras de maneira alfabética. Confira!

9 dicas para o trabalho com ditados na alfabetização 

  • Crie um contexto para iniciar o ditado com as crianças, como por exemplo: “Vamos fazer uma lista de compras com nomes de materiais escolares que usamos na escola. Eu vou ditar um a um, e vocês vão escrevendo no caderno”. Ou ainda, desenvolva atividades na linha: “O que Chapeuzinho levou na cestinha para a vovó?”, “Lista de nomes dos amigos para organizar um passeio”... As opções são infinitas! 
  • Para facilitar e organizar o seu planejamento, faça uma lista de situações e palavras que você pode usar nos ditados, sempre trabalhando com palavras do mesmo campo semântico. Por exemplo: “nomes de frutas da feira”; “brinquedos que irão para a doação”; “alimentos saudáveis”; “nomes dos familiares”; “cidades próximas de onde moramos”; “convidados para uma apresentação na escola” e etc; 
  • Na hora de ditar, não fale as palavras silabando, e sim, procure falar de maneira que os alunos entendam claramente a palavra ditada. Se necessário, repita a palavra;

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  • Nunca se esqueça: nesse formato de ditado, não existe palavra ”errada”! A proposta é justamente construir juntos a escrita alfabética da palavra. Então, analise a escrita do aluno e explore ao máximo a participação de todas as crianças da sala; 
  • Uma boa opção é, depois de todas concluírem a escrita no caderno, convidá-las uma a uma para escreverem a palavra na lousa, de acordo com a hipótese de escrita em que cada uma se encontra – e se preciso, a escrita pode ser modificada com ajustes de outro aluno e com as intervenções pedagógicas do professor; 
  • Inclua o ditado como atividade permanente em sua rotina em sala de aula. Sugiro, pelo menos, que seja uma atividade realizada de duas a três vezes por semana, mas você pode organizar de acordo com a sua rotina de escrita e leitura; 
  • Nas intervenções, traga perguntas que façam com que o aluno reflita sobre a palavra a ser escrita. Por exemplo: dite a palavra, e em seguida pergunte com que letra começa, com qual termina, que nomes da turma se iniciam com essa letra, quais outras palavras se iniciam com mesma inicial da palavra ditada, entre muitos outros questionamentos possíveis; 
  • Disponibilize para a escrita materiais referências, como alfabeto de parede ou móvel, lista com os nomes dos alunos, e tudo o mais que possibilite que eles façam uma consulta para escrever a palavra ditada. A proposta é apoiar, e não dificultar a escrita – de forma que todos possam estabelecer relações entre as palavras; 
  • Por fim, a cada palavra escrita, explore com eles os sons, relacionando o falado ao escrito. Você pode também deixar as palavras impressas disponíveis previamente, para que assim, a cada escrita e consolidação da escrita, um aluno afixe o material impresso na lousa, e leia apontando cada uma das partes da palavra. 

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Essas são as minhas sugestões para o trabalho com ditados na alfabetização, mas é válido ressaltar que a prática pode ser realizada com todos os anos do Ensino Fundamental 1. Para os alunos maiores, o foco principal pode ser a questão ortográfica e gramatical; além disso, alguns grupos de palavras de mais uso no dia a dia (como “também” e “assim”), após serem explorados e consolidados nos ditados, podem ir para um quadro de palavras da turma.

Por último, se você tem uma proposta diferente para o uso do ditado na alfabetização, compartilhe comigo e com os outros professores aqui nos comentários!

Um abraço e até a próxima!

Mara Mansani

Mara Mansani é professora há 34 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga 

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