Como trabalhar o folclore no contexto remoto ou híbrido

Confira caminhos possíveis para abordar a cultura popular da Educação Infantil aos Anos Finais do Ensino Fundamental

POR:
Ingrid Yurie
Crédito: Getty Images

No mês de agosto, em função do Dia do Folclore, o Saci-Pererê, a Mula Sem Cabeça e outros personagens icônicos do folclore brasileiro costumam povoar as escolas com suas lendas e imagens. Embora esse recorte da nossa cultura popular tradicional seja relevante e cative a curiosidade dos estudantes, é possível ir além e oferecer às crianças e adolescentes novas experiências com o tema em diferentes áreas do conhecimento durante todo o ano.

Isso porque o folclore é um conjunto de saberes e expressões. Envolve as nossas histórias, as músicas, danças e outras formas de arte, as comidas típicas, as brincadeiras e tudo aquilo que é de domínio coletivo e que vai se perpetuando ao longo do tempo. Trata-se, portanto, do cerne de nossa cultura popular. “Tem a ver com entender de onde viemos, qual é o nosso modo de ser e estar no mundo, quais influências recebemos e como nossos antepassados resolveram algumas questões. Faz parte de nos entendermos como cidadãos brasileiros e é uma ferramenta potente para refletir e dar sentido ao que está acontecendo na atualidade. Por isso, o tema deve atravessar toda a formação dos estudantes”, explica Januária Cristina Alves, educomunicadora, consultora em Educação e Cultura e autora do livro Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro (FTD Educação e Edições Sesc São Paulo). 

Para trabalhar folclore na escola

Para levar a temática para a sala de aula, os professores devem considerar as várias dimensões dessa cultura popular, suas possibilidades e refletir a forma de relacionar o folclore com as diferentes áreas do conhecimento. Nesse processo, vale olhar para a sua região, a realidade e os interesses dos estudantes para encontrar formas de ter um trabalho significativo e contextualizado o ano todo. “O folclore, quando distante, pode acabar virando uma coisa do outro, quando é de todos nós. É preciso o apresentar da forma que está no dia a dia, no jeito que as crianças brincam, no que comem”, diz Beatriz Gimenes, arte-educadora e pesquisadora da cultura popular brasileira e da cultura da infância.  Por isso, é importante evidenciar que o folclore não trata apenas do passado, mas que se conecta às narrativas e experiências cotidianas dos alunos.

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Esse trabalho é também uma forma de valorizar a diversidade e os diferentes povos que dão origem e influenciam o folclore brasileiro, sobretudo os negros e indígenas. “Ainda há muitos preconceitos em relação aos povos que sempre foram tidos como incultos, como se a única cultura que tivesse valor fosse a erudita”, aponta Januária.

Os estudantes terão a oportunidade de compreender que são atores fundamentais para manter a nossa cultura popular viva, por exemplo, quando criam ou ensinam uma brincadeira a um irmão mais novo. Mais do que isso, podem se reconhecer como produtores de cultura, como no caso de recontar e reeditar uma lenda com seu toque único e pessoal. Por isso é fundamental que a abordagem do tema ofereça oportunidades à imaginação e criação, preferencialmente partindo do que há de mais regional antes de explorar o folclore pelo Brasil e o mundo afora.

Ideias para trabalhar o folclore no ensino remoto e no semipresencial

Neste segundo semestre de 2021, os educadores têm o desafio de trabalhar a cultura popular, suas relações e vivências, no contexto remoto ou híbrido – a depender da realidade da rede. “O folclore depende de muito olho no olho, do envolvimento do contador de histórias, das pessoas estarem juntas em roda, porque na tradição era assim. Mas isso não quer dizer que o professor não possa usar sua criatividade e incluir uma tela no meio ou aproveitar a presença da família ao lado da criança para proporcionar uma experiência”, orienta Januária. 

Confira algumas sugestões de atividades que podem ser trabalhadas da Educação Infantil aos Anos Finais do Fundamental no ensino remoto e semipresencial:

Educação Infantil

Para as crianças é possível propor que desenhem criaturas do folclore brasileiro pouco conhecidas partindo unicamente de seus nomes. Essa foi uma a prática desenvolvida pela professora Idalina Lourenço, da rede particular de São Paulo (SP).

A educadora fez uma seleção dos personagens, revelou apenas o nome como, por exemplo, o Bicho de Palha, e deixou que elas desenhem imaginando a aparência. Depois, as crianças compartilham em roda suas produções e interpretações e, finalmente, ouviram a história. Na atividade, a professora utilizou o Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro para mostrar, no mapa do Brasil, onde cada história se originava. O professor pode procurar essas informações em fontes confiáveis e compartilhar com as crianças.  

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Os vários desenhos elaborados pelas crianças deram origem a um livro da turma com as ilustrações das lendas. “Nesse trabalho, muitas histórias assustaram as crianças, mas esse medo é saudável. Em roda, conversamos sobre o que eles podem fazer para se sentir menos desconfortáveis e eles compartilharam entre si algumas dicas, como pedir um abraço", conta Idalina.

Para adaptar ao formato remoto, é possível pedir que as crianças façam os desenhos junto com suas famílias. No momento presencial ou em um encontro virtual síncrono, as crianças poderiam expor as produções e promover um momento de trocas entre a turma. “A leitura traz informações escondidas que instigam a nossa imaginação e ajudam a fugir de padronizações. Ao compartilhar essas interpretações, as crianças veem que não tem certo e errado nisso”, diz a educadora.

Anos Inicias do Fundamental 

Para os Anos Iniciais, é possível propor que as crianças ouçam, contem e recontem lendas a partir de entrevistas com pessoas da família. “O folclore é um elemento que agrega as gerações, porque toda família tem pelo menos um integrante que conhece lendas e histórias regionais”, afirma Januária.

Dessa forma, uma sugestão de atividade é convidar as crianças a entrevistarem as pessoas mais velhas de suas famílias para estimular a tradição oral e as trocas entre as gerações para descobrir, por exemplo, qual é a versão da história que cada um conhece e como foi que tiveram acesso a essa narrativa.

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A proposta desse curso é contribuir para a ampliação do repertório de canções e brincadeiras da tradição oral brasileira e sensibilizar os educadores a expandir os valores da nossa cultura por meio de práticas criativas e reflexivas.


Depois das conversas, os alunos podem juntar tudo que ouviram e criar suas próprias versões das histórias. Sendo possível, por exemplo, inserir os personagens em um novo contexto ou mudar algum detalhe da lenda e o que a criatividade delas permitir. “Qualquer história, mesmo que esteja registrada em um livro, quando é recontada perde algo do original, mas ganha outra”, diz a educadora.

Para finalizar, a turma pode compartilhar, de forma oral, suas criações com os colegas. Outra possibilidade é que os alunos criem seus próprios livros de lendas com as histórias escritas. Na adaptação ao ensino remoto ou semipresencial, vale privilegiar os momentos síncronos ou presenciais para as trocas entre as crianças.

Anos Finais do Fundamental

Rosângela Teixeira, professora na escola Escola Estadual Waldemar Araújo, em Corinto (MG), escolheu abordar o folclore a partir da cultura do município, que todo ano realiza a tradicional festa da Folia de Reis. Os estudantes entrevistaram em vídeo o mestre da Folia, um dos músicos e a cozinheira responsável pelo alimento que é distribuído na comemoração. “Ninguém melhor do que eles para nos contar sobre o figurino, as máscaras, a história de como surgiu a Folia de Reis e por que se mantém viva até hoje", diz a educadora.

Folclore para adolescentes - e em diversos componentes curriculares

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Os alunos também tiveram a oportunidade de experimentar a Folia. Com a participação dos músicos da festa, os alunos fizeram uma apresentação de Lundu, a dança da celebração. O resultado foi divulgado nas redes sociais e no jornal da escola.

Para adaptar aos protocolos de biossegurança durante a pandemia, as entrevistas foram feitas em espaços abertos, por um estudante acompanhado de um familiar, e a apresentação de dança, feita na escola, contou com a participação de apenas um estudante de cada turma. Para quem está apenas no remoto, é possível fazer essas conversas de forma virtual e gravar um passinho da dança em casa.

E na sua região, o que há de cultura popular para os estudantes explorarem?

Conheça 10 referências para o professor

Selecionamos boas referências para saber mais sobre cultura popular

1. Instituto Brincante

site tem informações e cursos de cultura popular. No canal do YouTube do Brincarte há diversos vídeos ensinando passos de danças populares.

2. Cidade Invisível. A série brasileira, disponível na Netflix, pode inspirar os professores a atualizarem as histórias e os personagens tradicionais do folclore.

3. Tião Rocha fala sobre folclore e cultura popular. Entrevista com o antropólogo, educador e folclorista mineiro sobre o que pode ser entendido por folclore e qual relação da escola com o tema.

4. Armazém do Folclore. O livro de Ricardo Azevedo traz contos, ditados, quadras, brincadeiras com palavras, adivinhas e outras manifestações da cultura do povo brasileiro.

5. Território do Brincar. Para conhecer mais sobre as culturas das infâncias, com filmes, livros e brincadeiras.

6. Por que não levar a cultura popular às crianças o ano inteiro? Conheça a experiência do professor Evandro Tortora de como levar o folclore para a Educação Infantil. 

7.  Histórias de boca: O conto tradicional na educação infantil. Cristiane Velasco, autora do livro, reflete sobre o conto tradicional, suas origens e características, e trata da figura do contador de histórias.

8. Juro que vi - Matinta Perera. Um desenho animado sobre essa bruxa do folclore brasileiro.

9. Contos Folclóricos Brasileiros. O livro foi elaborado a partir de uma pesquisa de campo realizada pelo estudioso da tradição oral, escritor e cordelista brasileiro Marco Haurélio.

10. Nove clichês sobre o folclore. Conheça os principais equívocos e suas explicações sobre algumas ideias em torno do folclore na reportagem de Nova Escola.