Retorno presencial na Educação Infantil: os caminhos e possibilidades relacionados à avaliação

A concepção de avaliação das crianças tem se desenvolvido muito nos últimos tempos – e a gradual retomada presencial às escolas pode nos dar algumas pistas sobre como construir boas ações avaliativas daqui por diante

POR:
Evandro Tortora
Crédito: Getty Images

Entre as muitas atividades que um professor executa em sua jornada de trabalho, a avaliação é, provavelmente, uma das mais conhecidas. Existem diversas concepções sobre o que é avaliar, principalmente quando estamos nos referindo às diferentes etapas da Educação Básica. Pensando especificamente na Educação Infantil, já é bastante difundida a ideia de que nessa etapa não aplicamos provas escritas como no Ensino Fundamental. Apesar disso, a avaliação também é um tópico importante para nós que trabalhamos com crianças.

Ao longo do tempo, o ato avaliativo tem adquirido novas significações com o avanço das pesquisas e contribuições dos docentes da Educação Infantil. As preocupações com o que avaliar nessa fase, a fim de evitar concepções que não condizem mais com as práticas pedagógicas atuais, têm extrema importância, e com a pandemia, esse debate que já era relevante se tornou ainda mais essencial.

Atualmente, no contexto em que um grande número de escolas do país se prepara para o retorno gradual às atividades presenciais, e muitas até já retornaram (como é o caso da minha), a avaliação, como tantas outras práticas, acaba adquirindo novos contornos. Tudo por conta das aprendizagens que as crianças obtiveram, e estão obtendo, em suas experiências ao longo desse complexo momento pelo qual o mundo todo está passando.

Assim, a partir da minha própria vivência de retomada recente ao trabalho presencial com as crianças, depois de uma longa fase remota, resolvi compartilhar aqui nessa coluna um pouco das minhas práticas relacionadas à avaliação durante esse período.

A escola após a pandemia: como conduzir o retorno às aulas

Esse curso exclusivo procura responder questões como: quais propostas priorizar no gradual retorno presencial, levando em conta a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)? Como acolher os estudantes e famílias? E de que forma envolver o grupo de professores para fortalecer a escola? 


O desafio de avaliar as experiências das crianças em tempos pandêmicos

Confesso que, no período remoto, foi um tanto quanto difícil tentar exercer uma escuta ativa com as crianças, e avaliar as interações. Era comum que, ao enviar os áudios para alguma criança perguntando como foi que se sentiram durante uma proposta enviada no grupo de WhatsApp, a resposta enviada viesse acompanhada de algumas orientações dadas pelas famílias.

Por exemplo, quando perguntei a uma criança se ela tinha gostado de uma história contada anteriormente por mim, a criança respondeu por áudio que sim, havia gostado – porém, ao fundo do áudio, era possível ouvir um adulto dando instruções de como ela deveria responder. Perceba que essa não é a voz da criança! Esse caso que eu trouxe ilustra bem como a busca pela escuta ativa das crianças ficou realmente prejudicada durante a fase de  atendimento remoto.

Com o retorno gradual às atividades presenciais aqui na escola em que eu trabalho, foi possível pensar em outras estratégias para ouvir as crianças em relação ao que estavam pensando sobre as vivências planejadas para elas nesse retorno – vivências que, vale ressaltar, estavam repletas de vários (e necessários) protocolos sanitários.

Desse modo, uma das estratégias que pensei foi proporcionar às crianças momentos de produção de narrativas para que eu pudesse avaliá-las. Resolvi contar aqui um pouco sobre o dia em que as crianças produziram um vídeo justamente sobre os protocolos contra a covid-19 que precisavam ser seguidos ao entrar na escola.

Foi assim: primeiramente, deixei um celular na mão de uma criança para filmagem, e depois pedi que as demais explicassem um pouco sobre quais diretrizes precisam ser seguidas durante sua estadia na escola. Foi interessante perceber que as crianças memorizaram sem problema todas as medidas sanitárias; porém, elas estavam lendo o mundo de uma maneira que me impressionou! 


Durante a atividade, ao passarem pelo local em que os brinquedos e outros objetos estavam guardados em locais inacessíveis (por conta dos protocolos), as crianças diziam que estavam proibidas de utilizar aqueles itens. Depois, dentro dos armários em que guardo os brinquedos de madeira, que também só poderão ser utilizados após o fim da pandemia, as crianças diziam que se tratava de um tesouro muito valioso que estava escondido naquele local, e que os itens não poderiam ser retirados de lá porque não pertenciam a elas.

Finalizada a produção desse vídeo, pude perceber que as crianças estavam interpretando alguns protocolos de uma maneira totalmente contrária àquela que eu penso que deveria acontecer. Afinal, não há objetos proibidos ou tesouros inacessíveis para as crianças dentro da escola – eu nunca disse isso! Mesmo assim, essa era a leitura que os pequenos estavam fazendo, porque observaram que, repentinamente, os seus brinquedos não estavam mais acessíveis no momento em que queriam brincar, passando a depender da autorização de um adulto para poder ter acesso a esses itens.

E o que tudo isso tem a ver com avaliação?

A avaliação é um ato constante, e não há um momento exclusivo voltado a isso – ela sempre acontece de forma frequente a partir da observação ativa das ações das crianças. Além disso, trata-se de um instrumento importante para o planejamento de ações, bem como para dar encaminhamentos para novas práticas com as crianças. Podemos dizer, então, que a avaliação e o planejamento do professor caminham de mãos dadas. 

Nessa perspectiva, percebam que a atividade envolvendo a produção do vídeo foi a melhor estratégia que eu encontrei para observar como as crianças estavam interpretando a realidade. Toda a prática se deu de maneira muito além de apenas observar se as crianças haviam entendido ou não do que se tratam os protocolos sanitários relacionados a essa retomada presencial.

Atividades de Educação Infantil: Planejamentos alinhados à BNCC

Nesse curso, você conhecerá experiências e indicações que ajudam a realizar um planejamento completo e alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), além de plenamente voltado aos interesses e à perspectiva das crianças que frequentam a Educação Infantil. 


Pelo meu relato, deu para perceber que, como sempre, os pequenos se mostraram muito inteligentes!  Aquelas ideias de que as crianças iriam trocar as máscaras entre si, que não iriam utilizar o álcool gel, que desrespeitariam as regras de compartilhamento de objetos, enfim, tudo isso não se mostrou real! Porém, pelos exemplos relacionados aos brinquedos guardados, foi possível perceber que agora as crianças possuem a visão de que dependem dos adultos para ter as suas vontades e necessidades atendidas. Trata-se de uma nova realidade, e as minhas próximas ações devem, portanto, estar centradas em dar condições para que as crianças ressignifiquem essas ideias.

Todo esse processo só aconteceu por conta da minha visão de avaliação que vai além de apenas pensar no final de um projeto; na verdade, acredito que avaliar consiste no ato de acompanhar a criança ao longo de todas as suas aprendizagens – especialmente nesse período de pandemia, que envolveu tantos desafios e ensinamentos para educadores e crianças.

E você, professora ou professor? Quais estratégias têm utilizado para avaliar as crianças nesse contexto de pandemia? Acredito que seja muito válido verificar quais são as interpretações das crianças frente a essas novas demandas que surgem por conta dos protocolos sanitários que precisam ser seguidos.

Por fim, gostaria de me despedir dos meus queridos leitores e leitoras que acompanham minha coluna aqui no site de Nova Escola, pois esse é o último texto que publico por aqui. Levo comigo todo o carinho e a gratidão pelas conversas que tivemos. O retorno que recebi de vocês professores e professoras nas redes sociais, para continuarmos com os debates sobre os importantes assuntos tratados aqui, foi muito especial, e sigo à disposição de todos!

Espero, de verdade, que as minhas palavras tenham trazido contribuições às suas práticas! Levo comigo cada gesto de carinho e as reflexões que me engrandeceram tanto na vida pessoal quanto na profissional.

 

Um abraço carinhoso e que a vida nos traga outros encontros!

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.