Apoio pedagógico: como a gestão escolar pode contribuir para a recuperação das aprendizagens

Seja no presencial ou no remoto, seja no período regular ou no contraturno, a estratégia é essencial para garantir o sucesso escolar dos alunos

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

A defasagem é uma bola de neve que os alunos vão carregando ao longo de toda a vida escolar. A cada ano, se nada for feito, ela vai aumentando. Se os professores não ajudarem o estudante a desfazê-la, esta pode arrastar o aluno ladeira abaixo e resultar em reprovação ou abandono escolar. Para superar essas dificuldades, surge na escola o trabalho de apoio pedagógico. Apesar de ser uma estratégia conhecida, foi uma prática que ganhou destaque durante a pandemia, quando muitos alunos foram prejudicados e tiveram suas aprendizagens comprometidas por conta dos desafios e das desigualdades de acesso ao ensino remoto.

Tradicionalmente conhecido em muitas redes como reforço escolar ou recuperação, o apoio pedagógico consiste em atividades oferecidas no contraturno a um grupo de alunos, para desenvolver aprendizagens que estão em defasagem. Rosaura Soligo, coordenadora de projetos no Instituto Abaporu e especialista em gestão escolar, explica que a mudança na nomenclatura está relacionada à concepção de aprendizagem. Antes, entendia-se que o aluno aprendia pela repetição, então as mesmas atividades ou propostas semelhantes eram repetidas no contraturno. Já o novo termo remete à busca de opções para fortalecer as aprendizagens. "É identificar os saberes que a criança tem para pensar em melhores propostas que se ajustam àquilo que ela precisa aprender", complementa.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Profª Helina Coutinho Lourenço, em São Paulo (SP), a professora Rosimeire Coutinho Alves é responsável pelo apoio pedagógico de turmas do 3º ao 9º ano. O foco das atividades é a consolidação da alfabetização em Língua Portuguesa e Matemática. Duas vezes por semana, os alunos que tiveram dificuldades nessas áreas na avaliação diagnóstica participam das atividades do Projeto de Apoio Pedagógico (PAP) da Secretaria Municipal de Educação.

Com o ensino remoto, a professora relata a dificuldade na adaptação do trabalho que fazia anteriormente. "O apoio pedagógico é muito presencial, próximo do aluno. Sem as turmas na escola, ficamos preocupados em como seria".

Rosimeire precisou, a partir das orientações e material fornecido pela rede, buscar novas estratégias para incentivar a participação dos alunos nas atividades de recuperação durante o ensino remoto. "Comecei a elaborar jogos no Word Wall e postava no Google Sala de Aula. Tive um bom feedback dos alunos", afirma a educadora. Os resultados foram observados por outros professores, que começaram a notar a melhora dos alunos que participavam do apoio no rendimento nas aulas regulares. O formato de jogo, com pontuação, chamou atenção dos estudantes, que foram compartilhando os links com os colegas e passaram a “competir” entre si. “Eles queriam estar em primeiro lugar no ranking, jogavam mais e aprendiam mais também”, conta a educadora.

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Com a retomada gradual das aulas, a professora voltou a atendê-los de forma presencial. Por conta do número de alunos, o revezamento não é necessário. A professora também tem trabalhado com jogos, como palavras cruzadas, quebra-cabeças, caça-palavras, dominó da subtração e jogos geométricos. "Conseguimos tirar a criança da rotina da sala de aula e ter um momento diferenciado", destaca a professora. Ela diz que há planos de trabalhar também de forma presencial com os jogos digitais. Já quem continua 100% de forma remota — que são poucos casos — ainda está trabalhando com os materiais disponibilizados pela professora e usando os jogos on-line. Aqueles que não têm acesso à internet retiram as atividades impressas na escola.

Fabiana Rizzi, coordenadora pedagógica da escola, conta que nos momentos de formação continuada dos professores há um trabalho de discutir as necessidades dos alunos, priorizar as habilidades a serem desenvolvidas e procurar embasamento teórico nos documentos de referência da rede para pensar as atividades propostas. “A professora Rosi foi além. Ela criou ferramentas que estimulam os alunos a participarem. Partiu de um documento da rede para criar os jogos. Toda a ação vai ao encontro de um trabalho desenvolvido no coletivo”, afirma a coordenadora.

Para Rosimeire, o apoio dos gestores é fundamental para o planejamento das atividades e para fornecer os materiais e recursos necessários. "Tem de estar ao lado e acreditar que vai dar certo", diz a professora. "Neste momento, recuperar as aprendizagens com  atividades significativas está valendo a pena, o trabalho que fazemos está sendo reconhecido", completa.

Apoio pedagógico que permanece remoto
Assim como na escola paulistana, os alunos de Ensino Médio da Escola Estadual Cônego Joaquim Monteiro, em Matias Barbosa (MG), participam, desde abril, de um programa de fortalecimento das aprendizagens criado pela Secretaria de Educação. Em agosto, foram incluídas também as turmas de Anos Finais.

Focado em Língua Portuguesa e Matemática, é destinado aos estudantes que tiveram progressão continuada em 2020, não alcançaram 60% na avaliação diagnóstica ou abandonaram os estudos em 2020 e retornaram neste ano. Especificamente para o 6º ano, também participam aqueles que ainda não têm a alfabetização consolidada. "A ideia é dar bagagem maior aos alunos para que não tenham atraso na aprendizagem do ano que cursam e, assim, melhorar o fluxo escolar", explica Leandro Dornellas, diretor da escola.

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Apesar da instituição já estar funcionando de forma híbrida, o apoio pedagógico, por enquanto, permanece no modelo remoto. "O acesso é pelo Google Sala de Aula, grupos de WhatsApp e via e-mail. Para aqueles que não têm acesso, encaminhamos o material impresso", salienta o diretor. A equipe também já está planejando o atendimento presencial.

Segundo o diretor, os efeitos do trabalho já estão sendo sentidos. Os alunos  perceberam que estão com bons resultados. “Estamos com mais devolutivas [e participação] do que no ano passado. Eles estão tendo  suporte para realizar  as atividades". Ele diz que tem a perspectiva de aumentar a participação e aproveitamento dos alunos. A ideia é dar continuidade ao programa nos próximos anos.

Atendimento individual e  envolvimento de todos os docentes
Após realizar o 1º ano do Fundamental no modelo remoto, muitas turmas de 2º ano têm enfrentado desafios para avançar no desenvolvimento da leitura e da escrita. Pensando nisso, a Escola Municipal Itaubal, em Itaubal (AP), criou um apoio pedagógico focado nesses alunos.

A sala de 2º ano tem apenas 14 alunos. Com isso, o atendimento individualizado é possível. Para organizar o trabalho, todos os professores participam e, seguindo uma escala durante a manhã e à tarde, os alunos vão à escola por duas horas para o reforço. “Foi uma sugestão dos professores [fazer de forma individual]. Cada um ficou responsável por um aluno”, explica Jeane Gurjão, diretora da instituição.

Apesar de todos os professores participarem, quem é responsável pelo planejamento das atividades é a professora da turma. Ela o compartilha com os colegas, que são responsáveis pela execução. “Cada professor trabalha dentro desse planejamento, mas tem sua própria metodologia. O que observamos [que tem funcionado] é trabalhar mais o lúdico, jogos com palavras”, afirma Jeane.

A partir dos resultados positivos com o 2º ano, o apoio pedagógico foi estendido para o 5º ano. As aulas regulares de todas as turmas permanecem de forma remota com entrega quinzenal de atividades impressas. A escola ainda aguarda o avanço na vacinação para o retorno de forma híbrida.

O que deve ter um bom apoio pedagógico
A especialista Rosaura, do Instituto Abaporu, aponta caminhos para planejar e organizar o fortalecimento das aprendizagens dos alunos

1. Base em resultados de avaliações. Tanto para determinar quem precisa do apoio pedagógico, quanto para acompanhar os avanços e necessidades dos alunos, ter avaliações diagnósticas frequentes é fundamental para orientar o trabalho do professor. “O apoio só terá qualidade caso esteja ajustado às necessidades reais dos alunos,”, resume Rosaura.

2. Foco em aprendizagens essenciais. “Não dá para fazer caber no contraturno escolar o currículo de antes da pandemia. Hoje são outros conteúdos que precisam ser priorizados”, determina a especialista. Por isso, ela coloca que, a partir da realidade local e dos documentos de referência, a equipe docente e gestora precisa definir coletivamente quais são os objetivos de aprendizagens essenciais a serem desenvolvidos.

3. Atividades personalizadas. “Não existe um planejamento que se aplica a todos, mas este deve ser pensado para cada turma, que é composta por alunos com diferentes conhecimentos”, exemplifica. “As melhores estratégias são preparar propostas a partir do que os alunos precisam e testar outras abordagens para não fazer mais do mesmo”, complementa. Ela explica que, se for o mesmo professor do ensino regular, ele já sabe o nível de conhecimento dos alunos e o que funciona melhor com a turma. Se não for esse o caso, fazer uma ponte com esse outro educador é importante para entender melhor as necessidades dos alunos.

4. Olhar inovador. "Não faz sentido repetir atividades que não deram resultado. Elas precisam ser modificadas", explica a especialista. Essa ideia parte do princípio que os alunos que precisam de apoio pedagógico já tiveram uma experiência anterior na qual não conseguiram atingir plenamente determinada habilidade. Por isso, o professor precisa buscar outras estratégias para garantir a aprendizagem dos alunos.

Apoio das aprendizagens com materiais impressos
Na Escola de Educação Infantil e Fundamental Francisco Nemesio Cordeiro, em Tianguá (CE), além das aulas regulares, os alunos do 1º ao 5º ano recebem materiais impressos extras focados nas aprendizagens em defasagem. A escolha da estratégia considerou o perfil dos estudantes e a falta de acesso às ferramentas digitais. “A tecnologia é muito legal, mas quando se tem recurso para isso. Se todos tivessem um computador, poderíamos usar vídeos, jogos ou videochamadas. Mas tenho alunos que às vezes não conseguem nem baixar um aplicativo”, reflete Bruna Santos da Silva, diretora da escola.

No contraturno, uma vez por semana, quem tem acesso à internet encontra-se com o professor em uma aula pelo Google Meet. “Mas quem mais precisa tem dificuldade de participar das aulas. Não conseguimos atingir 100% daqueles que tinham necessidade”, conta a diretora. Os responsáveis pelas aulas são os próprios professores da instituição. Para preparar as atividades, eles partem das habilidades que foram consideradas essenciais para cada ano e dos resultados de avaliações diagnósticas. “Avaliamos todos e depois sentamos [a equipe gestora e os docentes] para fazer um plano de ação, entender a situação de cada ano e pensar no apoio pedagógico”, ressalta Bruna.

Em setembro, a escola deve voltar a funcionar de forma híbrida. Para essa retomada, está sendo feito um planejamento de como será a recuperação das aprendizagens. “Estamos elaborando outro plano focado no que o aluno mais precisa. Pensamos que deve ser no contraturno e envolver o aluno para que ele seja protagonista. Não poderemos voltar ao ensino tradicional de antes da pandemia. Vamos buscar [outras] estratégias de aprendizagem, usar jogos [por exemplo]”, comenta a diretora.

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Como o coordenador pedagógico pode apoiar o professor nesse trabalho? Este curso apresenta sugestões para os gestores elaborarem um instrumento de planejamento e traz indicações do que deve ser considerado para adaptar o planejamento a eventuais mudanças de contexto

Para além do contraturno
Em Fortaleza, na Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Jenny Gomes, como o apoio pedagógico no contraturno não é possível, a recuperação das aprendizagens é realizada no período de aula. "A recuperação é contínua. Bimestralmente, temos as avaliações e, depois do diagnóstico, começamos a recuperar", explica Marcos Bezerra, diretor da instituição.

Semanalmente, os estudantes têm 45 aulas, 15 delas de quatro disciplinas, que são eletivas. Nelas, há um aprofundamento dos conteúdos curriculares e recuperação das defasagens dos alunos. "Nós orientamos a escolha das eletivas de acordo com as dificuldades de cada aluno [que são mapeadas a partir de uma avaliação diagnóstica semestral]", diz Bezerra. Para as eletivas do 1º ano do Ensino Médio, o gestor conta que há um enfoque maior em Língua Portuguesa e Matemática para suprir as defasagens que os alunos trazem do Ensino Fundamental.

Esse trabalho, segundo o diretor, foi responsável pela escola não ter nenhuma evasão durante o ensino remoto. Para ele, as avaliações contínuas são fundamentais, em especial a diagnóstica realizada a cada semestre.

"É preciso  fazer uma verificação para conhecer as dificuldades individuais e ter um perfil do que cada estudante necessita. A partir disso, traçar planos e ver o que vai ser necessário ofertar na escola", finaliza.

Os papéis dos gestores no apoio pedagógico
A direção e a coordenação pedagógica ocupam lugar fundamental na articulação de um trabalho que seja significativo para os estudantes. Entenda as funções da equipe gestora:

 Orientação do trabalho. Para o diretor Marcos, a equipe gestora ocupa, nesse processo, o lugar do piloto. "Precisamos partir das dificuldades dos alunos para direcionar o foco das ações. O gestor é fundamental para dar rumo, definir  aonde quer chegar e nortear esse trabalho", diz.

 Apoio e formação dos professores. Para a coordenadora Fabiana, cabe à equipe gestora contribuir para a formação do professor que dará o apoio pedagógico. “Temos de caminhar em conjunto, encontrar estratégias para o desenvolvimento integral do aluno. Eu tenho de pegar o que o professor tem e aprimorar esse conhecimento para potencializar o trabalho dele”, explica a educadora. “Os alunos já passaram por um processo de ensino que não foi suficiente para desenvolver [aquelas habilidades], por isso os professores precisam trazer uma metodologia diferenciada”, complementa o diretor Leandro.

 Estímulo aos alunos e famílias. Além de incentivar os professores, outro ponto relevante é engajar os estudantes e as famílias. “Mostrar [para o aluno] que não é um problema estar com dificuldade, que aquela aula vai ser importante para ele e que vai conseguir superá-la”, explica Leandro. O mesmo deve ser feito com as famílias para evidenciar a importância de o aluno participar dessas atividades no contraturno escolar. “Nosso papel é estimular o professor na metodologia diferenciada, o aluno a frequentar a aula e a família a acreditar no programa”, resume.

 Organização administrativa e financeira. Se não conseguir aproveitar os professores da escola, a direção deve contratar novos docentes, a partir da liberação do recurso via Secretaria. No caso de Leandro, ele explica que é um orçamento que já está liberado para o programa de fortalecimento das aprendizagens e conta também com recursos para compras de livros, equipamentos, materiais de papelaria e impressões. Dessa forma, cabe ao gestor fazer todo esse gerenciamento.

 Acolhimento. O período de pandemia foi muito desafiador, e no apoio pedagógico é fundamental acolher os estudantes. Essa tarefa não é apenas da gestão, mas também da equipe docente. “É preciso dar atenção ao aluno e entender como ele está no ambiente escolar e se tem suporte da família. A escola precisa fazer esse acolhimento, acreditar no desenvolvimento do estudante e fazer acontecer [a recuperação das aprendizagens]”, finaliza Leandro.