Desafios, potencialidades e saúde mental afetada: o balanço de um diretor escolar em plena pandemia

A covid-19 trouxe muitos obstáculos, novas ferramentas de trabalho e uma verdadeira necessidade de reinvenção profissional – ao mesmo tempo em que precisamos lutar para manter a nossa saúde mental em ordem, em meio a tantas demandas

POR:
José Marcos Couto Júnior
Crédito: Getty Images

Aprender receitas culinárias com ingredientes que ninguém sabia da existência. Começar aulas de ioga ou fazer meditação. Ter contato com um novo idioma. Estudar técnicas avançadas em um instrumento musical. Experimentar catálogos inteiros de filmes e séries em plataformas de streaming. Cultivar uma horta caseira.

Essa listagem veio à minha mente, sem muito esforço, enquanto eu tentava me recordar das opções de “fugas ideais” que me foram apresentadas ao longo de pouco mais de um ano de pandemia da covid-19. No entanto, estava claro que essas “soluções” não teriam efeito mais duradouro do que uma ou duas semanas de distração – afinal, a gravidade da pandemia exige medidas muito mais assertivas para o seu enfrentamento. O mesmo podemos afirmar ao olhar atentamente para a área da Educação: não há respostas simples, e muito menos “soluções mágicas”, para o que estamos encarando agora e para os desafios dos próximos anos.

Pensando nisso, não pretendo apresentar nessa coluna qualquer ideia de que nós devemos “tirar exemplos de superação do período pandêmico”. Pelo contrário: o foco aqui é propor uma reflexão de que todos nós, profissionais da gestão escolar e da Educação como um todo, saibamos nos reinventar em meio ao complexo cenário em que vivemos – só que numa perspectiva muito mais relacionada a um processo sistemático de contenção de danos do que a uma história de superação, fazendo aquilo que é possível dentro de cada contexto.

Assim, passados mais de 15 meses desde o primeiro caso da covid-19 no Brasil e da consequente reviravolta no mundo da Educação, precisamos ter algumas questões em mente. A primeira é que é cada vez mais urgente a tomada de decisões por parte de gestores escolares e educadores, pondo em prática algumas ações que podem fazer toda a diferença entre perder ou não toda uma geração de estudantes.

Por outro lado, em meio às muitas pressões envolvidas nesse momento tão complexo e decisivo, nós diretores não podemos nos esquecer da nossa saúde mental: é muito importante não nos deixarmos soterrar pela demanda de trabalho, e ter em mente que, assim como apoiamos as nossas equipes escolares, também precisamos de suporte para que todas essas ações em nossos ambientes escolares sejam efetivas e, ao mesmo tempo, não provoquem nosso adoecimento físico e mental.

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Limites e potencialidades atuais da gestão escolar

Quem leu a minha coluna publicada há um mês aqui no site de NOVA ESCOLA viu que, naquela reflexão otimista sobre como um professor que se torna diretor pode se manter saudável e realizado profissionalmente, enfatizei três pontos cruciais: autoconhecimento, criatividade e resiliência.

Isso não quer dizer que, agora que estamos pondo em discussão o trabalho de um diretor escolar em plena pandemia, todo o meu otimismo se esvaiu – é sempre muito importante que nós continuemos buscando nos encontrar enquanto gestores. Só que nesse contexto atual, dada a gravidade da situação, talvez alguns elementos precisem ficar em segundo plano.

Diante das urgências do nosso dia a dia de gestores em tempos pandêmicos, que envolvem coisas como levantamento rápido de dados, avaliações e reavaliações constantes, implantação de protocolos no ambiente escolar, e uma verdadeira necessidade de termos sempre respostas imediatas a tantas solicitações, pode ser que reste pouco tempo para exercermos com calma o nosso processo de autoconhecimento, e mesmo a criatividade pode ficar um pouco podada.

No entanto, resta a resiliência – e é nela que precisamos nos apoiar para lidar com todas essas demandas mencionadas anteriormente, sempre tendo como norte quatro tópicos que considero fundamentais nesse momento em que redes e escolas iniciam discussões relacionadas às retomadas graduais de atividades presenciais (e em alguns lugares, esse retorno inclusive já começa a ser colocado em prática). São eles:

1- Realizar o trabalho de acolhimento socioemocional dos alunos, da equipe docente, dos funcionários, e também dos responsáveis;

2- Institucionalizar um processo de busca ativa sistemática, com intervalos curtos entre as buscas, para reverter a evasão dos estudantes que deixaram de interagir com a escola;

3- Manter uma atenção focal sobre discentes mais vulneráveis nesta retomada, com estratégias de reforço escolar baseadas em avaliações diagnósticas, periódicas e diversificadas;

4- Fortalecer as redes intersetoriais das comunidades escolares, com o objetivo de viabilizar suporte clínico e acompanhamento para os alunos que necessitarem.

Esses pontos ilustram como as escolas públicas cumprem uma verdadeira função social, que vai muito além da oferta de atendimento educacional – algo que ficou, inclusive, muito mais latente no período pandêmico. E mais: são questões que evidenciam o tanto de responsabilidades que estão relacionadas ao trabalho da gestão dessas instituições, responsabilidades essas que, se não forem bem equilibradas, podem, sim, nos sobrecarregar e trazer sérios riscos para nossa saúde.

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O diretor faz muito, mas não pode nunca fazer sozinho

Em março de 2020, o processo educacional do país foi engolido, sem qualquer formalidade, por conceitos e rotinas baseadas no home office e em uma realidade alicerçada no ensino remoto. Como sabemos, esse movimento se deu sem que houvesse qualquer estrutura prévia para sua implementação. Foi um verdadeiro tsunami, com força devastadora e inevitável, que se impôs sobre o trabalho dos educadores.

Se para os professores foi demandada a complexa tarefa de adequar seu conhecimento pedagógico ao espaço virtual, coube aos diretores a função de definir e de delimitar efetivamente a perspectiva híbrida das unidades escolares. Ao longo dos últimos quinze meses, diretores e coordenadores de todo país ficaram encarregados pelo trabalho de distribuição de benefícios como cestas básicas e cartões alimentação aos alunos; pela criação dos primeiros espaços que viabilizariam a interação entre os professores e os estudantes; pela entrega periódica de material didático impresso, entre outras atribuições ligadas à manutenção do espaço escolar.

Particularmente, aqui de onde falo, na cidade do Rio de Janeiro, trabalhamos de forma presencial desde agosto do ano passado, como relatei nessa coluna. Desde esse retorno, o que já era complicado ficou ainda mais, porque enquanto foram retomadas uma série de atribuições cotidianas ligadas ao ambiente presencial, as cobranças virtuais também aumentaram no período. Reuniões a distância, capacitações on-line, multiplicação de links de formulários para preenchimento… não me recordo de ter passado mais de uma semana de 2021 sem que houvesse participado de ao menos uma atividade remota.

Em meio a tantas atribuições presenciais e não presenciais, fica uma constatação: é muito difícil se manter saudável nesse cenário. Desde dezembro eu me queixo regularmente de “me sentir um burocrata da educação”, por conta de exercer um trabalho pouco reflexivo, onde sempre há demandas pendentes a serem entregues “para ontem”. Não à toa, a resiliência parece dar sinais de que se aproxima do limite.

Muito se fala sobre saúde mental e esgotamento dos médicos e profissionais da saúde, discussão extremamente necessária; alguns debates também começam a dar conta de refletir sobre a saúde mental dos professores, o que é igualmente essencial de se falar. Mas e quanto aos diretores? Sinto que faltam trabalhos que pesquisem o burnout e o estresse relacionados a esses profissionais que lidam diariamente com muita pressão e cobranças.

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Com isso, é preciso um olhar atento por parte das secretarias de Educação e dos coordenadores locais, a fim de darem suporte e estabelecerem uma escuta ativa às questões sensíveis que vêm do gabinete escolar. Por sua vez, nós que estamos no gabinete precisamos ter consciência de que, em primeiro lugar, nossa saúde mental está em jogo e não podemos nunca nos descuidar dela, e em segundo lugar, de que não conseguiremos realizar esse trabalho de retomada sem o suporte necessário.

Tal suporte pode estar mais próximo do que imaginamos. Tudo porque, a despeito do cenário de tragédia à nossa volta, precisamos agir – e penso que esse é justamente o momento propício para consolidarmos  o caráter democrático e participativo de nossas comunidades escolares, fundando novos territórios educativos.  Esse tipo de espaço consiste, basicamente, na construção de fóruns democráticos nos nossos ambientes escolares, com ações transversais interdisciplinares, intersetoriais e intergeracionais visando a participação efetiva e o protagonismo de todos os segmentos e parceiros de uma comunidade escolar. Esse assunto, inclusive, rende muito mais conversa, e pretendo abordá-lo em detalhes por aqui em breve.

Realizadas todas essas reflexões, precisamos, então, compreender cada vez mais que gerir uma escola passa basicamente pela prática de identificar, incentivar e canalizar potencialidades individuais e coletivas para a obtenção dos objetivos comuns da comunidade escolar. Não podemos nos esquecer de que nós gestores nunca devemos ficar solitários nesse processo, pelo bem da nossa própria saúde mental, e pelo bem de todos aqueles que estudam, frequentam, interagem e mesmo dependem da nossa escola.

Um abraço e até a próxima!

José Couto Jr

José Couto Júnior é formado em História e Mestre em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em 2018, foi eleito Educador do Ano no Prêmio Educador Nota 10. Servidor da Prefeitura do Rio de Janeiro há 10 anos, atua desde 2019 como diretor na Escola Municipal Professora Ivone Nunes Ferreira, no Rio de Janeiro.

 

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