Educação Infantil: como conciliar os direitos de aprendizagem com a volta das atividades presenciais?

Em meio aos vários desafios que envolvem a retomada gradual às atividades presenciais nas escolas, é importante não perdermos de vista os seis direitos de aprendizagem propostos pela BNCC

POR:
Evandro Tortora

Na volta às atividades presenciais na escola em que trabalho em Campinas (SP), o cuidado com os ‘protocolos pedagógicos’ que garantam os direitos de aprendizagem previstos na BNCC caminha lado a lado com os cuidados envolvendo protocolos sanitários. Foto: acervo pessoal/Evandro Tortora

Algumas semanas atrás, compartilhei aqui na minha coluna um relato de experiência sobre a volta gradual às atividades presenciais que ocorreu na escola em que trabalho – situação que é igualmente vivenciada por muitos colegas no Brasil, enquanto outros ainda seguem em trabalho remoto. Naquela reflexão, procurei trazer os vários desafios relacionados a como garantir uma retomada segura, e como envolver as crianças nesse processo.

A questão é que ainda há muito o que ser conversado sobre esse tema, e por isso, gostaria de retornar a esse diálogo no texto de hoje. Durante as discussões da coluna anterior, mencionei um termo usado por uma amiga professora, os “protocolos pedagógicos”, que dizem respeito a não nos esquecermos da qualidade no atendimento às crianças, em meio às tantas (e necessárias) restrições trazidas pelos protocolos sanitários.

Pois bem: dentro dessa garantia de qualidade, é preciso construir tempos e espaços nos quais estejam garantidos os direitos das crianças e, falando mais especificamente da BNCC de Educação Infantil, coloca-se o desafio de se pensar em ambientes em que os seis direitos de aprendizagem previstos na Base – Conviver, Brincar, Participar, Explorar, Expressar e Conhecer-se – façam parte do cotidiano e atendam às demandas atuais relacionadas à Educação Infantil.

Por isso, convido vocês agora para retomarem comigo um pouco de cada um desses direitos, para que, juntos, nós possamos relembrar o que a Base nos indica, e ainda refletir sobre a importância de se incorporar esses seis elementos em nosso planejamento de tempos e espaços.

1. Conviver

A BNCC descreve que os pequenos têm direito a “conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas”. Lendo assim, pode até parecer um pouco óbvio que temos que garantir essa convivência para as crianças, não é mesmo?

No entanto, o ponto aqui é que nós temos que pensar em situações em que essa convivência seja propulsora de novas formas de significar a realidade e de aprender mais sobre ela! Por exemplo, agora que estamos vivenciando a pandemia, muitas crianças estão voltando à escola sem o hábito de usar máscaras, de passar álcool em gel, de lavar as mãos com mais frequência, entre outras práticas que o momento exige. Esses são hábitos que aprendemos convivendo com o outro e dialogando sobre a importância de todos esses protocolos para garantir nossa segurança – ou seja, uma baita oportunidade para trabalharmos com esse direito de aprendizagem!

2. Brincar

A BNCC ressalta que a criança tem direito a “brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais”.

Nesse caso, o ato de brincar precisa ser reinventado frente às novas demandas sanitárias. Aqui na minha escola, os pequenos não compartilham brinquedos, mas aprenderam que podem conversar sobre a brincadeira do outro, e que podem brincar de muita coisa ao ar livre! Isso faz com que o parque, o tanque de areia, a quadra, o pátio, e os outros espaços abertos, sejam mais utilizados nesse momento –  e o ato de brincar ressignifica esses espaços, nos fazendo pensar em brincadeiras com bambolês, elásticos, motocas, amarelinhas, vivo-morto e esconde-esconde. Tudo isso é muito bem-vindo!

3. Participar

Outro direito das crianças garantido pela BNCC confere a elas o ato de “participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador, quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando”.

Nesse ponto, pensando nesses desafios que envolvem a volta ao presencial, é sempre importante conversar com as crianças sobre as expectativas, necessidades e mesmo sugestões delas, no momento de se organizar os tempos e espaços na escola. É importante se questionar: será que elas vão conseguir sugerir algo que respeite os protocolos sanitários?

Na minha experiência atual, procuro conversar e planejar as vivências com as crianças diariamente. Por exemplo, nós sempre fazemos uma roda no início das atividades; ao final, costumo ouvi-los dizer o que gostaram e o que não gostaram nessa “nova rotina” dos tempos pandêmicos. Inclusive, tenho vivenciado situações em que os pequenos dão sugestões muito criativas para organizar a rotina! 

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4. Explorar

A Base também descreve que as crianças têm direito a “explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia”.

A questão crucial aqui é: ninguém explora pela criança, ela própria deve ter a experiência da exploração em diferentes situações. Lembro que, no passado, tive uma auxiliar de sala que vivia dizendo que “a criança tem que fuçar nas coisas para aprender” – e ela estava totalmente certa! É mexendo, amassando, observando, cheirando, ouvindo e sentindo o mundo que a criança aprende. No contexto atual, precisamos, é claro, observar os protocolos sanitários e rever algumas práticas, mas esse direito não pode ser deixado de lado! A partir disso, sugiro conversar com os outros professores e professoras para conhecer materialidades que possam enriquecer as explorações das crianças.

Lá na escola em que atuo, temos conseguido boas experiências com atividades que envolvem elementos da natureza, que são itens que não precisam ser higienizados após a utilização. Assim, as crianças podem, por exemplo, levar as suas produções para casa (ao pintar folhas de árvores ou utilizá-las como carimbos); fazer uso dos elementos da natureza para brincar de faz de conta (como ao brincar de fazer comidinha com folhas ou com a areia do parque); e ainda descartar os materiais utilizados nas práticas (como quando usamos galhos ou folhas como pincéis).

5. Expressar

O quinto direito de aprendizagem aponta que as crianças têm direito a “expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens”.

Nesse ponto, constatamos como os os direitos de aprendizagem têm relação entre si. Afinal, vemos que os exemplos que citei no direito de “participar” – com as crianças participando da construção coletiva das nossas práticas nesse retorno gradual às atividades presenciais na escola – estão intimamente ligados a esse direito de aprendizagem aqui. As crianças podem e devem se expressar quando e como quiserem, e nós professores devemos estar atentos às diferentes linguagens por meio das quais os pequenos se manifestam.

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6. Conhecer-se

Como último item dessa lista, deve fazer parte das nossas práticas garantir às crianças o direito de “conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário”.

Esse direito ressalta a importância das crianças olharem para si mesmas e refletirem sobre como elas se diferenciam ou se aproximam umas das outras. Conviver com a diferença é essencial nesse processo, sendo fundamental que elas reconheçam que as diferenças são inerentes ao ser humano.

No contexto de pandemia, é preciso conversar sobre como cada um de nós está se sentindo nesse momento. Esse movimento de entender seus sentimentos e quais são as suas necessidades ajuda, também, as crianças a se expressar – outro dos direitos mencionados anteriormente nessa lista. Na Educação Infantil especificamente, é muito importante que o educador dê a liberdade da criança dizer se está triste ou feliz com alguma situação. Isso faz parte desse contexto de pandemia e, ao mesmo tempo, auxilia que os pequenos aprendam a nomear os seus sentimentos, e assim, se conhecerem a si próprios cada vez mais!

Por fim, é válido ressaltar que não é dever apenas do professor ou da professora das crianças planejar esses espaços que garantam os direitos de aprendizagem – na verdade, trata-se de um requisito de todos os que fazem parte da comunidade escolar, seja um cozinheiro, zeladora, diretora, mãe, pai ou outra qualquer outra pessoa que faça parte da Educação dos pequenos. Todos e todas podem ter vez e voz para pensar nos direitos de aprendizagem. É necessário diálogo, planejamento e replanejamento constante dentro das práticas que permeiam a Educação Infantil, em um ambiente democrático que permita a todos participarem das discussões!

Em resumo, não podemos nos esquecer de que os direitos de aprendizagem fazem parte dos nossos “protocolos pedagógicos”, e não devem ser deixados de lado ao se pensar no retorno presencial, certo?


Um abraço carinhoso e até breve! 

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.