Alfabetização: 5 sugestões de atividades para trabalhar com entrevistas

Atividades envolvendo perguntas e respostas com entrevistados são previstas em diferentes habilidades da BNCC – podendo, inclusive, serem propostas e adaptadas para o ensino remoto ou híbrido

POR:
Mara Mansani
Crédito: Getty Images

As crianças estão sempre perguntando sobre tudo, não é mesmo? Sempre dispostas a investigar, a saber o porquê das coisas, a entender o funcionamento de tudo que as cerca… Enfim, elas estão na fase das descobertas e, por isso, querem desvendar tudo sobre o mundo!

Assim, nós professoras e professores precisamos encontrar maneiras de aproveitar tamanha sede de saber que os nossos pequenos apresentam, principalmente nesse momento em que se encontram no ciclo de alfabetização. Por isso, resolvi falar hoje sobre como podemos aproveitar essa curiosidade natural das crianças para desenvolver habilidades de escrita e oralidade na alfabetização, por meio da produção de entrevistas com a sua turma.

Na BNCC, a produção oral e escrita de entrevistas está presente do 1º ano, ainda na etapa da alfabetização, até o 9º ano do Ensino Fundamental. Especificamente no ciclo de alfabetização, elas fazem parte do campo das práticas de estudo e pesquisa.

O que é o campo das práticas de atuação e pesquisa?

Campo de atuação relativo à participação em situações de leitura/escrita que possibilitem conhecer os textos expositivos e argumentativos, a linguagem e as práticas relacionadas ao estudo, à pesquisa e à divulgação científica, favorecendo a aprendizagem dentro e fora da escola

Veja abaixo algumas das habilidades que estão previstas para 1º e 2º anos em que as entrevistas podem ser exploradas:

(EF01LP22) Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, diagramas, entrevistas, curiosidades, dentre outros gêneros do campo investigativo, digitais ou impressos, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto/finalidade do texto.

(EF02LP22) Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, pequenos relatos de experimentos, entrevistas, verbetes de enciclopédia infantil, dentre outros gêneros do campo investigativo, digitais ou impressos, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto/finalidade do texto.

(EF01LP24) Identificar e reproduzir, em enunciados de tarefas escolares, diagramas, entrevistas, curiosidades, digitais ou impressos, a formatação e diagramação específica de cada um desses gêneros, inclusive em suas versões orais.

(EF02LP25) Identificar e reproduzir, em relatos de experimentos, entrevistas, verbetes de enciclopédia infantil, digitais ou impressos, a formatação e diagramação específica de cada um desses gêneros, inclusive em suas versões orais.

Agora que já vimos onde as entrevistas se situam na BNCC, fica o questionamento: como podemos realizar esse trabalho em sala de aula, explorando as entrevistas com os alunos? Veja a seguir as minhas 5 sugestões de atividades.

Atividade 1: entendendo o conceito de entrevista

Uma primeira proposta de atividade, para que conheçam e entendam a prática da entrevista, consiste em apresentar para os alunos alguns vídeos de entrevistas, com temas ou entrevistados que façam parte do universo infantil. Tem muita coisa legal disponível na internet, como esse vídeo aqui, em que o autor Maurício de Souza, criador da turma da Mônica, é entrevistado por crianças.

Explore com eles a entrevista, fazendo perguntas sobre o entrevistado, o assunto, o papel do entrevistador, o local em que a entrevista foi veiculada, para qual público foi feita, e tudo mais que puder ser realizado em forma de reflexão, de modo a levá-los a compreender a situação comunicativa e o tema/assunto/finalidade de uma entrevista.

Em seguida, aproveite a mesma entrevista apresentada anteriormente, e proponha que as crianças, oralmente e coletivamente, criem perguntas, tendo o professor como escriba. Faça com que os pequenos elaborem possíveis questões que poderiam ter sido feitas ao entrevistado e que eles gostariam de saber, mantendo o foco no mesmo assunto da entrevista original. Dessa forma, eles já vão exercitando a criação de perguntas, algo que será extremamente útil em atividades posteriores.

Atividade 2: entrevistas no formato escrito

Disponibilize para as crianças algumas entrevistas no formato escrito, uma cópia para cada um. Você pode selecionar alguns textos de suplementos infantis de jornais, ou mesmo outros conteúdos disponíveis na Internet ou nos próprios jornais impressos, só tendo, mais uma vez, o cuidado de selecionar entrevistas que façam parte do universo infantil e que estejam dentro da capacidade de compreensão dos pequenos, com um nível de complexidade que seja de acordo com a idade.

Leia as entrevistas com e para eles. Em seguida, deixe que assumam os papéis de entrevistador e entrevistado. Além de adorarem fazer isso, trata-se de uma boa forma deles compreenderem as relações entre os textos, entrevista oral (como na atividade anterior) e entrevista escrita. Se tiverem acesso, vocês podem usar microfones de verdade, ou mesmo criar com eles microfones de brincadeira. Tente gravar a “brincadeira de entrevistar”, em áudio ou imagem, para que posteriormente todos possam fazer seus comentários sobre possíveis ajustes, como por exemplo: “na próxima, precisa falar mais alto”, ou ainda “olhe para o entrevistador durante as respostas”.

Combo - BNCC no Ensino Fundamental 1 

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Atividade 3: entreviste seu colega

Agora, a proposta é que as crianças, individualmente ou em duplas, escrevam 5 perguntas para entrevistar um colega de turma, de forma que todos possam conhecer um pouco mais sobre ele. Acompanhe as produções, fazendo intervenções de forma que as escritas sejam alfabéticas. Aproveite para explicar o uso do ponto de interrogação, mesmo ele ainda não sendo o objeto de estudo direto.

Feitas as perguntas aos colegas, deixe que as duplas então apresentem a todos como foi o processo, e o que descobriram sobre os colegas. Se as crianças ainda não tiverem autonomia de escrita e leitura, você pode fazer esse passo de forma coletiva, ou com mais apoio na produção.

Atividade 4: entreviste seu professor

Nessa próxima proposta de atividade, a ideia é que as crianças entrevistem o próprio professor da turma. Combine anteriormente o que eles gostariam de saber, por exemplo, sobre o dia a dia profissional do professor.  Mais uma vez, as crianças criarão as perguntas assim como na proposta anterior, mas dessa vez, as perguntas devem ser compartilhadas com todos através de um data show, na própria lousa de sala de aula, ou por meio da lousa digital do Google, por exemplo, no caso de quem estiver atuando com ensino remoto.

A tarefa é analisar as perguntas, retirando as que são repetidas ou muito próximas, e aquelas que são fora do tema. Selecione pelo menos dez perguntas para a entrevista. Disponha a turma de forma que todos possam acompanhar de perto o entrevistador e o entrevistado. Além disso, assim como na atividade anterior, procure gravar em áudio e vídeo toda a entrevista para uma futura análise. Atente-se ainda para chamar a atenção para o vai e vem do oral e do escrito nas entrevistas.

Atividade 5: entreviste outros profissionais

Nessa última proposta de atividade, inicialmente, procure levantar com a turma alguns temas que podem ser explorados em entrevistas. Além das ideias sugeridas pelas crianças, inclua na lista alguns outros temas que façam parte do currículo, dentro de áreas das ciências humanas ou da natureza, de outras disciplinas, ou ainda tópicos que façam parte da proposta da escola.

Procure pensar em temas que favoreçam o estudo e a pesquisa, que possam estimular as descobertas, que façam com que as crianças avancem não só na produção na produção oral e escrita do texto de entrevista, como também em relação ao conhecimento do mundo que as cerca. Definidos os temas, faça com eles uma programação de entrevistas que possam ser realizadas ao longo de todo o ano letivo.

Depois dessa definição dos temas a serem estudados, a hora é de fazer convites para as pessoas de fora da escola que podem ser entrevistadas a respeito desses assuntos. Imaginem o quanto pode render, em termos de aprendizagem, uma entrevista com um carteiro, com a merendeira da escola, com um policial do bairro, com os pais sobre a profissão deles, com um idoso da comunidade, entre tantas outras possibilidades de boas conversas.

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As minhas turmas de alunos já entrevistaram a agente de saúde do bairro, uma parteira da comunidade, e o coveiro da cidade – que, aliás, foi a entrevista que mais impactou a todos, já que todos passamos a valorizar mais esses profissionais, e mesmo a entender melhor sobre o mundo do trabalho e sobre as relações dentro da sociedade.

Vale ressaltar que, no caso de quem já retornou parcialmente ao ensino presencial, essas entrevistas podem ser realizadas na própria sala de aula ou mesmo no pátio da escola, com a participação de outras turmas de alunos (sempre, é claro, respeitando todos os protocolos sanitários); já para quem segue trabalhando com ensino remoto ou híbrido, essas práticas podem também ocorrer via ferramentas digitais de comunicação, como o Google Meet e o Microsoft Teams.

De qualquer forma, não se esqueçam de registrar essas entrevistas em vídeo, áudio, foto ou texto impresso, divulgando posteriormente nos grupos de WhatsApp ou no mural físico da escola. Caso precisem de inspirações para esse trabalho com entrevistas, selecionei algumas referências aqui, aqui e aqui.

Garanto a vocês que as entrevistas serão um sucesso de participação e de aprendizagem – e não se iludam com as descobertas feitas, porque depois dessas primeiras conversas, virão cada vez mais perguntas, dúvidas, questionamentos, e principalmente, vontade de estudar. Portanto, não deixe de incluir as entrevistas nas suas aulas, o quanto antes for possível! Acredito firmemente que são as perguntas que levam ao conhecimento, e não tão somente as respostas. Por fim, se você já explorou entrevistas com a sua turma, conte aqui nos comentários como foi essa experiência!

Um grande abraço e até a próxima!

Mara Mansani

Mara Mansani é professora há 34 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.

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