Educação Infantil: como organizar o currículo a partir dos campos de experiências previstos na BNCC

Ao longo desse amplo processo de construção, a gestão escolar deve ter em mente que a organização curricular precisa respeitar os direitos e as experiências dos bebês e das crianças, dentro de cada contexto escolar

POR:
Muriele Salazar Massucato
Crédito: Getty Images

Um dos momentos mais importantes no trabalho da gestão escolar na Educação Infantil diz respeito à organização do currículo, um processo que é bastante amplo e de muita construção – sempre a partir do que é apresentado nos documentos normativos nacionais da área da Educação. Por isso, sabendo dos desafios e complexidades envolvidos na elaboração curricular, resolvi compartilhar na coluna de hoje um pouco da minha experiência nessa área, a partir do meu trabalho como coordenadora pedagógica na Escola Municipal de Educação Básica Gildo dos Santos, uma creche localizada em São Bernardo do Campo, município da Grande São Paulo.

Antes de descrever como o nosso trabalho se deu, é importante retomarmos o que dizem os documentos oficiais que norteiam o trabalho de todos nós educadores. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017, apresenta uma  organização dos objetivos de aprendizagem e de desenvolvimento da Educação Infantil a partir de cinco campos de experiências. São eles: o eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e  formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; e Espaço, tempo, quantidades, relações e  transformações. Por meio desses campos, busca-se dar um norte para as redes de ensino e escolas de Educação Infantil, de forma que consigam estruturar uma organização curricular que reconheça as experiências, o  protagonismo infantil e os direitos dos bebês e das crianças, atendendo, assim, às suas singularidades e necessidades.

Além disso, precisamos falar das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil (DCNEI-2010), que nos apresentam o conceito de currículo, descrito como um “conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade”.

Cabe destacar que as DCNEI preconizam as interações e brincadeiras como eixos norteadores das práticas previstas nos currículos de Educação Infantil – e a BNCC posteriormente reafirma tais eixos, resguardando ainda seis grandes direitos dos bebês e das crianças, que são: brincar, conviver, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Dessa forma, retomados esses conceitos, fica o questionamento: como organizar o currículo da Educação Infantil considerando todos esses aspectos?

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Analisando os marcos do desenvolvimento das crianças

Partindo desses documentos normativos nacionais, nós na Gildo dos Santos realizamos um estudo dos marcos do desenvolvimento infantil, correlacionando-os aos objetivos da base. Nessa análise, identificamos que a organização da BNCC, com seus objetivos divididos por faixa etária, respeita o processo de desenvolvimento, reconhecendo as especificidades de cada idade.

Assim, vemos que esses objetivos, divididos entre aqueles específicos para bebês (de zero a 1 ano e 6 meses), crianças bem pequenas (de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) e crianças pequenas (de 4 anos a 5 anos e 11 meses), se viabilizam na prática a partir de diferentes contextos de interações e brincadeiras –  ou  seja, se consolidam por meio da valorização das experiências cotidianas, em um processo natural do desenvolvimento infantil

Não se trata, portanto, da construção de um currículo aos moldes de um processo de escolarização tradicional, voltado à pedagogia transmissiva, mas sim, de um olhar pedagógico na organização curricular em prol da garantia de boas experiências que reconheçam e valorizem os direitos dos bebês e das crianças.

Constata-se, desse modo, que ao pensar na construção do currículo, não devemos ter em mente uma “preparação do futuro adulto”, vislumbrando em um “viés preparatório” aquilo que a criança virá a ser. Devemos, na realidade, construir essa organização curricular respeitando a infância, ou seja, respeitando aquilo que os nossos pequenos já são. É por isso que tanto destaque é dado à necessidade de um arranjo curricular que acolha as experiências concretas da vida cotidiana e os saberes das crianças, conforme preconizam as DCNEI e a BNCC.

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O registro da organização curricular

Em seguida, após os estudos e considerações iniciais, organizamos na Gildo dos Santos uma forma de registro da organização curricular, registro esse que emerge, verdadeiramente, das práticas cotidianas da escola – as quais, por sua vez, são fundamentadas nos já citados eixos estruturantes de interações e brincadeiras.

A adoção deste formato de registro evita que façamos algo que é conceitualmente equivocado: a transposição das áreas do conhecimento em campos de experiências. Afinal, sabemos que os campos de experiências abarcam mais de uma área do conhecimento, sendo, portanto, interdisciplinares por natureza. Além disso, o “conteúdo” na Educação Infantil não se estabelece em “caixas” estanques, sem inter-relações, não é mesmo?

Assim, para elaborar o registro, partimos das práticas, ou seja, DO QUE e do COMO FAZEMOS, para depois refletirmos novamente sobre os objetivos dessas propostas, que são representados na pergunta: POR QUE FAZEMOS? Essa lógica, aparentemente inversa, foi estabelecida para que a partir desse olhar para as práticas nós próprias pudéssemos nos aproximar e nos reconhecer na BNCC, já que esse documento não pode estar distante da nossa realidade.

Essas práticas foram listadas em um exercício reflexivo proposto em momentos formativos junto às professoras. Nós partimos da leitura do PPP de 2020 da nossa escola, reconhecendo a organização anterior do currículo, ou seja, reconhecendo o chão que pisamos, para então refletirmos sobre as práticas cotidianas que se constituem nas diferentes experiências  promovidas na creche. A lista das práticas foi feita coletivamente, com a escuta de toda a equipe docente, para que conseguíssemos desvendar o cotidiano dos nossos bebês e crianças bem pequenas no uso e na apropriação dos diferentes espaços e recursos que dispomos na escola.

Depois disso, as práticas foram fundamentadas em subgrupos, a partir de uma proposta de exercício prático: as professoras consultaram a BNCC e verificaram cuidadosamente quais são os direitos de aprendizagem e de desenvolvimento vinculados às suas práticas, e checaram quais campos e objetivos estão relacionados à faixa etária dos nossos alunos (1 e 2 anos).

Encerrada essa formação, foi interessante constatar, em equipe, que tudo o que fazemos tem um propósito pedagógico fundamentado na base, incluindo aí as práticas diárias de higiene, descanso e alimentação, tão presentes nas rotinas da creche. Além do mais, foi bacana poder reafirmar, a partir dessa atividade, algo que já sabíamos: a indissociabilidade que existe entre o educar e o cuidar. Por fim, essa organização curricular permitiu ainda que a nossa equipe consolidasse um trabalho autoavaliativo das práticas que planejamos e desenvolvemos na escola.

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Finalizado esse relato do nosso processo de elaboração curricular, gostaria de ressaltar algo que considero muito importante para termos em mente: não existe uma forma única de se organizar um currículo; esse foi um caminho que fez sentido para nós, tendo em vista a nossa realidade – e que poderá, é claro, inspirar vocês que estão lendo. Mas o ponto-chave é: a organização curricular deve fazer sentido de acordo com a realidade de cada cada escola.

Ainda assim, não podemos perder de vista um último ponto: é impossível documentar antecipadamente todos os saberes que se efetivam a partir das vivências dos bebês e das crianças (nem era essa a nossa pretensão!). O fato é que muitas descobertas se dão nas diferentes experiências e relações ao longo da Educação Infantil, e por isso, precisamos reconhecer que uma parcela do currículo se consolida, tão somente, no cotidiano da infância, em um  processo natural e respeitoso quanto às descobertas e às diferentes possibilidades de encantamento dos nossos pequenos. E está tudo bem!

Um abraço e até a próxima,

Muriele Salazar Massucato

Muriele Salazar Massucato é coordenadora pedagógica há 11 anos na rede municipal de São Bernardo do Campo (SP) e já atuou com turmas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. Formada em Pedagogia, tem segunda licenciatura em Arte e especializações em Psicopedagogia e Ensino da Matemática. Foi autora do blog Coordenadoras em Ação no site NOVA ESCOLA GESTÃO, em 2016 e 2017.

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