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Energia: como ir além das aulas de Ciências

Abordagens interdisciplinares permitem uma compreensão mais ampla do assunto. Veja como duas escolas públicas, da Bahia e de Pernambuco, desenvolveram seus projetos

POR:
Bruno Mazzoco
Ilustração de professores sentados em uma árvore, compartilhando objetos de estudo e de sala de aula.
Crédito: Giovani Flores/NOVA ESCOLA

É comum que a abordagem relativa aos diferentes tipos de energia, suas formas de obtenção e de transformação, bem como os impactos que causam ao meio ambiente, tenha as aulas de Ciências como espaço privilegiado para a discussão. Afinal, a unidade temática “Matéria e energia” é um dos componentes da disciplina na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Mas esse estudo não precisa parar por aí. O próprio documento recomenda o trabalho interdisciplinar, favorecendo uma compreensão mais ampla do tema.

“Esse é um assunto multifacetado que precisa ter o olhar de várias áreas e casa muito bem com a ideia da aprendizagem por projetos”, diz Cristian Annunciato, formador de professores e doutorando em Ensino de Ciências pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). 

O coordenador de Educação Ambiental e Saúde da Secretaria da Educação do Estado da Bahia, Fabio Barbosa, reconhece que a disciplina de Ciências costuma ter mais aderência ao tema, mas afirma que é possível ir além. 

“Em Língua Portuguesa, pode-se pensar na interpretação e na produção de texto tratando a eficiência energética como tema central, por exemplo. Em Matemática, dá para trabalhar o cálculo do consumo de energia por eletrodomésticos ou observar o efeito do uso do chuveiro elétrico no medidor de energia. Do ponto de vista da História, pode-se mostrar a evolução das lâmpadas, traçando uma linha que vai da primeira lâmpada criada por Thomas Edison até as que existem hoje”, sugere. 

De acordo com o coordenador, uma perspectiva mais abrangente e a identificação de problemas locais torna mais factível a construção de projetos de intervenção para a transformação. “A partir do momento em que o aluno se entende inserido nesses processos, podemos ter a formação de um sujeito ambientalmente mais consciente.”

A escola como um observatório

Essa foi uma das propostas desenvolvidas pelo Colégio Estadual Bento Gonçalves, em Salvador (BA), em 2020. Assim como em outras escolas do país, a chegada da pandemia da Covid-19 afetou drasticamente a rotina de aulas, e, de uma hora para outra, os professores se viram diante do desafio de adaptar as atividades para o ensino remoto. Ao conhecerem a metodologia Energia que Transforma – elaborada pelo Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), em parceria com a Fundação Roberto Marinho –, perceberam que podiam cumprir o duplo propósito de engajar os estudantes nas atividades on-line e, ao mesmo tempo, trabalhar com a aprendizagem por projetos com as turmas de 8º e 9º anos em diferentes disciplinas. Entre os pilares da metodologia, estão relacionar o uso eficiente de energia com o meio ambiente e a sustentabilidade e incentivar a realização de estudos inter e transdisciplinares que levem a ações práticas para a eficiência energética. 

O trabalho se iniciou com a socialização da proposta com os alunos e a apresentação, nas aulas de Ciências, das formas de produção de energia que compõem a matriz energética brasileira. Nesses momentos, os estudantes puderam discutir as vantagens e os impactos de cada um dos principais modais energéticos utilizados no país, como hidrelétricas, termelétricas e usinas solares e eólicas. Na sequência, ao abordarem as instalações elétricas e o uso eficiente de energia, as turmas decidiram averiguar como isso ocorria no ambiente escolar. Nascia assim o Observatório da Eficiência Energética, com o objetivo de avaliar como se dá o consumo, identificar possíveis problemas e sugerir melhorias na maneira como a escola utiliza energia.

Para colocar a proposta em prática, os alunos foram divididos em grupos e vistoriaram os diferentes espaços da escola, em uma das poucas atividades realizadas de modo presencial no período. Foram encontradas tomadas com sobrecarga de aparelhos na corrente elétrica, utilização desnecessária de iluminação e uso de equipamentos com alto consumo de energia. Com base nesse diagnóstico inicial, surgiram ideias de intervenção, como a substituição de lâmpadas por outras de menor consumo, a instalação de mais tomadas para evitar sobrecargas e até a troca da geladeira da cozinha por um modelo mais eficiente.

Para que as informações pudessem ser compartilhadas com toda a comunidade escolar, os estudantes se engajaram na produção de diversos materiais envolvendo diferentes disciplinas, processo que se estendeu para este ano e ainda está em andamento. Nas aulas de Língua Portuguesa, eles estão preparando cartazes com mensagens que incentivam a economia de energia – como “Apague as luzes ao sair da sala” – para serem afixados nos ambientes da escola e para divulgação nas redes sociais. Há também a ideia de elaborar uma cartilha com dicas para o consumo consciente de energia. 

Em Artes, os alunos foram convidados a produzir paródias e cartuns sobre o tema. Já os conhecimentos matemáticos serão importantes para calcular o consumo de energia por alguns aparelhos – como a geladeira que foi substituída – e realizar o acompanhamento do projeto para medir o percentual de economia alcançado. Essas etapas devem ser realizadas assim que as aulas presenciais voltarem. 

Edileuza Alves Pereira, professora de Geografia e uma das responsáveis pelo projeto, destaca o potencial trazido pelo diálogo entre as disciplinas. “As abordagens diversas ajudaram a enriquecer a visão dos estudantes. As discussões que ocorreram ao longo do curso deixaram claro que houve um despertar de consciência”, afirma.     

Conhecimento compartilhado

A realidade local também foi o disparador escolhido pelos professores de Geografia e de Ciências da Escola Miguel Calado Borba, em Angelim (PE), para sensibilizar os alunos dos 8º e 9º anos para a importância da eficiência energética. Ao discutir as causas e consequências de acidentes recentes na subestação de energia elétrica da cidade, que resultaram em problemas de abastecimento na região, os docentes estimularam a turma a pensar em alternativas mais viáveis para a geração de energia local. 

Enquanto nas aulas de Geografia o professor Alexandre Pereira focava as condições ambientais – como topografia e clima – que favorecem a instalação de diferentes tipos de usinas geradoras de energia, o docente Rodrigo Souza Rodrigues, de Ciências, mostrava aos estudantes como as usinas transformam a energia captada de diferentes formas em energia elétrica. Ele também trabalhou conceitos como energia cinética e potência e orientou pesquisas para o cálculo do consumo em uma residência.   

Ao tomarem conhecimento das diferentes formas de obtenção de energia e os impactos ao meio ambiente ocasionados por cada uma delas, a turma percebeu que, mais importante do que mudar a maneira de produção de energia, é promover seu uso eficiente.

Para compartilhar esses conhecimentos com a comunidade, eles resolveram fazer uma campanha de conscientização. Em uma tenda montada no centro da cidade, os alunos distribuíram panfletos e deram orientações aos moradores sobre como economizar energia. Também visitaram residências e estabelecimentos próximos para divulgar informações a respeito de boas práticas em eficiência energética. 

Ao final do processo, os conhecimentos acumulados foram partilhados durante uma palestra para os alunos do 6º ano. Para o professor Alexandre, o acesso à metodologia do Energia que Transforma ajudou a fomentar o protagonismo dos estudantes. “Eles puderam trazer informações que a população não conhecia, como, por exemplo, a maneira como a energia está presente na vida das pessoas e como é possível economizar. Isso é muito importante, pois é um conhecimento que pode ser aplicado na prática”, ressalta o educador. “E a interdisciplinaridade desse projeto mostrou que, na vida real, o conhecimento e os conteúdos caminham juntos, sem essa separação em disciplinas”, completa o professor Rodrigo. 

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