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Ressignificando a avaliação na pandemia: como ir além das tradicionais provas

No Ceará, as avaliações diagnósticas nortearam o planejamento pedagógico do ano. Já uma escola em Macapá (AP) organizou projetos interdisciplinares, que engajaram os jovens e permitiram construir aprendizagens com sentido

POR:
Beatriz Vichessi

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamadas com a professora Adriana Tárcia de Souza Oliveira.

Retrato fotográfico produzido remotamente por via chamada com a professora Adriana Tárcia em seu ambiente de trabalho.
Adriana Tárcia de Souza Oliveira é professora de Filosofia e de Projeto de Vida da EE Maria do Carmo Viana dos Anjos, em Macapá (AP). Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Talvez nunca antes na história deste país a escola tenha sido tão impulsionada a repensar a forma como avalia os estudantes. Os professores, com aulas virtuais, sejam elas online ou gravadas, jamais estiveram tão dentro da casa dos alunos. Apesar disso, nunca se sentiram tão impotentes ao aplicar provas. Não há controle a respeito do acesso a outros conteúdos. A internet tem resposta para tudo, não é mesmo? Isso sem falar das anotações pessoais, da cola… 

Não é somente essa a questão que tem feito os educadores repensarem a prática avaliativa na pandemia. O que avaliar também foi posto em xeque, já que dar conta de tudo que está previsto no currículo é complicado, ainda mais quando se tratam de escolas que atendem turmas sem boas condições de acesso à internet ou que vivem em comunidades vulneráveis. 

Como se não bastasse, por que avaliar é outra questão que desde o ano passado vem à tona cada vez mais. O Conselho Nacional de Educação (CNE) recomendou a aprovação escolar automática do ano letivo de 2020 para o de 2021 – mesmo para aqueles que não aprenderam o esperado. Os educadores têm de se desdobrar para manter o vínculo com a garotada e precisam se dedicar à busca ativa. É natural, portanto, se questionar se avaliações fazem sentido. 

Percepção sobre a aprendizagem

Pela própria natureza dessa etapa, que exige mais dos estudantes e prepara para o Enem, foram os professores do Ensino Médio que mais conduziram avaliações durante a pandemia. Segundo pesquisa do Instituto Península realizada entre julho e agosto de 2020, 64% deles realizaram atividades avaliativas com seus alunos, seguidos pelos professores dos anos finais do Fundamental (56%). 

O grande problema foi a percepção dos professores sobre a aprendizagem dos estudantes. No Ensino Médio, só 15% disseram acreditar que quase todos haviam aprendido o esperado. A pergunta aos docentes foi: “Você consegue identificar se seus(suas) alunos(as) conseguiram aprender o que era esperado?” Veja as respostas: 

9% - Quase nenhum(a) aluno(a) aprendeu o esperado
45% - Poucos(as) alunos(as) aprenderam o esperado 
31% - Cerca da metade dos(das) alunos(as) aprendeu o esperado 
15% - Sim, quase todos 

A amostra da pesquisa recolheu 2.749 respostas válidas. A maior parte dos participantes é do Sudeste (41%), e 30% deles são de redes estaduais. Analisando as respostas, mais de 54% dos professores dentro desse perfil deverão se preocupar com a recuperação das aprendizagens de praticamente toda a turma. 

Fonte: Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil - pulso 3.

De olho na progressão

Evidentemente, não existem respostas simples para como, o que e por que avaliar na pandemia. Tudo depende, principalmente, do contexto. Mas a situação atual é uma excelente indutora de reflexão, abre espaço para rever as práticas avaliativas e planejar as que serão usadas na volta às aulas, além de repensar os objetivos que se quer alcançar com elas. “A avaliação que possibilita diagnósticos para fazer intervenções é totalmente necessária. Há que avaliar para saber as atividades que geraram resultados, conhecer os níveis de aprendizagem da turma, identificar as defasagens e planejar os próximos passos”, explica Filomena Siqueira, doutora em Administração Pública e responsável pela área de avaliação do Instituto Reúna.

Retrato fotográfico produzido remotamente por via chamada com a professora Adriana Tárcia.
Adriana acredita que a vivência da pandemia fará com que jovens e professores voltem diferentes à escola, por isso será necessário rever práticas pedagógicas constantemente. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Como não se está mais em busca da pura e simples aquisição de conteúdos, e sim do desenvolvimento de habilidades e competências, é preciso desenvolver e investir em “instrumentos que mobilizem as habilidades e processos que avaliem o dia a dia das aulas e permitam monitorar a compreensão dos alunos”, diz Filomena. Então, nada de padronizar, lançando mão da prova tradicional somente. Avaliar implica observar e buscar evidências em relação à aprendizagem, além de ter tudo isso alicerçado em critérios-chaves do que se espera que os alunos entreguem e em boas devolutivas para eles. 

Diagnóstico inicial é o norte

Quando a rede estadual cearense apresentou aos professores do Ensino Médio o programa Foco na Aprendizagem, uma plataforma para fazer a avaliação diagnóstica dos alunos, a pandemia ainda nem era assunto no Brasil. Era fevereiro de 2020, início do ano letivo. Depois de os estudantes responderem às questões de Língua Portuguesa e Matemática, os docentes tiveram acesso a gráficos com os resultados por turma, por ano e por descritor. Pouco tempo depois, as escolas tiveram de ser fechadas por causa do coronavírus. 

“Nunca foi tão útil ter acesso ao que os estudantes sabiam e o que precisavam rever e aprender. A avaliação diagnóstica da rede ajudou a nortear o planejamento do ano e focar mais no processo, nas aulas”, explica Veriana da Cruz Araújo, professora de Língua Portuguesa da EEMTI Maria Celeste de Azevedo Porto, em Trairi, município da região metropolitana de Fortaleza (CE). No início de 2021, ainda com todas as turmas em casa, a avaliação diagnóstica foi novamente realizada – desta vez, a distância. Veriana conta que as escolas fizeram um movimento grande para nenhum aluno deixar de responder às questões, inclusive ampliando o prazo para entrega. 

Retrato fotográfico produzido remotamente por via chamada com a professora Adriana Tárcia durante a avaliação de trabalhos enviados pelos alunos.
Adriana diz que aprendeu a avaliar os jovens e seu protagonismo; no projeto, considerou as pesquisas entregues, a participação e a interação dentro e fora das aulas. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Também por causa da pandemia, agora a prova tradicional tem peso menor na média dos estudantes. Adriana Furtuoso da Silva, coordenadora pedagógica da escola, conta que alguns professores chegaram a pensar que nem faria sentido manter esse tipo de avaliação, porque os alunos, em casa, iriam colar. “Fizemos um processo formativo para ressignificar o objeto. Qual o problema em deixar o aluno pesquisar? Nós, como educadores, pesquisamos também. A chave está em evitar perguntas diretas e apostar em questões mais contextualizadas e desafiadoras, que façam a garotada investigar, pensar”, diz ela. 

De quebra, manter a época de provas foi uma maneira de reaproximar estudantes ausentes. “Quando ficam sabendo, eles se preocupam em não faltar. Provas funcionam como uma estratégia de busca ativa”, diz. Veriana explica que a escola já tinha o hábito de diversificar as avaliações. Agora, o processo está mais rico. São consideradas a interação, a devolução de atividades, a participação nas aulas síncronas, o compromisso com as tarefas e a realização dos trabalhos, além do conteúdo em si, sempre com a preocupação de engajar os alunos. “Jogos, formulários, aulas online, trocas nos grupos de WhatsApp – pensamos em variar os formatos para não diminuir o interesse deles”, explica ela. E mais: são levados em conta os chamados perfis de interação. “Como nem todos têm condições de acesso à internet com qualidade, cada caso é um caso. Precisamos respeitar e ajudar quem só consegue pegar o celular do pai à noite para estudar, por exemplo”, diz a professora.         

Avaliando as raízes do Brasil

Em meio à pandemia, o estado do Amapá ficou às escuras por vários dias nos meses finais de 2020, em consequência de um apagão do sistema de energia elétrica local. Sem condições de manter as aulas por qualquer forma, quando voltaram à ativa, ainda que a distância, os professores se viram numa escuridão pedagógica. 

Em dezembro, como e por onde recomeçar? Foi então que, sempre amparados pela coordenação pedagógica, os docentes resolveram abrir mão da avaliação formal – afinal, o que avaliar depois de um mês sem interação? – e criar relações do que havia acontecido com cada disciplina. Cada aluno pôde se expressar a respeito do ocorrido no estado e de como enfrentou a situação criando histórias em quadrinhos, desenhos, memes, paródias etc. Todas as produções foram orientadas pelos professores para terem o currículo de cada disciplina como base. “Se tivéssemos insistido em avaliações formais, os estudantes não teriam alcançado resultados considerados satisfatórios tradicionalmente. Fizemos algo muito mais produtivo”, diz Adriana Tárcia de Souza Oliveira, professora de Filosofia e de Projeto de Vida da EE Maria do Carmo Viana dos Anjos, em Macapá (AP). 

Retrato fotográfico produzido remotamente por via chamada com a professora Adriana Tárcia durante simulação de processo de avaliação.
Junto com colegas da escola, a professora conduz o projeto multidisciplinar Raízes, que instiga os estudantes a procurarem informações e documentos para construir árvores genealógicas. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Em 2021, a escola novamente apostou no protagonismo dos alunos e num jeito de trabalhar e avaliar que reúne várias disciplinas. “O Novo Ensino Médio transformou nossas práticas para melhor. Não abandonamos a avaliação formal para sempre, mas aprendemos a avaliar o dia a dia dos alunos, o que eles falam”, explica Adriana. Ela e os colegas que lecionam Língua Francesa, Arte, História e Biologia estão à frente do projeto Raízes. A proposta é que cada estudante investigue a fundo suas raízes buscando informações com familiares próximos e distantes e se apoiando nas aulas de cada uma das disciplinas, como a importância dos documentos históricos, os hábitos culturais da região, a influência do francês… 

“A pandemia nos fez conhecer a realidade de cada um. Não podemos desestimular os alunos; pelo contrário, eles precisam de desafios”, conta Cleide Gomes Silva dos Santos, coordenadora pedagógica da escola Maria do Carmo. Como produto final do projeto Raízes, cada um criou a árvore genealógica da sua família. Durante o processo, foram avaliadas a participação e a interação durante as aulas, a entrega de pesquisas e os contatos feitos para tirar dúvidas. 

Adriana diz que faz menos sentido olhar para uma prova e dizer que o aluno não sabe, que não aprendeu. Ela defende usar esse trabalho mais elaborado e investigativo para compará-lo com tudo mais o que foi feito ao longo do ano e prevê: “Voltaremos todos diferentes para a escola quando as aulas forem retomadas, e rever as avaliações vai ser uma necessidade constante. Isso é ótimo.”

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