Educação Infantil: desafios e experiências ao falar sobre diversidade com crianças e famílias

O diálogo com pequenos e com os seus familiares sobre a temática LGBTQIA+ pode e deve ser estimulado, para assim consolidar uma formação cidadã e combater todo o tipo de preconceito, intolerância e violência

POR:
Evandro Tortora
Crédito: Getty Images

Falar sobre diversidade na Educação Infantil ainda parece ser um tabu. Para algumas famílias, vários fatores podem complicar esse diálogo, geralmente influenciados por crenças pessoais que acabam interferindo nas percepções. Não é diferente para algumas professoras ou professores, que acabam evitando essa conversa pelos mesmos motivos, ou ainda, por não saberem muito bem como lidar com questões relacionadas à diversidade nas composições familiares.

No entanto, é sempre fundamental lembrarmos do ensinamento de Paulo Freire: todo ato educativo é um ato político. Não estamos falando aqui em política partidária, mas sim,  ampliando esse conceito de política para pensarmos na formação cidadã das crianças. Nesse caso, devemos assumir um compromisso de combate à intolerância, à discriminação e à violência desde a Educação Infantil.

Sabemos que existe uma diversidade de configurações bastante grande quanto à composição das famílias: há aquelas crianças que vivem apenas com a avó, outras só com a mãe, ou ainda com o pai, tios, com duas mães, dois pais… Assim, falando dessa diversidade, gostaria de dialogar nesse texto especificamente sobre aquelas famílias que possuem membros da comunidade LGBTQIA+. Estamos nos referindo aqui às crianças que partilham do amor de famílias compostas por lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgêneros, travestis, queers, intersexuais, assexuais, ou outros grupos e variações de sexualidade e gênero. 

O combate ao preconceito se inicia desde muito pequeno! Por isso, como podemos abordar discussões relacionadas à diversidade com as crianças? E de que forma podemos incluir as famílias nessas discussões? Sabemos que, em alguns casos, isso não é nada fácil! Porém, gostaria de compartilhar um pouco das minhas vivências nesse tópico, e ressaltar o importante papel da instituição de Educação Infantil nesse contexto. 

Polêmica em sala de aula: estratégias para vencer o medo

Nesse curso de NOVA ESCOLA, apresentamos reflexões e estratégias de trabalho escolar com temas que podem ser polêmicos, mas que estão previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e que muitas vezes têm respaldo até na legislação nacional para serem trabalhados em sala de aula

Compartilhando uma conversa com as crianças

Primeiramente, gostaria de compartilhar com vocês uma vivência que aconteceu comigo em uma sala com crianças de 3 anos de idade. Na época, estávamos em roda conversando sobre as famílias delas, que estavam relatando para mim com quem elas viviam em suas casas. Algumas crianças diziam que moravam com os avós, outras junto dos tios, algumas apenas com o pai e a mãe, e outras com famílias bem grandes morando sob o mesmo teto: tios, avós, pai e mãe. 

Naquela ocasião, nenhuma das crianças da turma tinha pais gays ou mães lésbicas, por exemplo. Seria então essa uma temática a ser ignorada? Eu deveria esperar que uma professora, no futuro, abordasse o assunto com as crianças? Seria mais apropriado levantar a discussão apenas se as próprias crianças apresentassem questionamentos sobre essa temática? Acredito que a resposta seja ‘não’, em todos esses casos. 

Somos um dos países que mais pratica violência e intolerância contra a comunidade LGBTQIA+, o que por si só já é um motivo mais do que suficiente para abordarmos esses questionamentos em qualquer instituição educativa.  Pensar em uma educação que combata os preconceitos e valorize a diversidade torna-se, dessa forma, algo de extrema relevância para mudar esse cenário.

Voltando à vivência com as crianças, incluí em nossa conversa a discussão de que existem famílias com dois pais ou duas mães, e que eles se amam e cuidam dos seus filhos. Naquele momento, um menino que era criado pela sua avó voltou os seus olhinhos arregalados para mim e disse: “Como assim DOIS pais!? Eu não tenho nenhum! Deve ser MUITO legal!”.

Eu fiquei tão comovido com aquele comentário! Na hora pensei comigo mesmo que o preconceito é realmente algo aprendido, e que podemos contribuir para combatê-lo a partir das nossas ações. Começamos, então, um diálogo super legal naquela roda de conversa, falando sobre ter duas mães ou dois pais – ou seja, o fato de eu ter conseguido colocar esse tema na roda estimulou a curiosidade dos pequenos! E mais: acho muito pertinente dizer que, em nenhum momento, as crianças voltaram os olhares desconfiados ou fizeram comentários preconceituosos. 

Diálogo com as famílias na pandemia: estratégias para engajá-las

A eclosão da pandemia exigiu que as escolas, mais do que nunca, envolvessem as famílias na Educação das crianças – e é a partir dessa premissa que esse curso de NOVA ESCOLA apresenta reflexões, sugestões e possibilidades para construir um diálogo cada vez mais eficiente com pais e responsáveis.

Diálogo com famílias e crianças deve ser estimulado

Outros tantos diálogos com os pequenos sobre esse assunto transcorreram ao longo da minha trajetória na Educação Infantil, e as crianças sempre foram super receptivas, atentas e curiosas – o que é ótimo. No entanto, os maiores desafios aparecem no momento de estimular o diálogo com as famílias. Nesse caso, temos duas escolhas: ou abdicamos do nosso papel e não estimulamos esse diálogo, ou defendemos o nosso posicionamento como formadores de cidadãos, sustentando os princípios de combate ao preconceito e estimulando essas conversas necessárias. Eu fico com a segunda opção!

Após conversar com algumas colegas professoras sobre esse assunto, ouvi delas muitas vivências ruins ao abordar questões de combate ao preconceito contra a comunidade LGBTQIA+. No caso, as colegas relatam falta de compreensão das famílias quanto às suas ações, e mesmo opiniões preconceituosas por parte de alguns pais e responsáveis. Infelizmente, alguns costumam relacionar essas discussões à chamada "ideologia de gênero”, uma discussão que não é reconhecida pelo âmbito acadêmico e que, a meu ver, tem sido usada para isentar a escola da sua obrigação de acolher a diversidade de identidade nas suas práticas. 

O dia 28 de junho foi marcado como uma data em que se celebrou o orgulho LGBTQIA+, sendo um dia bastante propício para conversar com as crianças sobre esse assunto – mas é claro que não devemos perder de vista que a temática de diversidade deve ser discutida nas escolas ao longo de todo o ano.

Apresentadas essas reflexões todas, reconheço que estamos diante de um cenário complexo, mas precisamos ter o ensinamento de Paulo Freire em mente, e nos esforçar para construir objetivos claros de combate ao preconceito, tendo em mente que são temas que precisam ser discutidos com as crianças e suas famílias na busca por uma formação cidadã. Além disso, é fundamental estimularmos um ambiente de acolhimento às diversas famílias que são nossas parceiras na educação das crianças.

E você, como acha que poderia estimular esse diálogo com os pequenos? Nunca se esqueça de que, ao pensar nessas questões, é interessante pensar também em estratégias para envolver as famílias nesse debate, para que tenham clareza da sua intencionalidade, e para contar com a parceria delas!

É nisso que eu acredito, e convido você a continuar essas discussões ao longo de todos os dias do ano! Viva a diversidade – que é inerente à condição humana.

Um abraço carinhoso e até breve!

Evandro

Evandro Tortora é professor de Educação Infantil há 7 anos na Prefeitura Municipal de Campinas, licenciado em Pedagogia e Matemática e doutor em Educação para Ciência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru. Além da docência na Educação Infantil, tem experiência com pesquisas na área da Educação Infantil e Educação Matemática, bem como desenvolve ações de formação continuada para professoras e professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.