Planejamento: como montar o quebra-cabeça das atividades híbridas

Aprendizagem colaborativa, uso de metodologias ativas e otimização dos momentos presenciais são fundamentais para o avanço da aprendizagem dos alunos na retomada gradual

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

Alunos que não tiveram acesso ao ensino remoto; aqueles que não conseguiram aproveitar ou não avançaram até certo ponto; quem optou por ainda não retornar; os que estão em casa graças ao revezamento, mas que não se engajam nas atividades remotas. Essas são algumas das muitas variáveis que estão em jogo no trabalho pedagógico durante a retomada presencial. 

Assim, nesse retorno, o professor precisará montar um quebra-cabeça levando em consideração a complexidade do cenário e as dificuldades e níveis de aprendizagem de cada estudante e, ainda, dar conta do que está previsto para 2021 para conseguir o que todos os educadores querem: os alunos aprendendo e avançando. "Tem de pensar em como alcançar todos, mas respeitando a individualidade [e as necessidades] de cada um", resume Flávia Pereira, professora de 5º ano na escola Estadual Profª Minervina Sant'Anna Carneiro, em Lins (SP). 

Um bom planejamento será essencial para chegar a esse objetivo. "Ele é fundamental em qualquer situação, mas, neste contexto, é ainda mais importante. É preciso considerar as diferentes realidades e organizar as atividades para cada momento e grupo", aponta Fátima Fonseca, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa CEDAC. 

Para conhecer a dimensão do desafio, conversamos com educadores que já retornaram de forma presencial à escola. Eles contam sobre os caminhos que encontraram, dentro de suas realidades, para planejar as atividades no contexto híbrido.

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O desafio de superar defasagens e engajar os alunos na retomada gradual
Na Escola Municipal Prefeito Leonardo Reale, em Ilhabela (SP), Sueli Antunes é professora de uma turma do 2º ano do Ensino Fundamental e, desde fevereiro, está trabalhando de forma presencial. A turma foi dividida em três grupos. Os alunos que estão frequentando a escola presencialmente  intercalam os dias, isto é, vão um e ficam dois em casa. Quando vão à escola, eles trazem as atividades impressas para os dois dias que permanecerão em casa. "São propostas que complementam o trabalho em sala de aula", explica a educadora. Sueli reserva também um tempo para atender as famílias e tirar dúvidas sobre as atividades. Apenas um dos aluno da turma permaneceu 100% no formato remoto. 

Ela diz que chegar no tipo de atividade mais adequada para os alunos foi um processo. "Tive de me adequar. No começo, eu mandava um monte de atividades, porque queria um resultado rápido, mas percebi que preciso respeitar o tempo de cada um aprender". Por isso, o (re)planejamento é contínuo. “A cada 15 dias, fazemos um planejamento com base no que o aluno conseguiu aprender naquele período. Além disso, também temos um planejamento semanal para cada grupo", detalha a educadora. "Não podemos deixar ninguém para trás, todos devem ter a mesma oportunidade".

Sueli observa que o tempo reduzido com os alunos impactou no quanto eles conseguiram progredir. "Foi um avanço significativo, mas não foi o mesmo que esperávamos de um 2º ano. A alfabetização precisa de intervenções diárias, mas acabou sendo um processo interrompido". Para os alunos que passaram por um 1º ano em que tiveram pouco aproveitamento por causa das dificuldades para participar das aulas, a professora está focada em avançar na alfabetização. "É como se eles tivessem vindo direto da Educação Infantil para o 2º ano. É difícil colocar na cabeça de uma criança de 7 anos que o 1º ano já passou".

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No caso de Alaíde Rodrigues da Silva, professora do 1º ano do Fundamental na Escola Municipal Professora Ivone Nunes Ferreira, no Rio de Janeiro (RJ), o cenário é diferente.  Por ser uma turma do 1º ano, não há problemas com defasagem. O desafio está em engajar os alunos e famílias para manter uma frequência assídua. "Continuamos com a busca ativa. Hoje tenho 45% da turma que está muito bem, vem direitinho, as famílias dão apoio e estão conseguindo avançar bem na alfabetização. Mas outros 55% estão participando pouco", conta a educadora. A turma está dividida em dois grupos, e o escalonamento é semanal. Quem está de forma remota realiza as atividades que são enviadas por WhatsApp.

Essa diferença na participação impacta no planejamento da professora. "Para quem está acompanhando bem, consigo seguir com o que está planejado para o ano", diz a educadora. Para o outro grupo, ela precisa revisar os planos e dar um suporte maior. "Eles recebem uma apostila para fazer em casa, eu a adapto a realidade do grupo".

Já para os Anos Finais do Fundamental e do Ensino Médio, entre os  maiores desafios estão engajar os estudantes e tornar a escola um lugar atrativo para eles, conforme aponta Edson Modesto, professor de Ciências, Física e Química na Escola Estadual Vitalina Maria de Jesus, em Araripina (PE).

O que muda no planejamento?
No caso da professora Leda Nardi, que dá aula de História para turmas de Ensino Fundamental 2 na rede pública de São Luiz do Paraitinga (SP), a experiência do retorno foi curta. A escola permaneceu aberta por apenas duas semanas, por causa do agravamento da pandemia no município. Nesse período, aproveitou parte do tempo em sala de aula com os alunos para fazer dinâmicas de acolhimento e escuta. “Pedi que escrevessem uma carta sobre a experiência da pandemia e do isolamento social como uma forma de criar um documento histórico", explica. "Eles relataram perda de parentes, fome, medo, desemprego. Senti a necessidade de cuidar do emocional", complementa. 

A professora conta que em uma nova retomada presencial gostaria de ter flexibilidade para inovar e testar novos formatos. "Acredito que é uma oportunidade para quebrar essa lógica do conhecimento fragmentado e aproveitar os aprendizados que tiveram no período com as famílias, tirando também a ideia que foi um tempo perdido. A escola estava muito distante da vida real.”

É nessa linha o trabalho realizado pela professora Flávia, de Lins (SP). A educadora parte das habilidades e aprendizagens prioritárias para 2021 e utiliza metodologias ativas como a gamificação e a aprendizagem baseada em problemas. "Não dou nada pronto, mas a gente vai debatendo e fazemos uso da tecnologia a favor da aprendizagem. Eu oriento e eles vão trilhando". A professora ressalta que há uma aprendizagem colaborativa, em que os alunos trocam conhecimentos e compartilham informações.

 

Segundo a coordenadora pedagógica Fátima, do CEDAC, pensar em agrupamentos que favoreçam a aprendizagem e a troca de conhecimento entre os alunos pode ajudar no planejamento. "Os grupos se fazem necessários pelos protocolos, mas podemos pensar em agrupamentos dentro das necessidades de cada criança", afirma. Ela entende que esse trabalho pode acontecer dentro de uma mesma turma ou entre alunos de um mesmo ano. Para possibilitar essa estratégia, é necessário troca e trabalho colaborativo entre os educadores. "O planejamento tem que ser coletivo, porque sozinho o professor não vai conseguir". 

Para pensar o planejamento
Fátima, do CEDAC, sugere que o professor se inspire nas modalidades organizativas de Delia Lerner, reconhecida educadora argentina, para o planejamento das atividades híbridas

As modalidades organizativas foram pensadas para a alfabetização e consideram três grandes tipos de atividades em sala: as atividades permanentes, as sequências didáticas e os projetos didáticos. "Eu pensaria o planejamento dessa forma para ter uma melhor gestão do tempo", explica Fátima.

As modalidades organizativas, segundo Delia Lerner, permitem dar uma unidade ao conhecimento e amarrar tudo que está sendo trabalhado com os alunos para ajudá-los a criar relações entre o que está sendo estudado. De forma geral, as atividades permanentes são as propostas recorrentes que estarão inseridas na rotina das crianças de forma semanal ou quinzenal. Já a sequência didática diz respeito àquelas com início, meio e fim, em que cada atividade é uma continuidade da anterior. Por fim, o projeto didático inclui as atividades que têm um produto final e um objetivo amplo. Entenda mais sobre a proposta e como ela acontece na prática.

A especialista também chama a atenção para uma ideia trazida por outra pedagoga argentina, Flora Perelman. "É a ideia de uma memória de aula. Os professores documentam tudo que foi ou está sendo trabalhado, e esses registros são compartilhados com os alunos". Ela destaca que é uma forma de retomar o que foi visto e antecipar o que será discutido. "O professor vai e volta nos conteúdos. Ter essa memória ajuda nesse sentido", complementa. Para construir essa memória, é possível utilizar ferramentas digitais, como o Padlet, ou procurar formas offline para garantir o acesso de todos os alunos. "O importante é que o registro seja compartilhado com todos e que eles possam consultar e estar em contato com esse histórico", afirma Fátima.


Novas estratégias para o contexto híbrido
Uma solução utilizada pela professora Flávia, para aumentar o engajamento da turma, foi transmitir parte da aula presencial pelo Google Meet para quem está em casa. "Era uma turma que não dava devolutiva. Antes havia uma participação de 60% dos alunos, hoje são mais de 90%", conta. Com esse aumento do engajamento, a professora avalia que a aprendizagem deve melhorar. Atualmente, a turma está dividida em cinco grupos, de modo que cada aluno vai à escola uma vez por semana. No entanto, quem não têm acesso à internet pode ir mais vezes.

A rotina diária de Flávia funciona da seguinte forma: a parte inicial da aula é dedicada a verificar, revisar e aprofundar as atividades que os alunos realizaram em casa. "A gente conversa sobre o que foi passado, tiro dúvidas, debatemos e um ajuda o outro", conta a educadora. Durante esse período, quem está em casa realiza as propostas preparadas pela professora e assiste às aulas do Centro de Mídias. Depois, começa a aula ao vivo com parte da turma presencial e a outra em casa. Nesse momento são realizadas atividades inéditas e há momentos de interação virtual entre a turma e a professora.

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A estratégia encontrada pelo professor Edson foi se inspirar na sala de aula invertida para preparar as atividades presenciais. "Eu coloco questões norteadoras, um vídeo, foto ou material em PDF para que eles já venham sabendo o que será trabalhado em sala", explica. Os alunos têm acesso ao conteúdo previamente e, no momento presencial, o foco é em exercícios, experimentos e dinâmicas práticas. "Eles ficam livres de manhã para ir à escola, elaborar projetos e adiantar a aula para aproveitar ao máximo o pouco tempo que temos juntos". 

Com um tempo limitado com o aluno, é fundamental planejar as propostas do momento presencial e aquelas que o aluno pode fazer em casa com maior autonomia para fortalecer ou colaborar com o desenvolvimento das habilidades trabalhadas em sala. "O que mais sentimos falta no ensino remoto foram as interações, por isso temos de otimizar o tempo presencial e propor situações que nos permitam fazer nossas intervenções”, reflete Fátima. “É um quebra-cabeças, mas não é nada novo. É se organizar em relação ao que já sabíamos, entender o que priorizar e quais são os momentos em que o presencial é fundamental”, completa. 

Nas turmas do professor Edson, de Araripina (PE), por volta de seis e sete alunos estão frequentando a escola presencialmente. Quem não retornou recebe as atividades impressas ou pode acessá-las pelo Google Sala de Aula. Para conseguir atender quem está no remoto, o tempo de aula diminuiu de 50 para 30 minutos. Semelhante à professora Flávia, o educador também teve a iniciativa de gravar trechos da aula presencial e disponibilizar, de forma assíncrona, para quem está em casa. 

O professor conta que as atividades são iguais para todos os alunos, mas, com aqueles que frequentam o presencial, ele consegue se aprofundar mais. As propostas partem de questões cotidianas e são um roteiro que guia o aluno a destrinchar determinado assunto. “O estudante é protagonista do próprio conhecimento, eu ajudo a nortear”, destaca. "Na minha área de Exatas, essa parte prática, de ensino por investigação, não pode faltar no planejamento".

6 conteúdos de NOVA ESCOLA para apoiar o planejamento
Confira alguns materiais que podem ajudar e inspirar a organização das atividades do segundo semestre de 2021

1. O que ensinar em 2021?
É provável que você já tenha ouvido falar dos Mapas de Foco da BNCC, criados pelo Instituto Reúna. Em parceria com ele, a NOVA ESCOLA desenvolveu dois e-books gratuitos com um resumo dos objetivos de aprendizagem e das habilidades essenciais para o Ensino Fundamental.

2. Planos de aula prioritários
Para complementar os e-books do tópico anterior, não deixe de conferir e pesquisar entre os mais de 7 mil planos de aula relacionados às habilidades essenciais. Você também encontrará uma aba com sugestões para adaptar as atividades para o ensino remoto.

3. Inspire-se nos modelos de ensino híbrido para pensar no planejamento
O ensino híbrido e o semipresencial são coisas diferentes. No entanto, nesse contexto de retomada gradual, é possível se inspirar nos modelos da metodologia ativa para avançar nas aprendizagens — e, quando o ensino 100% presencial for possível, caminhar para um ensino personalizado. Veja uma trilha de cursos gratuitos com mais de 50 horas de formação e reportagens especiais gratuitas sobre o tema.

4. Para saber mais sobre as ferramentas digitais
Desde o início da pandemia, preparamos diversas formações gratuitas focadas em apoiar você, professor, a conhecer e explorar recursos tecnológicos. Se estiver procurando dicas para planejar e inovar no ensino remoto ou semipresencial, não deixe de baixar gratuitamente nosso manual de ferramentas digitais.

5. De olho nas competências socioemocionais
O planejamento deve prever momentos voltados para o desenvolvimento socioemocional das crianças — em especial diante dos desafios impostos pela pandemia. Pensando nisso, confira o especial de reportagens gratuitas para professores e gestores.

6. Replanejamento do 2º semestre
No Nova Escola Box, os assinantes podem encontrar semanalmente conteúdos inspiradores para colocar em prática com turmas da Educação Infantil ao Fundamental 2. Para o planejamento do 2º semestre e o retorno presencial em diversas redes de ensino, confira os conteúdos para professores e gestores dos Anos Iniciais do Fundamental e para os educadores dos Anos Finais. Entenda também quais são os cuidados necessários para receber as crianças da Educação Infantil