Materiais impressos e outras propostas: os desafios do trabalho remoto com alunos que não têm acesso à internet

Três professoras de escolas públicas relatam as estratégias que usaram para contornar a falta de tecnologia e conectividade, o que funcionou nesse processo e os aprendizados que tiveram

POR:
Victor Santos
Crédito: Getty Images

“Aqui em Medicilândia, no estado do Pará, nós estamos em uma cidade muito pequena, distante [916 quilômetros] da capital Belém. Então, quando as escolas fecharam e se falou em ‘ensino remoto’ ou ‘ensino híbrido’, foi um susto muito grande para os professores. Ficava a pergunta: será que vai dar certo aqui no interior, onde a internet não funciona muito bem e nem todos os alunos têm esse acesso?”.

Esse depoimento da professora Marineide Amaral da Cruz, que é educadora há 29 anos e atua na Escola Municipal de Ensino Fundamental Francisco Aguiar Silveira, traz uma síntese do que passou pela mente de muitos docentes em março de 2020, quando as escolas precisaram interromper as atividades presenciais e transferir todo o processo de ensino e aprendizagem para o modelo remoto emergencial.

Embora ferramentas tecnológicas tenham sido utilizadas, sobretudo pelas redes estaduais, pesquisas mostram que estratégias off-line, como a entrega de materiais impressos, aliadas ao uso do WhatsApp, foram essenciais para conseguir manter a Educação de pé, principalmente em localidades onde os alunos tinham pouca ou nenhuma conectividade ou acesso a recursos tecnológicos.

Estudo realizado pela União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), em parceria com Itaú Social e Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (Unicef), apontou que quase todas as redes municipais adotaram o uso de materiais impressos (95,3%) e orientações por WhatsApp (92,9%). As videoaulas gravadas aparecem bem atrás, na terceira posição, com 61,3%. A pesquisa cobriu 3.672 municípios brasileiros, que reúnem 14,8 milhões de estudantes,

A seguir, três professoras de escolas públicas, de cidades do interior de diferentes regiões do país, contam como se deu o trabalho de elaboração e entrega de materiais impressos, apoiado, quando possível, por estratégias de comunicação remota. As educadoras fazem um balanço sobre os principais obstáculos e as maiores descobertas nesse processo complexo de manter as aulas acontecendo sem o contato presencial da sala de aula.

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Atividades impressas e o apoio do WhatsApp

Depois das preocupações iniciais com a necessidade súbita de uso de ferramentas digitais, ainda mais para a realidade das escolas localizadas no interior do país, a professora paraense Marineide relata que muito trabalho se seguiu conforme a pandemia se espalhava pelo Brasil. No caso da sua escola, o foco principal foi a consolidação de um esquema de produção e envio de materiais para que as aulas continuassem de alguma maneira.

“Nosso trabalho se organizou assim: primeiro, fizemos um planejamento em cima da BNCC. Em seguida, elaboramos o plano de aula e selecionamos atividades pensando naquilo que poderia facilitar a aprendizagem do aluno”, sintetiza a educadora, que leciona os componentes curriculares de Arte e Ensino Religioso para alunos do Ensino Fundamental 1. Na sequência, foram produzidos materiais e enviados aos grupos formados com os pais e alunos no WhatsApp. “Mas, aqui na escola, temos muitos alunos da zona rural que não têm acesso à internet. Então, é uma dificuldade muito grande”, completa.

Nesses casos, ela explica que são organizadas apostilas impressas. “Montamos tudo encadernadinho e bonitinho, e os pais vão até a escola retirar o material e assinam um documento confirmando que estão pegando aquela atividade para os seus filhos”.

Alinhar essas datas para a retirada do material foi mais um dos muitos fatores que a escola precisou coordenar. “Em 2020, começamos com entregas de 15 em 15 dias. Mas, após as queixas de alguns pais, este ano estabelecemos retiradas de 25 em 25 dias. Houve um avanço na adesão e, agora em 2021, só 10% dos alunos não entregaram as atividades para o fechamento de junho”, conta. “Em alguns casos em que os pais não conseguiam efetuar a retirada, a escola chegou a ir até a casa dos estudantes para entregar as atividades impressas.”

Para além dessas questões logísticas, a professora também precisou, em conjunto com a equipe da escola, dedicar especial atenção às propostas de atividades, equilibrando os conteúdos necessários e aqueles passíveis de serem feitos remotamente. “Alguns pais questionavam se estavam fazendo o papel do professor. Não era isso, e a gente orientava e explicava o que deveria ser feito”, relembra a educadora. “Nas aulas de Artes, por exemplo, tentamos ajudar os pais a compreender que dentro de casa há várias formas geométricas. Também passamos orientações para um trabalho com tinta guache e usando coisas que tem no quintal, como folhas e borboletas”.

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Além dessas explicações detalhadas, foi preciso investir em um trabalho em conjunto com outros componentes curriculares e na exploração dos recursos que eram possíveis. “No desafio das avaliações a distância, tentamos ajudar um pouco os professores de Língua Portuguesa, trabalhando com Teatro e Literatura junto com Artes, em exercícios que pedíamos para que contassem a história da peça em formato de desenho”, relata Marineide. “Também trabalhei muito com áudio. Percebi que ajudava mais as crianças do que o vídeo, que ainda ocupava muito a memória dos celulares das famílias. Deu muito certo, e as próprias crianças começaram a me responder, com dúvidas do tipo ‘como se faz isso?’ e mensagens como ‘estou com saudade’. Ter a ‘voz’ em meio às explicações ajudou muito”.

Combinação de estratégias on-line e off-line

Na pequena cidade de Iperó (SP), que fica a 127 quilômetros da capital paulista, a Escola Municipal Professor Roque Ayres de Oliveira está localizada entre as áreas urbana e rural e atende alguns estudantes que possuem conexão limitada à internet. Com a interrupção das atividades presenciais em 2020, a solução encontrada pela escola também foi conciliar estratégias on-line e off-line.

“Minhas 12 salas de aula viraram 12 grupos de WhatsApp. De 2020 até agora, estamos enviando propostas por meio da plataforma e, em alguns momentos, imprimimos as atividades para os pais retirarem”, conta a professora Luciane Nunes Cardoso, que leciona Educação Física para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental 1 e 2.

Assim como mencionou a professora paraense Marineide, Luciane conta que a sua escola também precisou montar todo um cronograma para que os professores elaborassem as atividades, consolidando tudo em um PDF com explicações e propostas, e os entregasse a tempo para a impressão. “Combinávamos depois as datas de retirada, e havia o dilema de os pais terem um prazo para devolver essas atividades, porque nós professores precisamos lançar as notas no sistema. A organização de 2020 foi complicada”.

Aos poucos, as coisas foram se ajeitando dentro do possível, com combinados para que os professores não precisassem mais atender aos pais até tão tarde da noite, e com a introdução de alguns aplicativos que tornaram o trabalho docente um pouco menos complexo. Ainda assim, nesse processo, Luciane se viu diante de alguns dilemas.

“Educação Física tem muita prática, então é bem difícil propor atividades em alguns momentos. Mas, com os alunos que podiam receber devolutivas em áudios e vídeos, deu certo, porque você consegue fazer uma intervenção e avaliar. O duro é quando o aluno não devolve as atividades, porque aí fica muito difícil avaliar as aprendizagens”, aponta a professora. Ela procurou algumas estratégias para impulsionar a realização e a entrega de suas propostas. “Aprendi que o formato PDF atendia a todos. Um recurso útil foi fazer um vídeo mostrando o PDF e dando as orientações da aula. Dessa forma, eles leem e ouvem a minha explicação, o que facilita”.

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Elaboração cuidadosa do material e devolutivas

Essas dificuldades ao lecionar Educação Física também apareceram no dia a dia da professora Rosemeire Ferreira dos Santos Aoki, que trabalha com alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental 1 na Escola Municipal Olinda Dias Pereira, em Sarandi (PR), e na Escola Municipal Dr Eurico Jardim Dornellas de Barros, em Marialva (PR). “Eu pensava em como poderia passar uma atividade em que o aluno não correria o risco de se machucar. Porque, no presencial, eu estava ali o tempo inteiro de olho”, salienta.

A solução, para ambas as escolas em que atua, foi investir na elaboração de propostas que incluem teoria e prática e podem ser realizadas remotamente. “A gente trabalha em cima da BNCC e vai montando tudo conforme os objetivos e o conteúdo programático. No caso da Educação Física, olhamos para esporte, jogos e brincadeiras, analisamos e, seguindo os objetivos da Base, montamos as aulas”.

Depois dessa elaboração, segue-se um esquema de organização, impressão e entrega dessas atividades aos pais, em dias pré-determinados, além de algumas entregas nas casas daqueles que não puderam retirar o material. Por conta das dificuldades de acesso às tecnologias por parte de muitos dos seus alunos, Rosemeire comenta que o retorno que recebe dessas atividades impressas é bem maior do que as devolutivas em outros formatos. No entanto, elaborar o material impresso acrescenta uma dose extra de dificuldade à educadora.

“Na produção dessas atividades, eu preciso me esforçar para escrever da forma mais simples possível, de modo que os alunos possam acompanhar. Mas, ao mesmo tempo, é preciso acrescentar nesse texto algumas coisas que, em sala de aula, eu apenas falaria”, observa a professora. “E esse ‘resumo do resumo’ precisa ser claro e caber em uma folha”.


Descobertas e aprendizados ao longo do processo

Apesar das muitas complexidades envolvidas desde o estabelecimento do ensino remoto emergencial, Rosemeire ressalta algumas experiências interessantes das devolutivas. “Para os alunos que têm um pouco mais de acesso, tenho observado, principalmente em relação às crianças do Infantil, que elas amam as aulas de Educação Física pelo WhatsApp. É muito bom receber os vídeos com as atividades e ver que os pais também participaram”.

A professora Marineide, de Medicilândia (PA), também destaca as boas surpresas que teve. “Fiquei impressionada como alguns alunos, que no presencial tinham dificuldades, deram um show nas devolutivas em áudio, fotos ou vídeo”, recorda.  “Por aqui, nós temos muita argila, então propus atividades remotas de Artes envolvendo esse material. Vieram algumas devolutivas incríveis que me surpreenderam muito”.

Ganhos na perspectiva de suas próprias práticas profissionais também foram enfatizados pelas educadoras. “Percebi, do ano passado pra cá, o quanto eu cresci como profissional e como pessoa, desenvolvendo mais curiosidade, otimismo e entusiasmo”, comenta Luciane Nunes Cardoso, de Iperó (SP). “Vejo que aprendi a conhecer melhor os meus alunos e usar as tecnologias no meu dia a dia”, completa a professora Rosemeire.

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