Adaptações e aprendizados do trabalho docente durante o ensino remoto

Quatro professoras da rede pública contam os desafios enfrentados durante a pandemia, como a falta de recursos e o excesso de carga horária, e apontam o que levarão desse período

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

Durante a pandemia, trabalhar de casa não tem sido fácil para os professores. Usando recursos próprios e sem preparo para atuar a distância, os educadores precisaram se reinventar. "Tivemos uma sobrecarga [de trabalho] bancada por nós mesmos. Precisamos aprender algo para o qual não estávamos preparados. Na medida do possível, com erros e acertos, fizemos o possível", resume Nina Paraquett, professora de História, Filosofia e Sociologia para turmas do Ensino Médio no Colégio Estadual Rachel Reid Pereira de Souza, em Macaé (RJ).

O home office (ou teletrabalho) imposto pela pandemia pegou todos de surpresa. Para entender como foi essa experiência para os educadores, a pesquisa Trabalho docente em tempos de pandemia ouviu 15,6 mil professores da rede pública de todo o país em julho de 2020. O levantamento, realizado pelo Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho Docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), aponta que para 90% dos entrevistados o trabalho remoto era uma situação inédita.

Em relação à infraestrutura para realizar o trabalho, o estudo mostrou que 83% dos professores possuem recursos em casa para ministrar aulas não presenciais, no entanto, metade deles compartilha as ferramentas com outras pessoas, ou seja, tem um uso restrito. Entre eles, 91% utilizam o celular para realizar as atividades remotas e 76,6% usam o notebook. Para fazer pesquisas, enviar as atividades ou ter contato com os alunos, 65,3% possuem acesso à banda larga, enquanto 24% usam o plano de dados móveis e 10,4% internet de outro tipo (via rádio ou discada).

Para entender os desafios do trabalho docente, depois de mais de um ano de ensino não presencial, ouvimos quatro educadoras. Elas contam sobre as dificuldades que tiveram, os caminhos que encontraram para contorná-las e os aprendizados que querem levar para o seu trabalho no pós-pandemia. 

O que as pesquisas dizem sobre o trabalho docente durante a pandemia?

Além de compreender o comportamento e percepção das famílias e alunos, levantamentos investigaram a experiência dos professores

Em uma escala de 1 a 5, 52,6% das secretarias municipais de educação classificaram o acesso dos professores à internet como uma dificuldade de nível 3 a 5. O levantamento foi realizado pela União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com apoio do Itaú Social e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), entre janeiro e fevereiro de 2021. 

Durante 2020, a pesquisa Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do Coronavírus no Brasil, do Instituto Península, monitorou os sentimentos dos docentes durante o ensino remoto. Na 4ª fase do levantamento, em novembro, observou-se um aumento da porcentagem de educadores que afirmaram estar cansados e sobrecarregados - 53% e 57%, respectivamente. 

Nesse estudo, os professores também foram questionados sobre o que gostariam de ter para enfrentar um novo período de ensino remoto e isolamento social - como foi o cenário para a maioria das escolas no 1º semestre de 2021. Infraestrutura adequada para o trabalho remoto ficou em 1º lugar, com 63%. Em segundo e terceiro lugares, com 60% e 51%, respectivamente, constaram ter mais conhecimento de estratégias pedagógicas que possam ser feitas remotamente e conhecer as ferramentas tecnológicas.

Pensando nos aprendizados para o pós-pandemia, os professores firmam que, entre os maiores legados, estão a importância de estar aberto a diferentes dinâmicas e tendências de ensino (62%) e de usar tecnologia no processo de aprendizagem (56%).

Jornada tripla e necessidade de se adaptar

Trabalhar de casa não significa que todo o período do dia deve ser ocupado pelo serviço. No entanto, foi o que aconteceu com Alexandra Alves Brandt, professora de 2º ano na Escola Municipal de Ensino Fundamental Núcleo Habitacional Getúlio Vargas, em Pelotas (RS). Segundo ela, o que eram dois turnos (aulas de manhã e à tarde) se tornaram três. "Trabalho até de madrugada. Eu respondo quando eles me mandam mensagem, porque entendo que é o único horário que têm acesso. Se não há esse retorno, desistem". Além de estar disponível quase 24 horas por dia, a professora diz que também manda mensagem diariamente para todos os alunos. "A gente vai insistindo, tenta abraçar e trazer para o contexto da escola, para tentar envolver e chegar na aprendizagem".

A própria escassez de acesso às ferramentas digitais também leva à mudança de horários. "Já optamos por fazer encontros virtuais à noite, porque o celular fica [durante o dia] com um dos responsáveis do aluno", conta Silvane Forti, professora de Educação Infantil e de 3º ano do Fundamental 1 na rede municipal de Serra (ES).

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Esse mesmo problema acontece com Ângela Amorim*, professora de Educação Infantil e de uma turma de 1º ano do Ensino Fundamental na rede pública no interior de São Paulo, que precisa encontrar outros horários além dos que trabalha para se adaptar à rotina das famílias. Além disso, a professora relata que houve um aumento das demandas, pois havia uma percepção, pela gestão e secretaria da escola, de que havia mais tempo disponível. "Como a gente está em casa, não entendem que estamos dando aula e que isso torna-se muito mais trabalhoso e custoso. Não respeitam os nossos horários e querem que a gente faça outras coisas, mande mais relatórios e atenda as famílias".

Hoje, a rede na qual Ângela atua está trabalhando de forma presencial, em um modelo de plantão de dúvidas para atender quem não tinha acesso à internet — seguindo a orientação de receber, por dia, apenas 35% da turma. "Eles querem que estejamos o tempo todo na escola e que tenhamos tempo para atender o WhatsApp, preparar as aulas e postar na plataforma da secretaria", explica a educadora. No entanto, na prática, a maior parte das famílias não enviam os alunos, por isso o trabalho continua remoto.

Uso de equipamentos e conexão

Outro problema relatado pelos educadores diz respeito ao uso de recursos tecnológicos para conseguir trabalhar de forma remota. "Eu tenho uma estrutura pessoal que me permitiu trabalhar com qualidade, mas a gente precisou arcar com esses gastos", afirma a professora Nina, de Macaé (RJ). Ela conta que, recentemente, os professores da sua rede receberam um auxílio para a compra de equipamentos no valor de R$ 1,5 mil. Atualmente, parte de sua carga horária acontece de forma presencial na escola para o atendimento dos alunos em formato de plantão de dúvidas, e o restante da jornada é realizada em casa. "Quando estou na escola consigo usar a internet de lá e não gastar a minha".

Ângela também destaca problemas para usar as plataformas que são disponibilizadas. "Podemos até ter os recursos [oferecidos pela secretaria], mas não são compatíveis [com o aplicativo que deve ser usado]", comenta. Ela explica que a ferramenta adotada em sua rede tem uma série de problemas, entre eles, limitações para o envio de fotos, que servem como a devolutiva das atividades.  "O grupo do WhatsApp não era para ser utilizado este ano, pois há o app da rede. Ele consome pouca internet, mas é pouco prático", avalia.

Para além dos desafios para realizar o trabalho, as educadoras apontam que a falta de engajamento e de acesso dos alunos são outros grandes problemas. "Um estudante que participa já é um sucesso, e comemoramos isso”, ressalta Nina.

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Novas necessidades da profissão

Na rede em que ela atua, cada professor escolheu a estratégia de aulas que adotaria. Nina optou por oferecer, para quem tinha acesso, encontros semanais pelo Google Meet. Especialmente na sua área de humanas, ela avalia que são esses momentos virtuais que funcionam melhor, por permitirem interagir, dar explicações adicionais e debater. Além disso, ela também disponibiliza horários de plantão de dúvidas via WhatsApp.

Quem não consegue participar, retira as atividades impressas produzidas pela secretaria estadual. "O número de alunos que utilizam material impresso aumentou, o que é ruim, porque diminui nosso contato direto", observa a educadora. Este ano, foi disponibilizada uma plataforma que não usa dados móveis, no entanto, a professora percebe que não aumentou o número de alunos participantes.

No caso da professora Alexandra, de Pelotas (RS), para avaliar o trabalho remoto, ela o compara com a experiência que tem ao acompanhar sua filha, que está com aulas online síncronas. "É muito melhor, mas meus alunos não têm essa possibilidade”. Ela conta que a secretaria disponibilizou o uso do Google Classroom, mas não funciona para a realidade dos alunos. 

Os materiais impressos são o tipo de atividade possível para metade da turma. "O planejamento de hoje é uma aula que conseguem fazer sozinhos, é superficial. Não consigo atingir os objetivos que gostaria", afirma. “É difícil, porque se tivessem tido um 1º ano presencial, conseguiríamos dar conta [da alfabetização], mas tiveram um 1º e 2º anos remotos e precários", complementa. 

Com a outra metade da turma, que tem acesso ao grupo no WhatsApp, ela consegue dar explicações adicionais, trocar áudios e conversar por telefone. Apesar dos desafios, ela procura fazer propostas lúdicas que respeitam o conhecimento prévio dos alunos. "As famílias têm sido bem participativas, quem não entende me manda mensagem perguntando", conta a educadora.

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De forma semelhante à Alexandra, a professora Silvane, de Serra (ES), está trabalhando com sequências de atividades que são retiradas pelas famílias nas escolas ou disponibilizadas pelo WhatsApp. Sem a possibilidade de interagir e dar um maior dinamismo às atividades escritas, ela viu que o engajamento das crianças começou a cair. Por isso, buscou aprender a fazer vídeos e usar músicas e imagens. "Foi uma tentativa de aproximar a figura do professor, para que pudessem ver meu rosto".

Nesse desafio, Silvane teve uma professora especial: sua filha de 12 anos. "Ela me incentivou. Conto com a parceria dela nesse trabalho, mas tive que ler e estudar para aprender a fazer", explica a educadora. Ela utiliza seu celular para gravar e o computador pessoal e programas gratuitos para preparar os materiais.

Silvane conta que descobriu o gosto por vídeos e produz conteúdos em seu canal no Youtube para além dos assuntos que precisa preparar para suas turmas. "Despertou em mim e nos alunos uma forma diferente de ensinar e de aprender", destaca a professora. Ela diz que funcionaram atividades contextualizadas, utilizando narrativas significativas para as crianças. Quando posta as atividades da quinzena, ela envia o link do vídeo que está relacionado ao conteúdo. "Tive que aprender muita coisa, mas, apesar das dificuldades, estou colhendo bons frutos, e as crianças estão respondendo aos desafios lançados".

A professora Ângela também grava vídeos por sua conta. Ela trabalha em parceria com outra professora para preparar os materiais. Além disso, uma vez na semana também tem um encontro virtual com os alunos do Fundamental. "Não existe perfeição, mas eu quero fazer da melhor maneira que posso para alcançar o melhor rendimento dos meus alunos, e está funcionando", compartilha a educadora paulista.

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Os aprendizados para o pós-pandemia

As quatro professoras concordaram que tiveram aprendizados valiosos que não podem se perder no pós-pandemia. Entre eles, o uso das tecnologias a favor da aprendizagem. Para Alexandra, é importante não apenas continuar usando as tecnologias, mas utilizá-las com intencionalidade pedagógica. "Os alunos são nosso foco, fazemos tudo pensando neles. Podemos aproveitar esses recursos que aprendemos para chegar onde queremos", afirma. Nina aponta que “é preciso estruturar as escolas com internet [de qualidade] e equipamentos para que os professores continuem utilizando os recursos que aprenderam a usar". 

Muitos docentes se esforçaram para aprender sozinhos o que coube na rotina, mas há uma necessidade de formação sobre o uso de tecnologia. No caso de Alexandra, ela conta que a secretaria disponibilizou cursos sobre as ferramentas. Ela participou e hoje sabe usar os recursos, no entanto, não consegue utilizar com seus alunos por falta de acesso. Ela espera que no retorno presencial possa colocar em prática o que aprendeu utilizando as ferramentas da sala de informática da escola.

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Desde maio, a professora Silvane está trabalhando de forma presencial, mas continua produzindo seus vídeos. Além desse aprendizado, ela não quer perder a proximidade que a pandemia trouxe para a equipe. A educadora lembra que, enquanto esperavam um posicionamento da secretaria no início da pandemia, os colegas se uniram para trocar informações e estudar. "Sonhar um pouco, conversar mais com o coordenador. Isso gerou uma aproximação do grupo", afirma. Além da união entre docentes, a professora Ângela quer manter o apoio das famílias nas atividades, que eles continuem com um contato direto, acompanhando o trabalho e sendo parceiros.

Apesar das dificuldades, Silvane conta que a pandemia lhe permitiu aprender e investir na sua formação. "Querer ser aluno de novo, ter uma sede de estudar. Isso foi muito positivo", relata a professora do Espírito Santo. "Eu me tornei professora porque amo aprender, não apenas ensinar. Eu amo pesquisar, criar conteúdo. Colocar minha criatividade foi o mais gostoso [do trabalho remoto]", finaliza Ângela.

*nome fantasia. A professora optou por se manter anônima. 

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