Gestão escolar: como apoiar a saúde mental da equipe no ensino remoto ou híbrido

Ações centradas no suporte emocional e no acolhimento são essenciais para os professores conseguirem lidar com as transformações e os desafios trazidos pela pandemia

POR:
Victor Santos
Crédito: Getty Images

“O professor também precisa de cuidado, e de bastante cuidado, principalmente nessa pandemia”. Esta fala, de Sonia Maria Lima, vice-diretora da Escola Estadual Gianfrancesco Guarnieri, em São Paulo (SP), é bem ilustrativa de um detalhe que pode ficar esquecido em meio à correria para dar suporte aos estudantes e planejar as aulas em diferentes plataformas: por trás das telas que separam professores e alunos estão pessoas. E, no caso dos docentes, profissionais que precisaram alterar drasticamente as suas rotinas de trabalho e mesmo a vida pessoal para dar continuidade ao ensino em meio a uma das maiores crises que o país e o mundo já vivenciaram.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Península ao longo de todo o ano de 2020, iniciada logo após o fechamento das escolas e o começo do ensino remoto emergencial, ajuda a vislumbrar as emoções e os sentimentos que afloraram nos educadores durante esse período de pandemia – e, consequentemente, a entender a necessidade de cuidado mencionada pela vice-diretora Sonia. Os pesquisadores ouviram mais de 7 mil professores das redes estadual, municipal e particular em quatro diferentes momentos, conseguindo captar as percepções iniciais do fechamento das escolas, os momentos intermediários da adaptação e, no fim do ano passado, o início de algumas retomadas graduais. 

Entre os resultados, chama a atenção o fato de que, em maio de 2020, pouco mais de um mês após a interrupção das aulas presenciais, 67% dos professores se consideravam ansiosos, enquanto aqueles que se sentiam cansados e sobrecarregados chegavam, respectivamente, a 36% e 35% do total de entrevistados. Passados alguns meses, já no estágio final da pesquisa, em novembro, a porcentagem de ansiosos apresentou queda, apesar de ainda ser significativa, ficando em 58%. No entanto, a proporção de educadores que se julgavam cansados e sobrecarregados aumentou para 53% e 57%, respectivamente.

Ou seja: as situações pelas quais os professores passaram desde o início da pandemia até hoje, seja a adaptação para novos formatos de trabalho, a descoberta de novas ferramentas e formas de se comunicar com os alunos e a própria incerteza quanto ao retorno presencial, tudo isso mexeu com a saúde mental dos educadores. Nesse contexto, as questões emocionais tornaram-se importantes pontos de atenção para os gestores. Muitos têm procurado apoiar as suas equipes e promover a saúde mental nos ambientes escolares – em muitos casos, realizando tudo isso a distância – nesses tempos tão complexos.

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Problemas pré-existentes
Embora os impactos da Covid-19 tenham afetado fortemente a saúde mental dos professores,  o excesso de trabalho e o estresse já faziam parte da rotina de grande parte dos docentes. O psicólogo Cloves Amorim, doutor em Educação e professor do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), aponta que, desde os anos 1990, pesquisas acadêmicas já indicavam questões envolvendo a saúde mental dos educadores de escolas públicas.

“Anteriormente à pandemia, os estudos mostravam que um dos problemas que afetavam a saúde mental desses professores era, por exemplo, a precarização dos salários, o que leva a excessivas cargas de trabalho, como lecionar nos períodos da manhã, tarde e noite em diferentes instituições. A sobrecarga de trabalho, por consequência, resulta em uma precarização da própria qualidade de vida dos docentes. Além disso, muitos também tinham que lidar com condições difíceis, e até mesmo violentas, no ambiente escolar”, diz o especialista, que também é pesquisador e trabalha especificamente com estresse e síndrome de burnout em professores.

Cloves observa que o educador que precisava lidar com uma ou mais dessas questões ainda tinha um ponto de segurança, que era a escola ser um ambiente presencial  – um ‘porto seguro’ que deixou de existir com a pandemia. Ele destaca que, como tudo é muito recente, ainda não é possível avaliar cientificamente o real impacto da experiência do ensino remoto na saúde emocional dos docentes, mas sinaliza alguns aspectos que merecem atenção. “O primeiro é o fato de que, com o fechamento repentino das escolas, os educadores tiveram que aprender uma outra forma de ser professor, em alguns casos sem o treinamento adequado”. Isso, inclusive, foi um dos tópicos que apareceu na pesquisa do Instituto Península: 88% dos educadores consultados declararam que nunca haviam dado aula de forma virtual anteriormente.

Realizadas as desafiadoras adaptações para o ensino remoto emergencial, o especialista salienta as preocupações advindas desse “novo mundo” mediado agora por telas. “O trabalho remoto está trazendo a chamada ‘fadiga do zoom’, decorrente de ficar o dia todo olhando e trabalhando com telas”, ressalta. “Outra questão é que muitos alunos não têm acesso aos equipamentos adequados, o que tem trazido uma outra variável, que é a ‘fadiga por compaixão’. O professor pensa ‘meu aluno está longe da escola, eu quero ajudá-lo, mas não tenho como’”.

Esse cenário complexo exige de diretores e coordenadores muita atenção às suas equipes. “Se o gestor puder ouvir os professores, estimulá-los a falar e, principalmente, valorizar o esforço deles, que não é pouco, ele provavelmente já estará promovendo a saúde mental e ajudando a diminuir o nível de estresse e de sofrimento, que podem levar a transtornos ou sofrimentos maiores, como estresse crônico ou burnout”, orienta Cloves. 

Sinais de alerta para uma intervenção

Há indicativos aos quais os gestores devem ficar de olho em suas equipes para perceber quando é necessário uma intervenção relacionada à saúde mental. O psicólogo Cloves Amorim elenca alguns fatores que podem ser avaliados nessa hora. 

“Temos algumas luzes amarelas que se acendem quando, nas conversas com a equipe, os professores manifestam questões como dificuldade para dormir, desmotivação, falta de energia, pessimismo exagerado, dificuldade de enxergar o lado positivo das coisas e queixas por ganhar peso, o que pode indicar que estão comendo em excesso ou deixando de se exercitar”, resume o especialista. Ele aconselha as escolas a sempre buscarem ajuda nesses momentos, seja acionando as secretarias, procurando instituições especializadas ou mesmo buscando parcerias com universidades e faculdades de Psicologia.


“Havia uma desmotivação generalizada”
A vice-diretora Sonia, da Gianfrancesco Guarnieri, que recebe alunos do Ensino Fundamental 1, e toda a equipe gestora perceberam logo no início da pandemia que deveriam investir nesse cuidado com os educadores. “Estava todo mundo estressado, porque era um desafio lidar com tecnologia para quem estava acostumado com a sala de aula. Eles não sabiam o que fazer, e isso mexeu muito com o emocional”, lembra. “Havia uma desmotivação generalizada. Então, nós decidimos fazer uma formação para trabalhar com os sentimentos, para que eles pudessem expor o que estavam sentindo e alguma coisa aflorar daí”.

A preocupação com a parte emocional de professores e alunos já era algo que fazia parte da experiência de Sonia que, desde 2010, busca parcerias e formações apoiadas pela Associação pela Saúde Emocional das Crianças (ASEC). Ao já ter passado por capacitações, como a do programa Amigos do Zippy, que visa auxiliar crianças a reconhecerem suas emoções, e o Promover para Prevenir, focado em saúde mental nas escolas, a vice-diretora conseguiu desenvolver na Gianfrancesco Guarnieri uma iniciativa totalmente focada nas emoções dos educadores.

“A minha proposta foi conversar com os professores sobre o aspecto emocional. Primeiro, eu propus que eles refletissem sobre o que são as emoções e como podemos lidar com elas dentro e fora da escola. Geralmente, nós não conhecemos as nossas emoções”, afirma Sonia. “Em seguida, por meio de questionamentos sobre se nascemos com emoções como tristeza, alegria e raiva, fomos construindo reflexões muito interessantes. Os professores lembraram de quando eram pequenos e, aos poucos, foram reconhecendo os seus sentimentos. Muitos comentaram que nunca tinham parado para pensar nisso”.

As atividades não pararam por aí. Logo em seguida, teve início um trabalho de escuta ativa, também baseado em uma formação da ASEC. “Em geral, nós também não sabemos escutar. Começamos a ouvir a pessoa e já queremos intervir naquele momento. Tanto as crianças como os próprios professores precisam de alguém para ouvi-los”, avalia Sonia. Nessa atividade, os professores foram divididos em duplas, em que, basicamente, um falava sobre os seus sentimentos e o outro escutava, posteriormente invertendo os papéis. “Ao final, perguntamos qual era a sensação de ser ouvido sem interrupção, reforçando a importância da escuta ativa”.

Os resultados dessas capacitações, segundo a vice-diretora, já aparecem no dia a dia da escola, que já retornou parcialmente ao formato presencial. “Apesar de toda a situação que estamos vivendo, os professores estão trabalhando com mais motivação e tranquilidade. É claro que eles têm os seus altos e baixos, o que é completamente natural, mas estamos caminhando”, comenta a educadora. “O mais importante é que os professores estão conseguindo passar isso para os seus alunos e aplicar em suas casas. O propósito dessas ações é justamente esse: não é só para a escola, é para toda a vida”.

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“Vimos que seria uma demanda imensa”
Na creche Baroneza de Limeira, também em São Paulo (SP), a diretora Ceila Luiza Pastório teve uma percepção muito parecida com a da vice-diretora Sonia no momento em que os primeiros casos de Covid-19 começaram a ser noticiados no Brasil. “Os últimos dias antes do fechamento da escola foram de muito medo, em toda a equipe. O anúncio oficial de que deveríamos fechar afetou a todos. Era uma situação desconhecida e assustadora”, relembra.

Não bastasse tudo isso, o trabalho com a Educação Infantil, em que todas as vivências e atividades eram baseadas em organizações de espaços, tempos e materiais, contando com uma área externa muito ampla para brincadeiras, tornou a situação ainda mais complexa. “Do dia para a noite, foi preciso transpor essas vivências para o ensino remoto, conservar os vínculos com as crianças e criar propostas para manter o percurso que vinha sendo construído. Preocupar-se com tudo isso foi exaustivo, e a escola rapidamente entendeu que precisava acolher os seus educadores”, conta Ceila.

Foi aí que a diretora e sua equipe iniciaram o projeto “Cuidando de Quem Cuida”, que ocorreu por meio de reuniões virtuais, usando plataformas como Meet e Zoom. “Fizemos encontros com todos os nossos colaboradores. Inicialmente, foi feito um diagnóstico das lacunas, dos medos e das angústias que permeavam todo o nosso grupo”, descreve a diretora. “Dessas primeiras conversas, surgiram diversos relatos de distúrbios relacionados ao sono, à alimentação e questões ligadas à saúde mental. Vimos que seria uma demanda imensa".

Nos encontros posteriores, a escola seguiu investindo em ações coletivas e individuais, contando com o apoio de diferentes especialistas. “Convidamos tanto profissionais da saúde, que no momento inicial ajudaram a esclarecer o que era a pandemia e a doença que estávamos enfrentando, quanto as psicólogas e a nutricionista aqui da escola”, explica Ceila. “Foi um trabalho em muitas frentes: entendemos sobre perdas e lutos, encaminhamos para tratamentos aqueles que necessitavam, buscamos reconstruir nossas rotinas pessoais e consolidamos um olhar permanente de acolhida e acompanhamento. Inclusive, é emocionante observar como nos aproximamos mais dos nossos colegas, reforçando os nossos vínculos”.

Mais do que esse maior entrosamento da equipe, a gestora diz que o exaustivo ano de 2020 trouxe aprendizados e até abriu caminhos para o trabalho que se seguiu. “Vejo que a escola cumpriu o seu papel, acolheu, cuidou, propôs aprendizagens, compartilhou saberes e se refez, construindo experiências que foram imprescindíveis para o retorno presencial que ocorreu, de fato, agora em 2021”, afirma Ceila. “Se lá no primeiro momento nós investimos em um acolhimento aos educadores e, em paralelo às famílias, hoje o nosso acolhimento está muito mais voltado às famílias e às crianças, que vivem à flor da pele as consequências da pandemia”. 

A força da comunidade 

As duas gestoras entrevistadas afirmam que, mais do que nunca, as escolas devem se constituir em espaços de acolhida, envolvendo toda a comunidade. “Eu sempre busco pensar na escola como um todo, entendendo que gestores, professores, merendeiras e funcionárias da limpeza, todos nós fazemos parte de uma comunidade”, destaca Sonia, “O mais interessante de tudo isso é a união. O ambiente escolar precisa ser um ambiente ainda mais acolhedor depois dessa pandemia”. 

Ceila compartilha dessa perspectiva, especialmente ao retomar todos os esforços feitos por ela e sua equipe desde o início da pandemia. “Tudo o que nos moveu nessas ações realizadas na nossa escola, e que até hoje nos move, é um profundo respeito, reconhecimento, amor e afeto a cada um dos colegas, das diferentes funções. Esse foco em não deixar ninguém de fora foi o que me mobilizou enquanto gestora, e isso posteriormente se estendeu às crianças e aos seus familiares”, conclui.

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