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Educação Ambiental: como usar o cotidiano dos alunos para ensinar sobre energia

Projetos desenvolvidos por escolas públicas de São Paulo e do Rio Grande do Norte partem da realidade dos estudantes para estabelecer relações com os contextos local e global e propor mudanças de hábitos para o consumo responsável

POR:
Bruno Mazzoco
Ilustração abstrata de garota com celular em mãos flutuando em direção à janela. Da luz emitida pelo celular podemos ver elementos da natureza ocupando o espaço.
Crédito: Giovani Flores/NOVA ESCOLA

“Pense globalmente e aja localmente.” A frase, proferida por ecologistas do mundo todo, ajuda a entender a importância da Educação Ambiental no contexto escolar, no sentido de formar cidadãos conscientes de seu papel na preservação do meio ambiente. Muitas vezes o assunto é tratado de maneira abrangente, em escala planetária, deixando as questões locais em segundo plano. Mas, de acordo com especialistas, o mais interessante e eficiente seria partir da realidade dos estudantes e mostrar sua conexão com o contexto maior.

“Identificar um tema relacionado ao lugar onde se vive e fazer dele objeto de estudo ajuda os alunos a se engajar no conhecimento e despertar a consciência”, diz Cristian Annunciato, formador de professores e doutorando em Ensino de Ciências pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, abordagens generalistas, do tipo “vamos salvar o planeta”, podem deixar as propostas desconectadas da realidade das turmas.

Fabio Barbosa, coordenador de Educação Ambiental e Saúde da Secretaria da Educação do Estado da Bahia, também defende esse olhar como princípio norteador do trabalho com a Educação Ambiental. “A identificação dos problemas locais aumenta a possibilidade da construção de um processo de intervenção para a transformação”, afirma. Para Barbosa, a abordagem das questões referentes à energia elétrica tem a vantagem de amarrar as duas pontas. “Podemos tratar da geração de energia e seus impactos em diferentes contextos e, paralelamente, trazer a discussão de como isso acontece localmente para pensar em alternativas que mostrem a importância do uso racional.”

A chegada da pandemia trouxe novos elementos para essa reflexão. Para além da crise humanitária, ao provocar uma queda recorde nas emissões globais de carbono, em função da diminuição do uso dos meios de transporte e da atividade industrial, a pandemia nos fez pensar sobre o impacto das nossas ações e dos nossos hábitos de consumo no meio ambiente. Ela também levou a transformações em nossas práticas cotidianas, mudando, inclusive, o modo como consumimos energia elétrica. Aqueles que puderam, passaram a ficar mais em casa para cumprir as recomendações de distanciamento e isolamento social. Com isso, o consumo de energia, que antes era dividido entre diferentes espaços, como o trabalho e a escola, passou a se concentrar nas residências, aumentando o uso e, consequentemente, as contas de luz.

Memes que educam

Considerando essa realidade, a professora de Ciências Náyra Rafaéla Vido e o professor de Geografia Luis Rachid buscaram incorporar o contexto da pandemia para dar sequência ao projeto sobre eficiência energética que vinham desenvolvendo com os alunos do Ensino Fundamental 2 da Escola Estadual Professor Arlindo Silvestre, em Limeira (SP).

Desde o início de 2020, os educadores estavam trabalhando o tema junto às turmas do 8º ano. O primeiro passo foi discutir com os estudantes como o uso de energia e o conhecimento sobre formas de obtê-la fazem parte da história da humanidade. O objetivo era mostrar as transformações nos processos de obtenção de energia em diferentes lugares e épocas. Para isso, depois de realizarem pesquisas orientadas pelos educadores, os alunos produziram uma linha do tempo mostrando as principais formas de geração de energia utilizadas pelo ser humano até chegar aos tempos atuais. Para aprofundar os conhecimentos sobre cada processo, os estudantes foram divididos em grupos para a construção de maquetes que informavam os benefícios e impactos trazidos por cada uma das tecnologias. 

Na sequência, veio o estudo da matriz energética brasileira, baseada principalmente nas hidrelétricas. “Os alunos não tinham ideia do impacto que elas ocasionam”, lembra Luis. O professor explicou que grandes áreas são alagadas para construção dos reservatórios das usinas, o que causa a morte de espécies animais e vegetais, gera emissão de gases de efeito estufa a partir da matéria orgânica em decomposição e pode ocasionar a alteração do microclima das regiões próximas. Esse percurso ensejou o debate sobre a importância da diversificação de fontes de energia, os efeitos nocivos que formas de produção de eletricidade tidas como limpas podem trazer e que ações poderiam ser feitas localmente para economizar energia elétrica. “A ideia era mostrar que, além do uso de fontes renováveis, são necessárias também ações que promovam o uso consciente”, comenta Náyra.  

A culminância do processo estava planejada para ocorrer na feira de ciências da escola, ocasião em que os alunos iriam apresentar os conhecimentos sobre os diferentes tipos de usinas geradoras – como hidrelétricas, termelétricas, nucleares, eólicas e solares – e divulgariam práticas de consumo consciente para a comunidade. Mas, com a pandemia, as aulas presenciais foram interrompidas e o evento não pôde ser realizado. Foi então que os estudantes tiveram a ideia de produzir memes.

Já no formato a distância, os professores orientaram a elaboração de peças que abordam, em tom bem-humorado, ações para a diminuição do consumo doméstico de energia, como o aproveitamento da energia solar, a substituição de lâmpadas por outras de menor consumo, como as de LED, e a retirada da tomada de equipamentos que não estão em uso. Náyra destaca que todas as etapas do trabalho foram pensadas para articular o conhecimento sobre o tema com sua dimensão ética e o engajamento em ações práticas, conforme estabelecido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Em conformidade com a metodologia Energia que Transforma – desenvolvida pelo Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), em parceria com a Fundação Roberto Marinho –, o percurso das aprendizagens utilizou o seguinte tripé: na etapa inicial, os estudantes trouxeram seus conhecimentos sobre o assunto e trocaram ideias entre si e com os professores; em seguida, os conhecimentos foram ampliados por meio da pesquisa e do uso de diferentes materiais, e, por fim, houve a chamada para ação. Ao final do processo, os memes foram divulgados nas redes sociais da escola para que os alunos pudessem compartilhá-los com seus familiares.

Olhar para o cotidiano

A importância da economia de energia elétrica e de formas alternativas à energia hidroelétrica foram os temas que nortearam o trabalho do professor de Geografia Francisco Cleilson de Amorim Gois com suas turmas de 8º e 9º anos na Escola Municipal Joaquim Felício de Moura, em Mossoró (RN). Para levantar os conhecimentos prévios dos alunos sobre os temas, que integram a BNCC, o professor recorreu a uma atividade lúdica utilizando o jogo de cartas presente no material Energia que Transforma e uma bexiga. Os estudantes, sentados em cadeiras dispostas em círculos, passavam, uns para os outros, uma bexiga, presa entre as pernas. Quem deixasse cair ou estourasse o balão respondia a questões presentes nas cartas retiradas do baralho, como “Quais as formas de energias renováveis e limpas disponíveis em nossa região?” ou “Como diminuir o consumo de energia elétrica em nossas residências?”.

Em seguida, o professor promoveu uma discussão sobre como se dá a produção local de energia. De acordo com dados da Associação Brasileira de Energia Eólica, o Rio Grande do Norte é o maior produtor desse tipo de energia no país. Ciente desse fato, Francisco provocou os alunos a pesquisarem sobre a infraestrutura necessária para a construção das usinas eólicas. “Eles achavam que a energia eólica não trazia problemas ambientais”, recorda o professor. Mas, após realizarem pesquisas, os estudantes perceberam que os parques eólicos, como são chamados, alteram a paisagem, prejudicando o turismo local, fonte importante de renda na região. Trazem também danos ambientais, como a morte de aves e morcegos, que se chocam contra as hélices das turbinas responsáveis pela captação da energia dos ventos para transformá-la em eletricidade. Uma vez que esses animais são agentes do controle de pragas, sua grande mortandade pode produzir desequilíbrio ambiental, com prejuízo à atividade agrícola, à vida animal da região e à vegetação da caatinga. 

Vista a questão macro, a turma foi convidada a olhar para dentro de suas casas. Novas surpresas vieram, e logo os alunos notaram que os vilões do consumo em suas residências eram os aparelhos de ar-condicionado, os ventiladores e os secadores de cabelo. A convite do professor, os estudantes ampliaram as pesquisas para mapear, cômodo a cômodo, como economizar energia, chegando a um modelo de casa eficiente para os padrões locais. “Vimos como buscar uma maneira de utilizar esses aparelhos de modo eficiente. Por exemplo, ligar o ar-condicionado em uma potência mais baixa e, depois de estabilizada a temperatura, usar o ventilador”, orienta Francisco. O educador, que é especializado em Educação Ambiental, ressalta a versatilidade da metodologia e do material Energia que Transforma, que permitiu que cada aluno pudesse criar o seu percurso.

Para o encerramento do projeto, os estudantes do 8º ano produziram fanzines destacando ações de conservação e preservação dos recursos naturais, enquanto as turmas do 9º ano construíram maquetes apresentando as soluções encontradas para a otimização do consumo de energia nas residências. Eles também fizeram palestras sobre os temas estudados para as turmas do 6º ano. Fecharam assim um ciclo que permitiu conhecer diversos modos de produção de energia, fazer a aferição do consumo de diferentes eletrodomésticos e propor ações de economia de energia, conforme estabelecem as habilidades da BNCC para a unidade temática “matéria e energia” para esses anos. Francisco lembra que um dos personagens do fanzine chamou a sua atenção. “Era uma super-heroína que defendia causas ambientais. Mas, no final da história, a própria aluna se colocava como heroína, pois era o seu comportamento que poderia salvar o planeta. Não precisamos de ações sobre-humanas”, finaliza o professor.

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