A Khan Academy não substitui o professor

As soluções tecnológicas de Salman Khan foram saudadas como revolucionárias. Ainda que tenham mérito, é preciso reforçar que nada toma o lugar do docente na tarefa de ensinar

POR:
Anna Rachel Ferreira
Khan Academy. Ilustração: Renata Borges

Nas duas últimas semanas, as manchetes de jornais e revistas foram preenchidas por notícias sobre a vinda do matemático Salman Khan ao Brasil. Nos dias em que aqui esteve, o criador da Khan Academy - site que reúne vídeos e exercícios de Matemática, Biologia e outras disciplinas, além de gráficos com os resultados dos alunos - conheceu o Ministro da Educação e a Presidente da República e concedeu entrevistas a autoridades, repórteres e profissionais da Educação. Após conhecer o trabalho de Khan, a presidente Dilma chegou a propor o desenvolvimento de material da academia para a alfabetização em português, convite a que ele sabiamente declinou. E o Governo Federal prometeu disponibilizar os vídeos nos 600 mil tablets que serão entregues a professores da rede pública durante o semestre.

Tanto alvoroço fez com que se criasse a ideia de que a proposta era a solução para os problemas da Educação brasileira, como se bastasse recorrer ao cardápio de recursos do americano para dar o salto de qualidade tão necessário ao ensino. Não custa lembrar que não há soluções fáceis para o avanço da Educação.

As novas tecnologias não substituem o trabalho do professor. Elas podem se tornar grandes aliadas do ensino, desde que entendidas como complementares a um conjunto de outras ações fundamentais - que vão de uma boa formação à garantia de infraestrutura adequada. "Os problemas da Educação causam uma ansiedade e um sentimento de urgência, que é legítimo. O que não se pode é achar que os recursos da Khan Academy são a salvação da lavoura. A gente não vai resolver tudo em um passe de mágica. Existem várias coisas que precisam ser feitas e testadas na Educação", explica Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann, organização responsável pela tradução dos vídeos e pela implementação do recurso no Brasil.

O trabalho da Khan Academy tem méritos que merecem destaque. O primeiro é o de dar acesso universal e gratuito a um extenso banco de aulas, hoje com 3.800 vídeos em língua inglesa, que ajudarão a democratizar o conhecimento. Disponibilizar esse conteúdo a estudantes de diferentes partes do mundo é algo que merece ser comemorado.

O segundo é ter uma preocupação real em fazer com que a ferramenta seja útil para os professores. Além das videoaulas, Salman Khan criou séries de exercícios e um programa que analisa os resultados de cada aluno e gera gráficos. "O professor consegue ver quais atividades foram feitas pelos estudantes e onde alguns estão estacionados. Assim, pode tirar dúvidas ou colocar os alunos que avançaram mais rápido para trabalhar com aqueles que estão precisando de ajuda", explica ele. A solução é interessante, mas só funciona se o educador for além. Um software, por melhor que seja, não consegue substituir a observação e as intervenções humanas. Ao basear a avaliação apenas em dados gerados automaticamente, perde-se a chance de investigar a fundo as diversas estratégias utilizadas pelos alunos para chegar a cada resultado, entender os diferentes conhecimentos de que eles já dispõem e saber quais são exatamente os pontos de dificuldade.

Logo, é preciso calma e uma reflexão mais consistente sobre como usar todas essas inovações em benefício do ensino e da aprendizagem. Para obter sucesso, o foco deve estar no professor. É o docente que conhece os alunos e sabe reconhecer as melhores maneiras de se aplicar este ou aquele recurso em sala de aula. Para tanto, é essencial que ele domine as ferramentas, os conteúdos e conheça suas turmas de perto.

Como surgiu e o que faz hoje a Khan Academy

Tudo começou, em 2004, quando, ainda trabalhando no mercado financeiro, Salman Khan ajudava uma prima de 12 anos com dificuldades em conversão de unidades matemáticas, via telefone. Quando Nádia conseguiu resultados positivos em avaliações escolares, a notícia se espalhou pela família e mais alunos foram chegando. Devido à demanda, o procedimento sofreu adaptações. Aconteceram encontros via Skype, enquanto era desenvolvido um software de geração de exercícios e acompanhamentos de resultados. Até que um amigo sugeriu que o youtube fosse utilizado, o que gerou uma visibilidade em escala mundial e a possibilidade de que os vídeos fossem vistos mensalmente por seis milhões de pessoas.

A partir de então, Khan ganhou destaque e passou a aprimorar seu trabalho. Além das videoaulas, foram criadas séries de exercícios para cada módulo e um recurso de gráficos que analisa os resultados de cada aluno. São medidos a quantidade de erros e acertos, o número de tentativas para cada questão, quais foram as alternativas escolhidas antes de o aluno acertar a resposta, quais os horários em que o software foi acessado, quanto foi o tempo gasto em cada exercício e quantas vezes voltou para a aula expositiva.

No Brasil, a ferramenta tem sido aplicada pela Fundação Lemman em escolas públicas paulistanas há um ano como projeto piloto. Um dos desafios é adaptar o conteúdo à realidade local, tarefa ainda em curso.

 

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