Gestor escolar: como manter-se saudável e realizado profissionalmente à frente de uma direção?

Um bom professor não necessariamente se tornará um bom gestor escolar. Entender limites, potencialidades e as novas responsabilidades inerentes a um cargo diretivo pode ser o diferencial entre a realização profissional e a frustração ou adoecimento

POR:
José Marcos Couto Júnior
Crédito: Getty Images

O educador, administrador e escritor canadense Laurence J. Peter ganhou notoriedade no final da década de 1960 após a publicação do seu livro de maior sucesso, “O Princípio de Peter”. No texto, muito bem humorado, o autor afirma basicamente que, no mundo do trabalho, todo bom profissional tende a ser promovido até o limite da sua incompetência. 

Apesar de apresentar uma premissa estranha à primeira vista, o conceito que dá título ao livro baseia-se na ideia de que funcionários brilhantes, ao se destacarem em uma área que dominam, muitas vezes acabam alçados a cargos de supervisão, gerência ou gestão. No entanto, isso não significaria necessariamente que o excelente profissional, recém-promovido, estaria preparado para cumprir os requisitos da nova função. Dessa forma, a promoção e o reconhecimento, ironicamente, o levariam ao fracasso.

Trazendo essa reflexão para o ambiente escolar e levando-se em consideração o fato de que a grande maioria dos cargos de direção no país são ocupados por professores que atuam como gestores, imediatamente me vem à cabeça a pergunta: “por que um professor (especialmente um bom professor) trocaria a sua sala de aula pelo gabinete?”.

As respostas podem ser variadas. Elas geralmente permeiam entre a questão salarial e o vislumbre da função como uma oportunidade de promoção. No entanto, podem chegar a extremos como uma aversão à sala de aula (quase sempre justificada pelo cansaço que esta geraria), ou mesmo podem estar relacionadas ao prazer pelos trabalhos e afazeres administrativos de uma unidade escolar.

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Em 2019, quando comecei a colaborar com o site Gestão Escolar, cheguei a afirmar que considerava “uma praga” qualquer menção de colegas que insinuasse a possibilidade de que eu assumiria a direção de uma escola. O aceite para me tornar diretor só veio diante de um contexto muito específico, alicerçado na viabilidade de formar uma equipe diretiva que permitisse a construção de uma gestão de impacto estruturante sobre a comunidade escolar que iríamos gerir, como descrevi na minha antiga coluna naquela ocasião.

O “não lugar” da direção escolar

Não conheço nenhum docente que afirme que tenha escolhido a profissão porque queria ficar rico, ou porque teria esperanças de ascender na carreira através do chão da escola. Atualmente, nem mesmo o status e o respeito que eram destinados aos professores meio século atrás nós conseguimos obter. Pelo contrário: vivemos tempos de ataques à educação e aos educadores.

No entanto, o magistério proporciona algumas situações e acontecimentos que nos retroalimentam e não nos deixam desistir da carreira. O brilho no olhar de um estudante quando realmente compreende uma explicação; o reconhecimento de um ex-aluno ao reencontrar você na rua anos depois de ter frequentado as suas aulas; ou mesmo a percepção de que meninos e meninas que passam por sua classe crescem como sujeitos e cidadãos, e que você faz parte desse processo. Tudo isso dá sentido à nossa profissão. 

A questão é que, ao assumirmos a direção de uma unidade escolar, todos – ou quase todos – os incentivos citados acima costumam se distanciar de nosso horizonte. Por mais participativo que possamos ser, mesmo que nos recusemos a aceitar uma postura de “clausura de gabinete”, o fato é que como gestores nós perdemos, sim, o contato diário e direto com os alunos.

Dificilmente seremos lembrados por eles. Raramente teremos a oportunidade de sermos chamados para receber a homenagem de uma turma (e como é legal ser paraninfo em uma formatura!). Quem não se recorda de um professor que marcou a sua vida? Agora tente lembrar de momentos marcantes que você teve com algum diretor. Pior do que isso: a tendência é que os alunos passem a fugir de nós – mesmo que o “nós” seja, na verdade, o ambiente da diretoria, costumeiramente ligado à noção de “castigo”.

Apoiando a equipe no replanejamento contínuo

Nesse curso, diretores e coordenadores pedagógicos de escolas de Ensino Fundamental vão aprender a elaborar um instrumento de planejamento que envolva questões como a modalidade de ensino adotada pela escola, as ações do professor e do aluno, além de objetivos de aprendizagem e habilidades a serem trabalhadas.


Tudo isso faz com que muitos gestores vivam em um “não lugar”. A profissão que escolhemos é o magistério, não a gestão. Dessa forma, a direção acaba sendo vista como algo transitório. Não à toa, sempre que possível afirmamos que “somos antes de tudo professores”. Outro forte indício desse cenário pode ser percebido na frase (bem clichê, por sinal) “eu não sou diretor, eu estou diretor”, repetida constantemente por alguns gestores ao se apresentarem em reuniões e palestras.

O ponto é que viver em uma eterna transição, sem a percepção de ponto de chegada, em geral nos levará à frustração, ao estresse e ao adoecimento. Um gestor que habitar em um “não lugar” constante fatalmente chegará ao adoecimento e ao esgotamento físico e mental. Mas é possível ser diferente.

Autoconhecimento, criatividade e resiliência

Se assumir uma gestão escolar significa abandonar parte da essência de nossa “atividade-fim”, dirigir uma escola, por outro lado, nos abre um leque de possibilidades que dificilmente poderia ser explorado por professores que necessitam planejar, tirar dúvidas, corrigir provas e trabalhos, lançar conceitos, e seguir com a sua missão diária de constantemente criar aulas atrativas aos seus alunos. Isso porque, como gestores, nós temos a oportunidade de ampliar projetos, alcançando outros membros da comunidade escolar, como os responsáveis e os próprios funcionários.

Quando compreendermos esse potencial da nossa gestão – entendendo quais são as entradas e os caminhos da unidade escolar no diálogo com os moradores que vivem no entorno da escola – temos a possibilidade de desenvolver ações que vão gerar territórios educativos. Aliás, penso que esse deveria ser um dos objetivos principais da gestão de todo diretor (especialmente daqueles que atuam em escolas públicas).

Cursos de gestão escolar, oferecidos por secretarias de Educação ou ainda ministrados por institutos, fundações e universidades, também permitem a criação de um olhar diferenciado para o lugar da gestão, apresentando-a como uma função determinada, que tem fim e importância em si mesma. A capacitação constante é a chave para um bom mandato. Como dizia o velho Raul Seixas, “não pense que a cabeça aguenta se você parar”.

Planejando o ano letivo: organização do currículo da escola 

Esse curso vai ajudar diretores e coordenadores pedagógicos do Ensino Fundamental a compreender a necessidade de flexibilizar o currículo, conhecer o conceito de mapas de foco, e ainda oferece sugestões sobre o que priorizar em todos os anos do Ensino Fundamental 


Há quem sinta prazer no simples fato de lidar com questões administrativas e contábeis inerentes ao cargo, porém penso que um dos principais trunfos do trabalho de sucesso realizado na minha instituição, a Escola Municipal Professora Ivone Nunes Ferreira, esteja em reconhecer a perspectiva da função pedagógica presente na equipe gestora.

Se pensarmos que o Princípio de Peter aponta que a incompetência vem do desvio de função de profissionais brilhantes, caso sejamos diretores/professores – não só na afirmação de nosso lugar, mas no fazer pedagógico a partir de nossos gabinetes – estaremos mais próximos de rendermos melhor dentro daquilo que dominamos.

Assim, precisamos ressaltar que, de fato, em alguns momentos necessitaremos apelar para a resiliência. Reuniões, respostas de links, cobranças por resultados, a necessidade de sermos por vezes o “chefe chato” que chama a atenção de quem comete um erro, entre outras situações cotidianas, estarão sempre presentes. No entanto, ao compreendermos que isso faz parte do pacote (já que nem tudo são flores), tendemos a levar com mais leveza esses momentos, na compreensão de que, acima de tudo isso, nós podemos enquanto gestores escolares realizar bons trabalhos, que terão significância e impacto profundo em nossas comunidades.

Um abraço e até a próxima!

José Couto Jr

José Couto Júnior é formado em História e Mestre em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em 2018, foi eleito Educador do Ano no Prêmio Educador Nota 10. Servidor da Prefeitura do Rio de Janeiro há 10 anos, atua desde 2019 como diretor na Escola Municipal Professora Ivone Nunes Ferreira, no Rio de Janeiro.

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