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Retomada das aulas presenciais impõe desafios aos educadores e estudantes

Professores enfrentam, em meio à pandemia e à exaustão, a reorganização das aulas e a recuperação dos prejuízos na aprendizagem dos alunos

POR:
Luiza Sansão
Crédito: Getty Images

Depois de passarem por todo um processo de adaptação ao ensino remoto ao longo de 2020 e agora em 2021, em função da pandemia da covid-19, gestores, educadores e estudantes estão enfrentando agora o desafio de retornar às aulas presenciais. E isso acontece em um cenário no qual a pandemia segue avançando e menos de 15% da população brasileira tomou a segunda dose da vacina contra a doença.

A adaptação às aulas virtuais foi especialmente difícil para professores e alunos da rede pública, já que uma parcela significativa deles não tinha acesso à internet e a computadores ou mesmo experiência com o uso da tecnologia na educação. Na reabertura das escolas, também é para esse grupo que a tentativa de mitigar os prejuízos na aprendizagem tem imposto mais dificuldades.

Na cidade do Rio de Janeiro, 92% das 1.543 escolas da rede municipal já estão funcionando de forma presencial, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação. Nelas, prevalece o modelo híbrido, em que o processo de ensino e aprendizagem acontece de maneira remota e presencial, com turmas em sala de aula em dias alternados e por um período menor.

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Segundo a Secretaria, para apoiar professores e alunos nesse formato de ensino híbrido, foram disponibilizados, por meio do programa Rioeduca, 10 horas e meia de programação diária em TV aberta e material pedagógico impresso para alunos da Educação Infantil, Ensino Fundamental, Educação de Jovens e Adultos e Educação Especial. Os conteúdos também estão disponíveis em formato digital pelo aplicativo Rioeduca em Casa, que permite a interação entre os professores e suas turmas. A Secretaria ainda informou, por meio de nota, que “tem realizado formação de professores tanto para o uso do aplicativo, quanto para o desenvolvimento de boas práticas de ensino remoto”.

A partir das avaliações diagnósticas realizadas pelos alunos, em abril, o currículo da rede municipal passou por uma reestruturação. O planejamento da secretaria para o biênio 2020/2021 consiste, entre outras definições, no ensino do conteúdo do ano anterior (2020) durante o primeiro semestre deste ano (2021) e do conteúdo que seria deste ano no segundo semestre de 2021.

Estratégias para recuperar a aprendizagem
A Escola Municipal Capistrano de Abreu, localizada no Jardim Botânico, na zona sul da capital fluminense, retomou parcialmente o funcionamento presencial no final de abril, com três horas de aula no turno da manhã (de 8h às 11h), em regime de rodízio de alunos. Jaspe Marques de Mattos, coordenadora pedagógica da unidade, que oferece Ensino Fundamental I, diz que muitas famílias ainda preferem não mandar as crianças para a escola por falta de recursos para pagar as conduções de ida e volta, considerando a permanência de apenas três horas em aula. Segundo Jaspe, a maior parte dos alunos são moradores da favela da Rocinha.

Além dos exames de Língua Portuguesa e Matemática aplicados pela Secretaria Municipal de Educação, os estudantes que estão frequentando as aulas presencialmente também fizeram as avaliações diagnósticas da própria escola. Eles realizam essas provas com a orientação de professores, individualmente ou em pequenos grupos.

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“O momento é de preocupação com as inevitáveis perdas no processo de aprendizagem dos alunos, especialmente daqueles que já deveriam estar alfabetizados e tiveram uma ruptura nesse processo”, afirma a coordenadora.

A rede municipal estabeleceu algumas habilidades básicas que os alunos de cada série deveriam dominar, e a escola fez adaptações para a sua realidade, inserindo outros conteúdos. “No caso de Língua Portuguesa, por exemplo, as crianças do 1º ano devem saber escrever ao menos seu primeiro nome, e as do 2º e 3º anos, um dos objetivos é que saibam, pelo menos, seu nome e sobrenome. Em Matemática, elas precisam conseguir identificar números e fazer contas simples de adição e subtração”, explica Jaspe. As avaliações tanto da Secretaria quanto da escola, consideraram essas habilidades. "Algumas crianças avançaram, apesar de tudo; outras permaneceram no estágio onde estavam e outras regrediram.”

A partir das constatações sobre a situação de cada aluno, os professores têm trabalhado o conteúdo correspondente a cada ano e formado grupos que apresentam mais dificuldades e defasagem para um reforço. Os educadores fazem um atendimento diversificado, em que parte das atividades é realizada por todos, e outra parte é direcionada de acordo com o grau de dificuldade de cada aluno. “Nesse grupo que já está indo presencialmente, temos algumas crianças com muitas dificuldades e outras em processo de consolidação da alfabetização. Então, não adianta passar um exercício que o aluno não consegue fazer. Temos que andar juntos para a criança perceber que ela consegue caminhar”, destaca a coordenadora.

No dia a dia escolar, algumas das adaptações feitas no ano passado permaneceram por terem dado certo. É o caso das atividades enviadas aos alunos por meio dos grupos de WhatsApp. “Funciona bem, pois a maioria das famílias acompanha dessa forma”, conta Jaspe. Ela comenta que a intenção era ter iniciado o ano com aulas online, mas houve um problema com o aplicativo da Prefeitura, que só foi resolvido em abril. Então, durante os meses de fevereiro e março, os professores produziram e enviaram atividades assíncronas e vídeos explicativos.

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Novos planos pedagógicos
Também no Rio de Janeiro, no bairro da Tijuca, na zona norte da cidade, a Escola Martin Luther King retomou as aulas presenciais – a Educação Infantil e o Ensino Fundamental 1 em abril, e o Fundamental 2 em maio. São três horas de aulas por dia, e os alunos foram divididos em grupos de dez pessoas por sala, em sistema de rodízio. A escola está atendendo presencialmente até 80% dos estudantes de algumas turmas e, de outras, em torno de 35%.

Após a avaliação diagnóstica da Secretaria Municipal de Educação, a escola iniciou o processo de busca ativa. “Tentamos resgatar os alunos de todas as formas possíveis: contato pelo WhatsApp, por telefone e pedindo para comparecer à escola. E, a partir daí, os alunos iam nos dando retorno”, conta a diretora Maria Marlene de Brito.

Ela diz que cada professor, a partir da avaliação diagnóstica ou das avaliações que os alunos fizeram, vai seguir de onde eles pararam. “Observamos que os alunos apresentaram muitos déficits relacionados, principalmente, ao letramento”. Por conta disso, a escola está elaborando um Projeto Político Pedagógico (PPP) para os próximos cinco anos e um Plano Pedagógico Anual (PPA) com temas geradores e estratégias metodológicas para suprir essas lacunas, que vão incluir atividades com jornal impresso, podcasts e oficinas de audiovisual, a serem desenvolvidas principalmente na sala de leitura.

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Para ela, que também é professora do Ensino Fundamental, é difícil resgatar tudo, mas uma parte é possível. Para isso, a escola está planejando aulas de reforço no contraturno e algumas ações pedagógicas, como a Semana da Ciência, envolvendo trabalhos interdisciplinares, e a Semana da Cultura Popular, com foco no conhecimento das diferentes regiões do Brasil aliado à literatura infantil e nacional.

Necessidade de apoio e acolhimento aos professores
De acordo com Marlene, o apoio dos gestores aos professores nesse processo de retomada e recuperação da aprendizagem dos alunos tem acontecido muito durante as reuniões da equipe. “A direção procura dar um suporte e verificar as dificuldades de cada professor. Montamos grupos de apoio para ajudar também com o aplicativo Rioeduca. E, o mais importante, procuramos dar suporte emocional”, diz. Para ela, o principal apoio que os gestores podem oferecer aos professores neste momento é o acolhimento afetivo.

“Vejo como um grande desafio lidar com todas essas questões e ainda toda uma burocracia. E, com a pandemia, tudo isso aumentou e, muitas vezes, a sala da direção vira um lugar de terapia, onde as pessoas precisam desabafar”, afirma.

Jaspe, da Capistrano de Abreu, avalia que, na volta ao presencial, as reuniões com os professores acabaram ficando prejudicadas. “No ano passado, nos reunimos todas as quintas-feiras, com momentos de diálogo e escuta. Mas, com a retomada das aulas presenciais, esses encontros ficaram cada vez mais raros”. Como professora e coordenadora, ela conta que precisa ir para a escola presencialmente, dar aulas online, que se estendem até à noite e, ainda, atender os pais também nesse período.

Essa sobrecarga tende a ser intensificada, ainda, pela falta de apoio e acolhimento. De acordo com ela, a Secretaria Municipal de Educação realizou palestras com o objetivo de amparar os professores da rede, mas foram insuficientes. “Nós estamos ali, o tempo todo nos expondo, vendo a realidade das famílias. Muita gente ficou desempregada, passou fome e necessidades. Então, nós ficamos muito mobilizados emocionalmente também. É muito difícil você acolher sem ser acolhido”.

Busca ativa e reforço
Na cidade de São Paulo, as 4 mil unidades da rede municipal paulistana foram autorizadas ao retorno presencial, desde que seguindo os protocolos de biossegurança, como a ocupação e o atendimento de até 35% dos alunos, em sistema de rodízio, conforme estipula o Plano São Paulo. Para a Educação Infantil permanece o limite de até 35% da capacidade, mas não há rodízio. Assim como na capital fluminense, a presença em sala de aula não é obrigatória.

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A Secretaria Municipal de Educação afirma ter disponibilizado professores para apoio pedagógico às escolas municipais e atividades complementares nas plataformas online, como o Projeto Trilhas de Aprendizagem. E para tentar garantir o acesso dos estudantes ao Google Sala de Aula, plataforma usada pela rede, a Secretaria distribuiu 100 mil tablets para os alunos – no total, segundo a Secretaria, serão entregues 505 mil equipamentos.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental João Pedro de Carvalho Neto, localizada no Capão Redondo, periferia na zona leste da cidade, todos os estudantes receberam os tablets. “Isso foi fundamental para garantir aos alunos o acesso aos conteúdos digitais, principalmente para os mais carentes, e possibilitar o uso de ferramentas de pesquisa”, diz o diretor Fábio Bottas. De acordo com ele, cerca de 30% dos estudantes da escola dependem de auxílios como o Bolsa Família.

Para medir as lacunas na aprendizagem das crianças e dos adolescentes, a escola aplicou a avaliação diagnóstica da Secretaria e também elaborou avaliação própria, baseada nas atividades online e nos trabalhos e testes dos alunos que já voltaram ao ensino presencial. Segundo o diretor, as maiores perdas em relação ao processo de aprendizagem foram dos alunos do 1º e 2º anos, pois possuem pouca autonomia para estudar sozinhos e os pais têm dificuldade de ajudar. Mas ele também aponta que o diagnóstico em si não é o problema, mas sim conseguir alcançar o aluno para oferecer reforço e outras atividades para superar as dificuldades.

“Os que frequentam presencialmente as aulas estão sendo privilegiados com um atendimento mais personalizado. Para os que estão em casa e apresentam alguma dificuldade, seja de aprendizado ou em relação à frequência, estamos fazendo a busca ativa, oferecendo material impresso e ensinando a usar melhor o tablet. Em muitos casos, tentamos convencer a família no sentido da criança frequentar as aulas”, completa.

A escola também tem oferecido reforço a partir das principais dificuldades observadas. Os alunos que participavam do projeto São Paulo Integral e realizavam atividades extracurriculares do chamado Território do Saber, como tricô, xadrez e passeios culturais, agora usam esse tempo para aulas de reforço em Língua Portuguesa e Matemática. E os estudantes do 6º ano em diante contam com um professor de apoio pedagógico.

Suporte ao trabalho dos docentes
As ações de apoio aos docentes, segundo Fábio, são de melhoria da conexão à internet – a escola participa de um programa do Ministério da Educação (MEC) sobre educação conectada – e a busca por uma distribuição melhor do trabalho, para tentar atenuar a sobrecarga dos docentes. Os 44 professores da unidade se reúnem pelo menos uma vez por semana presencialmente, sendo que 20 deles, que têm jornada integral de formação (JEIF), têm reuniões presenciais quatro vezes por semana. Também há algumas reuniões online. O diretor afirma que os docentes têm total autonomia para reorganizar conteúdos de acordo com a realidade das turmas. “Os professores estão em contato direto com os alunos e sabem o que é necessário para cada turma e para cada aluno. Tudo acompanhado pela coordenação pedagógica”. 

A coordenação, por sua vez, tem acesso a todas as atividades postadas no Google Classroom pelos docentes. “Se o coordenador pedagógico nota que os alunos não estão fazendo as atividades ou têm dificuldades para realizá-las, ele sugere outras propostas ou adaptações ao professor. Ele também verifica junto aos alunos questões de acesso, eventual abandono ou qualquer outro problema”, explica. 

Para Fábio, as adversidades são imensas, pois não é possível atender a totalidade dos alunos todos os dias e os pais têm dificuldade para ajudar os filhos, principalmente no ciclo de alfabetização”. “Não é fácil, mas acreditamos que estamos fazendo o possível”. 

Pesquisa aponta impactos da pandemia na aprendizagem dos estudantes

Estudo mediu a defasagem de alunos do 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio em Língua Portuguesa e Matemática

Estudo divulgado em abril, realizado pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF), a pedido da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, mostrou que defasagem curricular, regressão no processo de alfabetização e lacunas diversas na capacidade de comunicação e de interpretação são alguns dos impactos da suspensão das aulas presenciais na aprendizagem dos estudantes.

A pesquisa foi feita no início de 2021, com 20.743 alunos do 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio da rede estadual paulista. Eles responderam a testes de Língua Portuguesa e Matemática, aplicados presencialmente. As questões foram elaboradas de acordo com o currículo estadual e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), com itens calibrados segundo as escalas de proficiência do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

O estudo apontou o quanto esses alunos precisam avançar, em média, para alcançar resultados de proficiência semelhantes aos obtidos pelos estudantes que cursaram as mesmas séries antes da pandemia. O objetivo é fundamentar e auxiliar o desenvolvimento de estratégias, por parte dos gestores, para atenuar ao máximo os prejuízos na aprendizagem das crianças e adolescentes.

Fonte: CAEd/UFJF

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