Depois de mais de um ano de pandemia, como estão os professores do grupo de risco?

Três educadoras de escolas públicas, que fazem parte do grupo mais vulnerável à Covid-19, relatam as angústias, os desafios e os aprendizados de permanecerem no modelo remoto

POR:
Victor Santos

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamadas com a professora Noranei Lopes da Rocha

A professora Noranei Lopes da Rocha passou por inúmeros desafios em 2020 e 2021, enquanto se reinventava profissionalmente durante a pandemia. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Já se passaram quase um ano e quatro meses desde o anúncio do primeiro caso de contaminação pelo novo coronavírus no Brasil, em fevereiro de 2020. A eclosão da pandemia colocou no centro das preocupações as pessoas do chamado grupo de risco da covid-19, do qual fazem parte, entre outros, os idosos, os obesos e aqueles com doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, câncer e doenças cardíacas e pulmonares.

Muitos professores da Educação Básica fazem parte do grupo de risco. Com o fechamento das escolas para manter o isolamento social, esses profissionais passaram a realizar todas as suas tarefas remotamente, ao mesmo tempo em que precisaram redobrar os cuidados com a própria saúde.

Atualmente, com algumas escolas retomando de forma gradual às atividades presenciais, surge mais uma questão nessa complexa realidade dos educadores do grupo de risco: a incerteza sobre quando será a volta à sala de aula, além dos questionamentos sobre como prosseguir com o ensino remoto enquanto alguns colegas já estão atuando presencialmente.

Para entender como estão esses educadores, NOVA ESCOLA ouviu três professoras de diferentes regiões do Brasil. Mesmo distantes geograficamente, elas enfrentam alguns dilemas bem similares.

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Perdas dolorosas e o trabalho como ponto de apoio e aprendizado
A capital do estado do Amazonas foi uma das cidades mais fortemente atingidas pela covid-19. Em janeiro de 2021, no início da chamada segunda onda da covid no Brasil, o colapso no sistema de saúde de Manaus e as imagens das pessoas precisando de oxigênio suplementar chocaram todo o país e o mundo. É de se imaginar, portanto, a imensa angústia de ser uma pessoa do grupo de risco em meio a um cenário tão complexo.

Entre esses manauaras está a educadora Noranei Lopes da Rocha, de 66 anos, que trabalha como professora de Ensino Fundamental 1 na Escola Municipal Professor Waldir Garcia. “Faço parte do grupo de risco devido à idade e, atualmente, estou hipertensa”, conta a professora. Ela relembra os momentos de desespero, desde que começou a pandemia. “Fiquei preocupada com a minha família toda, especialmente com o meu esposo, que à época tinha 86 anos, se recuperava de um AVC e era paciente renal. Senti muito medo por mim e por todos”.

Não bastasse as preocupações com o risco de contaminação, Noranei precisou, do dia para a noite, se reinventar profissionalmente. “Fora as minhas lutas em casa, precisei lidar com todas as incertezas relacionadas ao home office e organizar um espaço de trabalho no ambiente doméstico. Isso foi difícil para mim e para muitas pessoas da minha escola”.

Noranei organizou um cantinho em sua casa para trabalhar, e aprendeu a usar diversas ferramentas digitais. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Nesse momento de desafios e adaptações, a atuação em parceria foi essencial para lidar com as novas demandas. “Tenho a sorte de trabalhar com uma equipe de profissionais empáticos que apoiam uns aos outros. Um exemplo disso são as oficinas que a minha escola realiza para aprimorar o uso da tecnologia, especialmente das ferramentas Google, o que auxiliou muito a lidar com o home office”, relata. 

Além disso, a professora destaca o esforço da gestão escolar em obter celulares, créditos para conexão e mesmo aparelhos de televisão para os alunos que não tinham acesso a esses recursos -- no Amazonas, o governo estadual transmite conteúdos escolares pela televisão. Noranei também ressalta a força-tarefa que foi mobilizada para a produção de apostilas e materiais para os alunos, que são posteriormente retirados na escola pelos familiares, em dias determinados para cumprir os protocolos sanitários. 

Ela conta que a parceria não ocorreu apenas com os colegas de trabalho, mas também com as famílias. “No ano passado, eu estava com uma turma de 5º ano, então foi mais tranquilo na hora das videochamadas por WhatsApp e Meet, porque os alunos tinham acesso às tecnologias e eram bem autônomos e parceiros”, recorda. Em relação às famílias, ela diz que todos os professores já tinham um contato muito grande com os familiares via WhatsApp, mesmo antes da pandemia. “Então, só intensificamos essa aproximação. Porém, como muitos pais trabalham durante todo o dia, o atendimento ficou concentrado no período noturno, esticando a carga de trabalho dos professores.”

Assim, Noranei passou o ano de 2020 tentando viver um dia por vez e superando os obstáculos que apareciam. Porém, com a virada do ano, veio o baque. “Em janeiro de 2021, todos na minha casa testaram positivo para a covid-19. Perdi um irmão e, em seguida, o meu esposo. Fiquei muito, muito abalada”.

Em meio a perdas dolorosas em 2021, a professora Noranei teve o trabalho como um ponto de apoio. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Com isso, a professora precisou lidar com o luto, com as preocupações com a própria saúde, já que também está no grupo de risco, e com o processo de seguir em frente, tentando conciliar tudo isso com um ano letivo que se iniciava ainda de forma remota.

“Com todo esse sofrimento que passamos, a perda de amigos e familiares e a angústia que sentimos, o trabalho foi o meu ponto de apoio”, conta. “Aprendi muito, e agora sei fazer videochamadas, gravar aulas, fazer reuniões e aulas pelo Meet e, trabalhos e simulados pelo Forms, montar padlets para expor trabalhos dos alunos e apresentar em slides. Por tudo isso, sou grata”.

O desafio de Noranei em 2021 é trabalhar com uma turma de 2º ano, consolidando remotamente a alfabetização dessas crianças. Ela está prestes a tomar a segunda dose da vacina e ainda não sabe exatamente se e quando poderá retornar. Sua escola continua fechada e funcionando remotamente, ao mesmo tempo em que se prepara para um retorno de forma híbrida, seguindo os protocolos sanitários. “Os professores estão loucos para voltar a ter esse contato direto, frente a frente, com os alunos. Todos querem, só estão esperando a vacina”, comenta.

Mudança brusca na rotina e no modo de trabalhar
Bem distante geograficamente de Noranei, a também professora Neuma dos Passos, de 63 anos, precisou lidar com a súbita mudança na rotina quando o estado onde vive, São Paulo, detectou os primeiros casos da covid-19. “Quando a pandemia emergiu e foram tomadas as medidas de distanciamento social, houve um afastamento automático dos professores acima de 60 anos. Nessa hora, os primeiros sentimentos foram de impotência e medo da morte –  não só por mim, mas por todos do meu convívio”, diz a educadora.

Neuma, que está no grupo de risco devido à idade e por ser hipertensa, é professora de Língua Portuguesa e de Língua Inglesa do Ensino Fundamental 2 na Escola Estadual Vereador Maurício Alves Braz, em Itaquaquecetuba (SP). Ela conta que após esse susto e os sentimentos iniciais que vieram com a pandemia, acabou se deparando com outra transformação brusca, dessa vez em seu modo de trabalhar. “Com o início das atividades on-line, afloraram algumas sensações, como a ansiedade para se adaptar a essa mudança súbita, e a própria incerteza em relação ao futuro. Além disso, deu muita saudade daquilo que tínhamos como certo, o tripé alunos, professores e aulas presenciais”, lembra.

As três professoras entrevistadas por NOVA ESCOLA relataram como foi difícil ter que aprender muito rapidamente a trabalhar com tecnologias, e ao mesmo tempo, já colocar tudo isso em prática para seguirem com as suas aulas remotamente. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Reinventar-se em meio à pandemia e com a preocupação de ser do grupo de risco não foi um processo fácil para a educadora. “Tanto nós, professores, quanto os alunos, precisamos urgentemente de um maior letramento digital. Foi muito difícil dominar essas tecnologias, mas felizmente, o ser humano se habitua a tudo, e conseguimos retornos positivos”. Segundo Neuma, o grande problema é que nem todos os alunos têm acesso às tecnologias, o que acentua as desigualdades. “A parte boa é que a escola também disponibiliza conteúdos impressos, o que ajuda muito”.

Passado todo esse período de adaptação, a chegada do ano letivo de 2021 acrescentou mais alguns desafios ao trabalho de Neuma. “Houve um maior prejuízo na interação com os alunos, já que, ao contrário de 2020, não tivemos um contato presencial anterior”. Além disso, neste ano a escola iniciou uma retomada gradual das atividades presenciais, atuando com capacidade de 35% dos alunos, entre os que optaram por retornar – enquanto Neuma, por conta dos fatores de risco, seguiu trabalhando remotamente. “Já tomei as duas doses da vacina, e espero que todos tomem também, para que eu possa voltar a lecionar presencialmente. Por hora, sigo dando aulas para os estudantes que escolheram ou precisaram continuar on-line também”.

Assim, tendo que lidar com o turbilhão emocional em meio a tantas transformações, a professora revela que conta com a ajuda das próprias tecnologias para amenizar a falta de interação presencial com os estudantes. “Por meio de videochamadas, eu converso com eles para ver como estão, esclareço dúvidas sobre as atividades e faço rodas de leitura. Esse contato, apesar de ser a distância, me faz sentir mais perto deles”.

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Saúde mental afetada e novas práticas pedagógicas
Na região Sul do país, a professora Marina de Lima Cardozo também faz parte do grupo de risco para a covid-19, por ter Índice de Massa Corpórea (IMC) maior do que 40. Professora de Língua Portuguesa do Ensino Médio na Escola de Educação Básica Dom Joaquim, em Braço do Norte (SC), ela divide a casa com seus pais, que são hipertensos, e relata que as preocupações não ficaram restritas apenas à saúde física, atingindo em cheio também a sua saúde mental.

“Precisei voltar a fazer sessões com a minha psicóloga, porque comecei a me sentir impotente de uma hora para outra. Fora os dilemas de ser mãe e professora e as questões da minha casa, tive ainda a obrigação de aprender muitas coisas e me reinventar para atuar remotamente”, afirma.

A educadora diz que em meio aos seus próprios problemas, angustiava-se ao pensar em seus estudantes.  “Como trabalhar questões que envolvem conhecimento e perspectivas de futuro e como nutrir seu aluno com sonhos, se você também se sente inseguro em relação ao presente?”, questiona. Além disso, descobriu que os pais de alguns alunos perderam o emprego e outros estavam passando necessidades. “Então eu me perguntava: como apresentar algo que seja interessante para eles, e o que eu  posso cobrar deles, considerando que eles estão vivenciando um contexto tão difícil?”.

O trabalho remoto trouxe dificuldades, aprendizados e reflexões para que a Educação consiga superar os desafios que virão nos próximos. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Dessa forma, o processo de reelaborar as suas práticas profissionais para melhor atender os seus alunos envolveu muito estudo e reflexão – e ao mesmo tempo, experiências diferentes. “Esses alunos são de outra geração, muito mais imagéticos, preferem uma linguagem mais direta. Então, a adequação de alguns conteúdos para o remoto foi desafiadora”, comenta. Para dar conta disso, ela usou metodologias ativas, como a sala de aula invertida, e, claro, muitas trocas com os alunos. “Essas trocas acabaram sendo uma descoberta interessante, porque foi possível realizar um diagnóstico e um ensino mais direcionados aos alunos. Infelizmente, porém, o acesso às tecnologias é dificultado para muitos estudantes”.

Marina acrescenta que alguns preconceitos tornam a vida do professor que dá aulas remotamente mais complicada. “A sociedade ainda acredita que o professor que atua de casa, na verdade, não trabalha. As pessoas não sabem o quanto a gente se dedica, busca e produz. Isso mexe muito com o emocional”, lamenta. Em 2021, a retomada parcial das aulas teve início em Santa Catarina. Mas, por pertencer ao grupo de risco, Marina seguiu remotamente, buscando realizar aulas síncronas via Google Meet para uma interação melhor com os estudantes.

A vacina para os professores chega nesse mês de junho em seu estado, o que faz a professora vislumbrar o que aguarda os educadores no futuro. “Confesso que estou super ansiosa pela vacina, e acredito que todos nós, professores e gestores, devemos e precisamos estar juntos nesse pós-crise para que a escola consiga os melhores resultados”.

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