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A imigração suíça no Brasil

Descubra como foi a chegada dos primeiros estrangeiros a imigrar oficialmente para o Brasil e use o tema para aprofundar o conteúdo

por:
NL
Noêmia Lopes
01 de Junho 2012 - 12:00
Registros da primeira imigração. Biblioteca Nacional de Berna, Suíça/Arquivo Pró-memória de Nova Friburgo e Casa Suíça
Registros da primeira imigração: à esquerda, vista de Nova Friburgo em 1830, de J. Steinmann. Acima, aquarela que mostra a partida do porto de Estavayer-le-Lac, na Suíça (autor desconhecido), e planta de distribuição dos 120 lotes de terra aos colonos suíços

A abolição da escravatura era iminente e faltava mão de obra nas prósperas lavouras de café. Por isso, a partir de 1870, o governo brasileiro decidiu financiar a vinda maciça de estrangeiros para cá. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de 1884 a 1893, 646.427 imigrantes chegaram da Itália, da Espanha e da Alemanha, e outras centenas de milhares continuaram a desembarcar nas décadas seguintes. Esses dados são clássicos e costumam ser abordados nos livros didáticos, nos capítulos sobre os deslocamentos para o território brasileiro e seus contextos históricos.

No entanto, as primeiras experiências formais de imigração para o Brasil começaram antes. "A América portuguesa passava por transformações desde a abertura dos portos, em 1808, quando foram criadas condições para a passagem de visitantes e a instalação de famílias aqui", diz Vantuil Pereira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além de conseguir mais trabalhadores braçais, a corte também debatia a necessidade de "branquear" a população e via no incentivo à imigração europeia um dos caminhos para atingir tal objetivo.

Enquanto isso, na Europa, as Guerras Napoleônicas (ocorridas entre 1799 e 1815) chegavam ao fim, os povos enfrentavam crises econômicas, o pensamento liberal se espalhava e as populações ansiavam por menos repressão. Diante de uma falsa imagem promovida por agentes do governo brasileiro, o Novo Mundo acenava como uma terra de oportunidades. Foi nesse contexto que os primeiros imigrantes oficiais, cerca de 2 mil suíços, deixaram as regiões de Fribourg, Vaud e Valais, em 4 de julho de 1819, em direção a Rotterdam, na Holanda, e seguiram para o Brasil (leia o quadro abaixo). Depois de um trajeto penoso e cheio de baixas, eles foram instalados onde hoje está a cidade de Nova Friburgo, a 136 quilômetros do Rio de Janeiro, onde dom João VI havia adquirido fazendas e mandado construir casas provisórias.

Bastidores de uma nova experiência

Ao partirem em busca de oportunidade, os imigrantes suíços fugiam da miséria e foram trapaceados pelo comerciante Sebastian-Nicolas Gachet (1770-1846). Ele percebeu que o excedente populacional suíço poderia ser mão de obra livre no Brasil e negociou com o imperador. De acordo com a Casa Suíça de Nova Friburgo, o projeto previa a imigração de 2 mil pessoas por ano, na região de Curitiba, para trabalhar com pecuária e metalurgia. Mas dom João VI decidiu financiar só 100 famílias, pagando transporte, alimentação, alojamento por dois anos, sementes e animais, e instalá-las perto da corte. Ao voltar para a Europa, Gachet omitiu a subvenção recebida, recrutou um número maior de famílias e cobrou delas e das autoridades os custos da viagem. Ao chegarem aqui, os imigrantes perceberam que as condições oferecidas para a exploração do território não eram das melhores. "Esse tipo de acordo era rudimentar e não havia maquinário desenvolvido para que o potencial agrícola do país fosse aproveitado", diz Vantuil Pereira, da UFRJ. Em Nova Friburgo, a agricultura de subsistência não foi em frente por causa das condições climáticas. Parte das famílias migrou novamente, para plantar café em terras mais quentes, e parte optou por ficar e trabalhar com comércio.

Na sala de aula, novos ângulos para retratar a imigração

O centro da vila de Nova Friburgo. Arquivo Pró-Memória de Nova Friburgo
O centro da vila de Nova Friburgo em 1873, lar dos imigrantes suíços. É possível que a foto tenha sido feita por Marc Ferrez, fotógrafo franco-brasileiro durante visita de dom Pedro II ao local

Em geral, no ensino da História do Brasil, costuma-se pular essa primeira leva de imigrantes oficiais. Tal abordagem tem justificativa: geralmente investigam-se as origens locais e a história dos antepassados dos alunos e, com isso, chega-se com mais facilidade aos italianos, alemães, espanhóis e japoneses, povos que imigraram em larga escala. "Acabamos por privilegiar esses conteúdos porque temos mais acesso a dados históricos que facilitam as transposições em sala de aula. Mas fazer novas pesquisas com os alunos pode levar a descobertas interessantes. Sem contar que o ensino de História requer mais do que ensinar temas - requer pensar historicamente", aponta Claudia Ricci, professora do Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Pensar historicamente envolve uma série de aspectos, entre eles a contextualização dos acontecimentos e a abordagem de contrapontos. Por isso, além de propor que a turma pesquise sobre a experiência dos suíços (indicando a consulta aos sites dos centros de documentação sobre o assunto, por exemplo), vale estabelecer com os estudantes relações de semelhanças e diferenças entre essa leva migratória e a que faz parte do passado do município onde você leciona (leia o quadro abaixo).

"O trabalho com o que está próximo é importante. Ele permite que as crianças se vejam como sujeitos históricos e levanta questões riquíssimas que não estão registradas na historiografia. Mas contrapontos são indispensáveis para o percurso educativo", diz Claudia. Isso pode ser feito quando a turma já pesquisou e conhece elementos da população do local em que mora. Assim, tem oportunidade de avançar com base em questionamentos como: "Em nossa cidade, foi assim que aconteceu, tal como estudamos. Mas e nos outros locais do Brasil? Quais povos chegaram? A partir de quando? O que os atraiu?" Então, a discussão sobre os primeiros imigrantes pode ser retomada e aprofundada, no sentido de auxiliar a garotada a compreender os motivos que levaram diferentes povos a buscar as terras brasileiras ao longo do século 19 e as razões pelas quais o governo daquela época se interessava muito pela vinda desses estrangeiros.

Longe ou perto

Conheça dois procedimentos que auxiliam o ensino desse conteúdo:

- Se a turma está distante do objeto de estudo, a maior aliada pode ser a internet - desde que as fontes de pesquisa sejam confiáveis. Sites de museus, centros de documentação, arquivos públicos e pesquisas acadêmicas são boas referências e fornecem arquivos de texto, imagem e vídeo que apoiam o trabalho em sala de aula.

- Se o grupo está próximo do objeto de estudo, planeje visitas a museus e locais históricos e explore a história oral. Mas não despreze o contexto nacional. "É preciso investigar as potencialidades da região e, então, relacioná-las com a história do Brasil", diz Juliano Custódio Sobrinho, selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

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