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Replanejamento: pandemia obriga escolas a fazerem adaptações constantes para manter alunos motivados

Profissionais de duas instituições de tempo integral, no Piauí e no Amazonas, relatam como têm lidado com a dinâmica do planejamento contínuo em meio aos desafios do período

POR:
Lisandra Matias

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamadas com a professora Márcia Sicsú.

Fotografia produzida por vídeo chamada com a professora Marcia. A personagem segura alguns livros em sua janela.
A professora Márcia Sicsú, que leciona Língua Portuguesa no Centro Educacional de Tempo Integral Áurea Pinheiro Braga, em Manaus (AM). Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

O Centro Estadual de Tempo Integral (CETI) Augustinho Brandão é a única escola de Ensino Médio de Cocal dos Alves, no Piauí. A pequena cidade, de perfil rural, tem cerca de 6 mil habitantes e registra uma das menores médias de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Apesar das adversidades, a instituição conta com uma trajetória de sucesso, que inclui mais de 200 medalhas em olimpíadas científicas, somente nos últimos cinco anos, e a aprovação de alunos em universidades públicas da região.

Mas, em 2020, a pandemia impôs novos desafios com a adoção do ensino remoto e a necessidade de replanejar as atividades. “Depois do primeiro mês de suspensão das atividades presenciais, em abril do ano passado, decidimos, meio no escuro, fazer as aulas pelo WhatsApp”, diz Raimundo Alves de Brito, professor de Matemática. Ao longo de todo o ano, o ensino ocorreu basicamente por meio do envio de áudios e vídeos curtos, em que o professor comentava exercícios ou dava explicações sobre os conteúdos.

O CETI Augustinho Brandão não voltou, em nenhum momento, ao sistema híbrido ou presencial. Cerca de 30% dos alunos não têm acesso à internet – principalmente os do Ensino Médio noturno e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) – e tiveram que seguir seus estudos com atividades e conteúdos impressos. Mesmo assim, a evasão foi de apenas seis do total de 580 estudantes. Com o planejamento bimestral recém-concluído, o desafio foi trabalhar o conteúdo programado. “Tentamos preservá-lo principalmente para as turmas de 3º ano, que fazem o Enem. Em relação ao calendário, conseguimos cumprir a quantidade mínima de horas e dias letivos e fechar o ano.”

Fotografia produzida por vídeo chamada com a professora Marcia. A personagem está com celular em mãos.
Um dos trabalhos feitos pelos alunos da professora Márcia durante a pandemia foi gravar vídeos sobre obras da literatura brasileira, que foram divulgados no Instagram da escola. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Falta de conectividade dos jovens é maior no Norte e Nordeste

Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), coletados entre outubro de 2019 e março de 2020, revelam que cerca de 89% da população de 9 a 17 anos é usuária de internet. Mas esse percentual é menor entre crianças e adolescentes que vivem em áreas rurais (75%), nas regiões Norte e Nordeste (79%) e em domicílios das classes D e E (80%). Isso significa que uma parte substancial desses jovens não têm acesso a informações, incluindo conteúdos escolares, por meio de plataformas digitais.

Iniciativas como a do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) buscam evitar a evasão pela falta de conectividade: a organização doou kits com um smartphone, um chip pré-pago e recargas mensais por cinco meses. Em parceria com o Instituto Peabiru, em janeiro de 2021 foram entregues 300 kits para jovens de Manaus (AM) e Belém (PA), com o objetivo de dar condições para os estudantes se prepararem para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Conseguimos alcançar adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade e estavam desanimados a participar do Enem. Muitos conseguem realizar o sonho de acessar a universidade, e as histórias desses jovens são inspiradoras para outros”, diz Rayanne França, oficial do Programa de Desenvolvimento e Participação de Adolescentes do Unicef, em Manaus. A iniciativa deve continuar neste ano, com o nome #QuemTáOn?.

Para Jane Reolo, coordenadora de Soluções com Tecnologia do Instituto Unibanco, um dos desafios do planejamento no contexto da pandemia é não ter mais as mesmas condições de antes. “Fomos afetados pelas questões sanitária, econômica, social e emocional – o mundo não está igual; consequentemente, a escola não pode ser a mesma. Se voltarmos para ela, estaremos incidindo num erro.” Segundo ela, o diretor ou coordenador precisa considerar a situação de conectividade dos estudantes, ou seja, quem tem ou não acesso à internet e em quais condições, para criar uma diversidade de possibilidades a fim de garantir a participação de todos. Para isso é preciso desenvolver a escuta e fazer uma pesquisa ou um mapeamento. “Políticas públicas de conectividade são um dever do estado, considerando que só o que temos é o remoto. Enquanto a conectividade não chega, cabe aos gestores garantir esse direito. Mas como eu planejo se desconheço em que situação e contexto os alunos estão vivendo?”, questiona-se.

Foi o que fez Darkson Vieira ao assumir a direção do Augustinho Brandão, no início de 2021. Ele realizou uma pesquisa com todos os alunos para verificar quantos tinham acesso à internet e o tipo de conexão e dispositivo que possuíam. “Descobri que os pais tinham investido nisso no ano anterior. Quase 100% dos alunos do Ensino Fundamental e do Médio tinham conexão e um cantinho para estudar”, conta o diretor. A partir daí, as aulas passaram a acontecer por videoconferência na plataforma Zoom e, segundo o professor Raimundo, estão fluindo bem, no horário das 7h40 às 16h30.

Cotidiano online e priorização de conteúdos
No Augustinho Brandão, os professores dispõem de um instrumento de planejamento, em que registram as habilidades que trabalharão com os alunos, os conteúdos, percursos metodológicos e materiais de apoio utilizados, como apostila, apresentação de PowerPoint ou vídeo. “Fazemos reuniões mensais, e o planejamento das aulas tem considerado as habilidades da Base e os conteúdos de referência para cada ano.” Alguns projetos também seguem no modelo virtual, como as rodas de leitura. E, neste ano, serão realizadas online as monitorias de Matemática para a preparação para a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), uma tradição na escola.

O replanejamento também foi intenso no Centro Educacional de Tempo Integral (CETI) Áurea Pinheiro Braga, em Manaus (AM), que atende pouco mais de 1.000 alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Localizado no bairro da Compensa, área de alta vulnerabilidade social e com altas taxas de violência e criminalidade, recebe não apenas crianças e jovens de baixa renda, mas também de classe média, atraídos pelo prestígio da instituição. Em 2021, por já dar ênfase ao ensino de Língua Espanhola, iniciou um programa em parceria com o Unicef para matrícula de refugiados e migrantes, e atualmente conta com 30 estudantes venezuelanos e um haitiano.

Fotografia produzida por vídeo chamada com a professora Marcia.
“O ensino remoto exige muito mais do professor. É preciso diversificar as aulas e se reinventar para motivar os alunos”, diz a professora. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Durante o ano de 2020, a escola funcionou de março a julho no formato remoto e de julho a dezembro no sistema híbrido. No início deste ano, retornou novamente ao remoto. “Em julho, meu planejamento precisou ser modificado para que eu ministrasse o máximo de conteúdos em pouco tempo, já que os alunos só assistiam a duas aulas presenciais por semana”, conta Márcia Sicsú, professora de Língua Portuguesa, que resumiu conteúdos e revisou o que havia dado nas aulas remotas, pois nem todos os alunos tiveram acesso a elas. “Houve conteúdo que eu planejei dar em dois meses e tive que ministrar em duas semanas”, relembra.

Ela seguiu a orientação da Secretaria de Educação do Estado e priorizou conteúdos – no caso de Língua Portuguesa, habilidades relacionadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como interpretação de texto. Durante o período remoto, os alunos acompanham as aulas por meio do programa “Aula em Casa”, do governo estadual, que funciona em canais abertos de TV, no YouTube e em outras plataformas digitais. Paralelamente, todas as turmas possuem uma sala de aula virtual no Google Classroom e grupos no WhatsApp, em que os professores publicam assuntos e atividades complementares. “Complemento as aulas da TV com atividades extras, indicação de leituras e videoaulas e também faço aula online. Todos teriam que assistir ao ‘Aula em Casa’, mas os alunos preferem aulas ao vivo”, diz Márcia. Em média, 60% a 70% dos alunos participam das atividades online.

Ensino remoto exige reinvenção constante 
Por não conseguir garantir a presença de todos os alunos, a professora reserva os assuntos mais complexos para o retorno presencial. No plano que faz mensalmente, ela verifica o grau de dificuldade para decidir o que pode ser dado de forma remota. No replanejamento, Márcia considerou quem pensa em prestar vestibular e o Enem. “Vi nos editais os assuntos mais pedidos para eles poderem se preparar revisando pelo menos o básico”, explica.

Fotografia produzida por vídeo chamada com a professora Marcia. A personagem utiliza o computador para fazer contato com os alunos além do planejamento de suas aulas..
Márcia complementa os conteúdos disponibilizados em canais abertos de TV com atividades extras, indicação de leituras, videoaulas e aulas online. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Segundo Jane Reolo, como as condições de acesso são diversas, não é possível ter um único conjunto de propostas que dê conta de todos os estudantes. “A escola não pode abandonar ou excluir quem não tem conexão e nem nivelar por baixo. Vale considerar uma divisão por blocos de acesso – um síncrono (como o Zoom), um assíncrono (como o WhatsApp), um por meio da TV e outro por material impresso”, sugere. Esse planejamento pode ser feito de forma colaborativa. “Dessa forma, os professores aprendem uns com os outros e podem pensar em estratégias interdisciplinares.” A situação complexa incentiva planejar a curto prazo e fazer pausas frequentes para entender se os caminhos escolhidos foram efetivos ou não.

A professora Márcia destaca a necessidade de diversificar e reinventar-se sempre para motivar os alunos a estudar e participar das atividades. “O ensino remoto exige mais. Um dia sigo o caderno digital, no outro proponho atividades pelo Google Forms e em outro levo um quiz, por exemplo. Pesquisar coisas novas para eles é parte da minha rotina.” Recentemente, ela incentivou os alunos do 3º ano a lerem literatura brasileira. Distribuiu autores e obras do pré-modernismo para eles pesquisarem e gravarem um vídeo contando sobre os livros e por que deveriam ser lidos. “Como eles gostam de gravar e editar para as redes sociais, aproximei isso do conteúdo. Os trabalhos, que considerei muito bons, foram divulgados na conta da escola no Instagram.”

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