Retomada das aulas presenciais em Serrana (SP): professoras compartilham experiência após vacinação em massa

Volta é marcada por esperança, receio de contágio e rotina que inclui protocolos de biossegurança

POR:
Paula Salas

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamadas com a professora Juliana Barbosa

A professora Juliana compartilha a experiência de retornar à escola já vacinada. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Um suspiro de alívio ao vislumbrar, ainda que distante, o fim do pesadelo que foi a pandemia de covid-19. O emaranhado de sentimentos, perdas e desafios enfrentados desde março de 2020 se transforma em lágrimas para Juliana Barbosa, professora de crianças pequenas na Escola Municipal de Ensino Fundamental Jardim D. Pedro I, em Serrana (SP). "Ano passado foi muito triste, a escola não tinha vida. Foi uma luta”, emociona-se a educadora.

A cidade foi escolhida para fazer parte do Projeto S, estudo do Instituto Butantan, de São Paulo, sobre a efetividade da vacina Coronavac. Entre 17 de fevereiro e 11 de abril deste ano, a população acima de 18 anos de Serrana foi vacinada. Mais de 27 mil pessoas receberam as duas doses, o que representa 95% do público-alvo do estudo, que procurava imunizar 28.380 adultos. Desde então, o município apresenta uma redução de 95% no número de óbitos por covid-19 e uma diminuição de 80% dos casos sintomáticos e de 86% das hospitalizações, segundo o Instituto Butantan

Com o fim da imunização e depois de 15 dias da 2º dose, as escolas começaram a se organizar para a volta às aulas. No dia 10 de maio, depois de mais de um ano em casa, as crianças e adolescentes da rede pública de Serrana retornaram às escolas de forma presencial. "A vacinação em massa foi um milagre que não esperávamos. Ela devolveu a vida e esperança à escola. Vemos [com o retorno] a vida caminhando de outra forma, se reconstruindo", afirma Juliana.

As três educadoras entrevistadas comentam a satisfação de um retorno mais seguro após a imunização. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Sentimentos sobre a vacinação e o retorno
Assim como Juliana, muitos professores viveram o alívio da imunização e puderam retornar à escola de uma forma mais segura. "Somos privilegiados por termos tomado as duas doses da vacina antes de todo mundo. Ela trouxe um alento, esperança e segurança", diz Valdirene Ribeiro, professora de 1º ano do Ensino Fundamental na Escola Municipal Prof. Dilce Gonçalves Netto França.

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No entanto, nem todos os educadores do município tiveram essa oportunidade. Para participar da vacinação era preciso residir na cidade. Por isso, quem trabalha em Serrana, mas não mora lá, não se encaixou no público-alvo do projeto e, portanto, não foi vacinado. Os professores com esse perfil permanecem trabalhando de forma 100% remota. Esses educadores aguardam sua vez na vacinação e, conforme recebem as duas doses, também estão retornando. "Eles precisam ser vacinados para voltar a trabalhar. Se não tivesse sido imunizada, eu também teria medo de voltar", destaca Valdirene.

Esse é o caso da professora Eliana Vieira, que dá aula de Língua Portuguesa para turmas de Fundamental 2 na Escola Municipal de Ensino Fundamental Profª Maria Celina Walter de Assis. Ela não mora na cidade, mas foi vacinada em Ribeirão Preto (SP), dentro do grupo de educadores com idade acima de 47 anos. Por isso, retornou em maio à escola.

Ainda que imunizadas e felizes de voltar à rotina escolar e rever os alunos, o medo do retorno e a preocupação com os cuidados ainda permanecem. "Eu estava com receio sim, mas, vendo todos os cuidados, sinto um prazer muito grande em retornar", diz Eliana. "Eu me cuido em dobro, tenho responsabilidade pela minha família e pelos alunos [que não foram vacinados]", complementa a professora de Língua Portuguesa.

Mesmo vacinadas, as educadoras permanecem preocupadas com o contágio e reforçam a importância dos protocolos de biossegurança

Preparação e organização da volta
Antes dos alunos retornarem, os professores tiveram um momento só para eles nas escolas. Durante esse período, eles receberam uma capacitação da Secretaria de Saúde, com orientações e informações sobre os protocolos a serem seguidos. A gestão escolar também aproveitou a oportunidade para falar sobre a volta presencial.

Seguindo o protocolo estabelecido pelo governo estadual de São Paulo, as escolas recebem diariamente, no máximo, 35% da sua capacidade total. Dessa forma, as turmas foram divididas em três grupos. Eles vão à escola um dia e ficam em casa dois. "Está sendo desafiador e não é igual antes, mas a Educação está acontecendo. Está sendo lindo mesmo com um grupo menor", ressalta Juliana.

O retorno foi opcional, e as famílias que não se sentiram confortáveis em enviar as crianças e adolescentes para a escola puderam optar por permanecer 100% no formato remoto. Dessa forma, apesar de em cada grupo ter por volta de 10 alunos por turma, acabam indo menos estudantes por dia. "Os desafios continuam, porque alguns pais não se sentiram seguros e continuaram só no online", complementa Valdirene. No entanto, a adesão tem aumentado com o passar das semanas, conforme as famílias verificam o cumprimento dos protocolos. "A escola está preparada, tem medição de temperatura, álcool em gel em todas as salas, marcações no chão e uso obrigatório de máscara”, afirma Eliana.

Curso gratuito: como acolher e preparar com segurança o retorno às aulas

Entenda como os gestores podem se planejar para dar conta das várias dimensões do acolhimento: o emocional; a busca ativa (encontrar maneiras de trazer os alunos de volta à escola também é acolher); a organização para um retorno seguro, com todos os protocolos de higiene e saúde, e a garantia da aprendizagem.


Para quem dá aula para alunos mais novos, há também um trabalho contínuo de explicar os protocolos e reforçar os combinados sempre que necessário. "A gente procura seguir todos os procedimentos, mas criança é criança", pontua Valdirene, que atende alunos do 1º ano do Ensino Fundamental. No caso dos mais velhos, a professora Eliana relata que eles estão seguindo os protocolos para além do que era esperado.

Reação de alunos e famílias

Valdirene observa que estar no ambiente escolar é importante para as crianças, e elas estavam necessitando disso. Para Eliana, o cumprimento dos protocolos por parte dos alunos está muito relacionado ao desejo de que o retorno dê certo e possam continuar presencialmente. "É isso que eles querem, vemos nos olhos deles que estão todos entusiasmados".

A professora Juliana destaca a importância do trabalho com o emocional das crianças e das famílias neste retorno. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

A alegria de estar no presencial também é compartilhada pelos pais e responsáveis que acompanharam os desafios e as dificuldades dos alunos no ensino remoto. "Eles estão bem confiantes, estavam aguardando essa volta. Foi um alívio", diz Eliana. Para aqueles que ainda estão receosos e optaram por não voltar ainda, Juliana destaca que as escolas estão abrindo as portas para as famílias para mostrar os protocolos e tirar as dúvidas, de modo que eles se sintam seguros com a volta. Além disso, as escolas mantêm o esforço da busca ativa.

Planejamento das aulas e a divisão entre o presencial e o remoto
Acompanhar quem está indo presencialmente e aqueles que permanecem a distância tem sido um desafio para as professoras. Para atender quem está em casa, o tempo das aulas diminuiu. As aulas de Eliana, que antes eram de 50 minutos, passaram a ser de meia hora. Os 20 minutos de diferença é o momento em que elas postam as atividades nos grupos, tiram as dúvidas e marcam os encontros virtuais pelo Google Meets.

No caso das professoras Juliana e Valdirene, que ficam durante todo o período com a turma, diminuiu em uma hora o tempo que as crianças ficam na escola. "É um quebra-cabeça. Cada grupo trabalha de uma forma, é como se fossem três tipos de aula por dia, está bem complicado", compartilha a professora de 1º ano. “O desejo é conseguir aumentar o número de crianças por dia para que esse rodízio diminua", complementa Juliana.

As educadoras mantem rotina de produção e envio de materiais para os alunos que permanecem em casa. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

O foco neste momento inicial é no diagnóstico das aprendizagens e pensar na recuperação dos conteúdos que ficaram para trás. “Partimos do pressuposto que eles não tiveram aulas. Então, tomamos o cuidado de sempre fazer uma revisão antes de começar um conteúdo novo”, afirma Eliana.

Juliana está dando continuidade às atividades que estavam sendo realizadas de forma remota desde o início do ano: as noções de reconhecimento do mundo, da escola e da família. Também conversou com as crianças, de forma lúdica, sobre a importância dos hábitos de higiene e dos protocolos de segurança. "A ideia é trazer a covid como algo que vai passar, que tem regras a serem cumpridas, mas de uma forma que se sintam seguros", explica a educadora.

A professora de Fundamental 2 também destaca a preocupação com o emocional dos jovens durante o retorno presencial. Ela utiliza músicas e poesias para fazer a sensibilização das turmas. “Busco sempre levar uma mensagem de otimismo e esperança e que as coisas vão melhorar”.

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