Adaptação: as competências socioemocionais como suporte para o ensino remoto ou híbrido

Focadas no protagonismo do aluno, novas formas de ensinar e aprender mobilizam diversas competências e desafiam professores, crianças e adolescentes

POR:
Victor Santos
Crédito: Getty Images

O professor de Educação Física Romulo Macedo Monteiro já realizava, em tempos de ensino presencial, um trabalho envolvendo competências socioemocionais – assim como faziam os seus colegas da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Professora Maria Afonsina Diniz Macêdo, em Várzea Alegre (CE). “Quando os alunos tinham contato o dia todo, a competência ‘engajamento com os outros’ era a que eu mais explorava. Afinal, eram muitas as situações de relacionamento envolvidas na convivência diária”, relembra.

Apesar disso, o educador relata que em meio a todos os desafios que se impuseram  no mundo da educação desde o início da pandemia, o trabalho com socioemocionais continua essencial, funcionando como um dos principais pontos de apoio na adaptação pela qual a sua escola – assim como as instituições de todo o país – está passando. Trata-se de um momento em que emergem inúmeras situações novas envolvendo os processos de ensino, ao mesmo tempo em que os professores precisam acolher e envolver os estudantes.

“As socioemocionais têm contribuído para a permanência dos alunos nas escolas e para o bem-estar deles”, comenta o professor,  citando exemplos do dia a dia. “Além da mobilização que fizemos em 2021 para recepcionar de forma remota alunos que nunca tínhamos visto, eu particularmente destacaria a competência da ‘autogestão’. Desde o início da pandemia, os estudantes precisaram descobrir como organizar as suas rotinas – como a hora de dormir e acordar – e aprender a separar momentos para acompanhar as aulas, em horários estabelecidos de acordo com as possibilidades deles, não se esquecendo de reservar um tempo para o lazer”.

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Consolidando a autonomia dos alunos
Atuar para que os seus estudantes desenvolvam mais autonomia não é uma exclusividade de docentes que dão aulas para adolescentes. A professora de Educação Infantil Sílvia Anália Jericó conta que na sua turma de 4 anos na Escola Municipal Bento Freire de Souza, em Chorrochó (BA), “foi visível o benefício de trabalhar as competências socioemocionais ao longo da pandemia, porque estamos todos em processo de adaptação a uma nova rotina: professores, pais e crianças”.

As competências estão inseridas na rotina, pois sua escola utiliza a Cloe, uma plataforma digital de aprendizagem (que propõe projetos com metodologias ativas, alinhados às competências da BNCC). A pandemia acelerou o uso dessa e de outras tecnologias como WhatsApp, Google Meet e Google Classroom, exigindo formações e uma verdadeira reinvenção profissional. “Cada vez mais descobrimos a importância da tecnologia no avanço da aprendizagem, e investimos em metodologias ativas que colocam os alunos no centro”, comenta a professora. “Essas atividades desenvolvem várias características, com destaque para a criatividade e a autonomia. Tudo isso, claro, com o acompanhamento do professor, para que se dê de forma efetiva e significativa.”

Autonomia também foi destacada pela professora Aline Pereira Graciosa, que atua no Ensino Fundamental 1 e atualmente é supervisora pedagógica na Escola Municipal Dom Othon Motta, em Campanha (MG). Há três anos a rede de ensino municipal adotou a solução do Programa Semente; o início das atividades aconteceu quando ela lecionava em uma escola rural. “Primeiro tivemos formações nessas competências, trabalhando em nós mesmos questões como autocontrole e resiliência”, recorda, “em seguida, foi a vez das crianças, e o conceito de aluno protagonista foi essencial: elas elaboraram uma carta compromisso, em que reconheciam seus sentimentos e emoções, e os pontos que gostariam de desenvolver, como ter boas amizades e ser respeitadas”. Aline aponta que os resultados foram interessantes não só com a turma, mas repercutiram entre as próprias famílias. “No ensino remoto, tudo ficou mais complexo, porque as interações nas atividades são fundamentais, e temos poucos momentos síncronos”, lamenta a supervisora escolar.

Ainda assim, as duas educadoras reforçam a percepção de que recursos digitais serão uma constante mesmo com a retomada presencial. “Nunca mais vamos estar à frente dos alunos apenas com a lousa e com a voz”, comenta a professora Sílvia, algo que a supervisora Aline também enfatiza, indicando que “uma mudança estrutural na sala de aula vai ter que acontecer, porque os próprios alunos vão pedir isso”.

Confira 4 materiais sobre socioemocionais e sala de aula

Selecionamos alguns conteúdos que vão ajudar no trabalho envolvendo essas competências no dia a dia escolar 

Quando as emoções entram no currículo
Nessa reportagem da NOVA ESCOLA, detalhamos os conceitos que envolvem as socioemocionais, com exemplos de aplicação prática em escolas públicas (ainda em tempos presenciais), entrevistas com especialistas do Brasil e dos EUA, referências de vídeos, livros e materiais complementares. 

Competências socioemocionais de A a Z
Esse glossário produzido por NOVA ESCOLA detalha 31 competências socioemocionais para usar com os alunos em sala de aula, e assim trabalhar questões ligadas a solução de problemas, abertura a novas experiências e uma melhor comunicação. 

Habilidades socioemocionais e desenvolvimento pleno
Em sua coluna no site de NOVA ESCOLA, o especialista Mozart Neves Ramos compartilha uma reflexão a respeito do mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo (exacerbado nesse pós-pandemia), com o papel das socioemocionais nesse conceito. 

Conteúdos embasados nas competências socioemocionais para sala de aula
Sabendo das complexidades que a Educação pública brasileira enfrenta desde a pandemia, o Instituto Ayrton Senna preparou atividades para serem usadas no ensino remoto e no retorno às escolas. São conteúdos para Ensino Fundamental 1, Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio.

Novas formas de ensinar e aprender
Os relatos dos três professores mostram como algumas questões já se inseriam na Educação mesmo antes da  covid-19. “Quando a BNCC trouxe as competências gerais, ela justamente passou a colocar em foco a formação do indivíduo, vendo-o como um agente da cidadania, alguém que por meio de valores, atitudes e reflexões, vai ajudar a construir a sociedade”, explica Inês Kisil Miskalo, gerente-executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna, “o que aconteceu foi que a pandemia deu uma chacoalhada nos processos e nas pessoas. A escola passou a ir até o aluno, descentralizou o processo educacional e expôs aos professores uma diversidade de contextos”.

O cenário intensificou o olhar para sentimentos, emoções e vida em sociedade por parte de professores e estudantes. “As competências socioemocionais se tornaram fundamentais na área da Educação, especialmente empatia e resistência à frustração, que não eram tão visíveis anteriormente”, diz Inês. A ênfase nesses dois elementos se dá, em primeiro lugar, porque crianças, adolescentes e educadores sofreram perdas nesse período, e é preciso saber se colocar no lugar do outro no momento do acolhimento. Além disso, os diversos contextos de ensino apresentados se tornaram um desafio e tanto para os professores. Eles se depararam com novas ferramentas de trabalho (e a dificuldade para usar recursos tecnológicos pode gerar frustração) e com novas formas de ensinar e aprender, que precisaram dominar e colocar em prática. 

“Não temos mais os tradicionais 50 minutos de aula; agora, é preciso garantir a chegada de atividades, informação e conhecimento em modalidades diversas, porque cada um terá acesso aos conteúdos escolares de uma forma diferente –  por isso é válido rever metodologias”, destaca Inês, que complementa: “isso obriga pensar no conhecimento de forma individualizada e personalizada. Para o professor, é um momento desafiador, porque ele é apenas um, e precisa se dividir em diferentes possibilidades”.

Trilha de cursos - Ensino Híbrido

Nessa trilha de cursos 100% gratuitos e voltados para professores dos Anos Finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, são apresentadas diversas estratégias e possibilidades de trabalho com Ensino Híbrido, que podem ser realizadas em salas de aula presenciais, parcialmente presenciais e remotas 


Adaptação na prática: a aprendizagem no centro
De acordo com Letícia Lyle, mestre em currículo e competências socioemocionais pela Columbia University e co-fundadora da Cloe, essas novas metodologias de trabalho  fazem os estudantes olharem ao seu redor, interagirem e se questionarem. Entramos, então, no território das metodologias ativas. “O mais importante de tudo, pensando em metodologia ativa, é que a aprendizagem precisa estar no centro de todos os processos”, sintetiza a especialista. “Então, o trabalho envolve fatores como analisar a prática didática e a própria sala de aula em tempos presenciais, desenvolver um olhar para o conteúdo de forma que, a partir dele, possam ser feitas perguntas; permitir um espaço de expressão dos indivíduos, e ao mesmo tempo promover interações entre os estudantes; e por fim, pensar em avaliação ou reflexões que acompanhem esses processos todos”.

A lista é longa, mas não é preciso se desesperar para trazer todos esses fatores logo de cara para sua prática docente: Letícia destaca que, depois de colocar a aprendizagem no centro, é importante levar em consideração as especificidades e o que é possível fazer dentro de cada contexto. “A chave é pensar em estratégias para que o estudante permaneça ativo e que a aprendizagem esteja no centro, ao longo de todo o processo”, comenta a profissional, “a partir disso, podemos então pensar em aprendizagem baseada em projetos, sala de aula invertida, ou, no presencial, reorganizar a sala de aula por estações de trabalho ou grupos.” 

Pensando especificamente em ensino remoto ou híbrido, Letícia enfatiza o apoio das socioemocionais no processo de readequação das práticas educacionais. “A gente tem que pensar que a interação mudou ‘de cara’, e como as socioemocionais lidam de forma efetiva com a nossa relação com nós mesmos e com o outro, acabam sendo importantes para ajudar a nos adaptarmos a essa nova realidade. Tínhamos uma autonomia que funcionava no presencial, e agora estamos tentando construir essa autonomia novamente”. 

Ainda sobre esse processo de adaptação, Inês, do Instituto Ayrton Senna, reforça que o trabalho envolvendo novas metodologias e formatos, em meio a uma pandemia que praticamente fundiu os anos letivos de 2020 e 2021, exige que professores e gestores escolares fujam da visão de planos anuais, anteriormente  comuns nas escolas. “Precisamos sair um pouco do tempo escolar, e ampliar o tempo da aprendizagem”, indica a educadora, “podemos, por exemplo, pensar em planejamentos mais curtos, até para ver o que está dando certo, e rever o que não está funcionando”. 

Inês analisa que a Educação está diante de um cenário que envolve  adaptação, aceleração de questões já trazidas pela BNCC, e transformações nas práticas e processos pedagógicos. Segundo ela, a própria sociedade brasileira se vê diante de uma reflexão crucial. “A pandemia, com toda a tristeza, a tragédia e os riscos que ainda estamos vivendo, trouxe por outro lado uma oportunidade para nos repensarmos enquanto uma sociedade educadora. A pergunta que fica é: o quanto você oferece na escola, e o quanto o aluno está aberto para se envolver com o que é oferecido?”, conclui a educadora.

A adaptação na perspectiva dos estudantes 

Se a pandemia, por um lado, fez com que educadores de todo o país precisassem acelerar as dinâmicas de repensar práticas e processos educacionais, é essencial que os questionamentos também sejam realizados na perspectiva dos alunos. Como obter o engajamento deles nessas novas formas de ensinar e aprender? 

É preciso construir estratégias de convencimento e conteúdos que dialoguem com as suas vivências. “Engajamento é um encontro do que eu quero falar com aquilo que o meu estudante quer aprender”, resume a educadora Letícia Lyle, “então, se a proposta não estiver conectada com o mundo real, se o aluno não se enxergar na pergunta e na resposta, ele não se sente engajado”. 

A também educadora Inês Kisil Miskalo avalia que a chave, especialmente no pós-pandemia, está em construir reflexões que perpassem tanto pelas competências socioemocionais, como a tão citada ‘autogestão’, quanto pela transdisciplinaridade entre os conteúdos programáticos. 

“É possível trabalhar Língua Portuguesa com um texto de teatro, colocando o aluno em uma peça, mesmo a distância, ou  pensar em um experimento de ciências que ajude a alfabetização”, exemplifica a profissional, “já no Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio, uma boa sugestão é explorar as notícias de jornal para discutir temas que estamos vivendo. A pandemia exacerbou a necessidade de abordarmos situações concretas, e de forma transversal”.

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